Brasil Econômico – Presidente da Unica diz que controle de preço da gasolina prejudica etanol

22/02/2012

Em entrevista ao Brasil Econômico, Marcos Jank, da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), afirma que o PIB do etanol, hoje de US$ 48 bilhões, poderá dobrar até 2020, mas é preciso que o governo deixe de controlar artificialmente o preço da gasolina

Elaine Cotta, Erica Polo e Naiara Bertão

Desoneração da gasolina e custo maior de produção destruíram compettiividade do etanol

Quebra de safra, problemas climáticos e dificuldades financeiras das empresas estão entre as responsáveis pelo momento tumultuado pelo qual passa o setor de cana do país. Mas não é só isso.

“Além dos problemas climáticos e da pouca renovação das lavouras, vale lembrar que houve perda de competitividade do etanol frente à gasolina pelo aumento de custos em sua produção, o que desestimulou os investimentos no setor”, afirma o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), Marcos Jank. Em entrevista ao Brasil Econômico, ele lembra que houve um aumento de custo da ordem de 40%.

“O custo do etanol na usina subiu e a gasolina na bomba está com o preço parado há seis anos e essa é um das razões para que hoje tanta gente opte pela gasolina ao invés do etanol”, reclama, lembrando que houve, nos últimos anos, desonerações para a gasolina,mas não para o etanol.”O peso dos impostos na gasolina, que era 47% do valor na bomba, caiu para 35%. O etanol paga 31%. Parece menos, mas na verdade não é porque o etanol tem conteúdo energético menor e no custo por quilômetro rodado, a gasolina acaba sendo menos tributada”, diz, lembrando que, no fim, essa desoneração da gasolina e o aumento de custos de produção destruíram as margens das usinas resultando no congelamento de novos projetos ou novas áreas para o cultivo da cana.

“Com o preço do etanol hoje, não dá para fechar a conta.”

Mas nem tudo é notícia ruim

Jank vê luz no fim do túnel e estima que o mercado volte a crescer. “O plano é crescer 9% ao ano e implantar 120 novas unidades de produção de cana. É muito difícil, mas é possível.”

O presidente da Unica achou positivo o fim da tarifa de importação dos Estados Unidos, mas não vê isso como risco para o abastecimento do mercado nacional. “No curto prazo não vejo desabastecimento porque o que vai sair de produto é muito pouco, as exportações para os Estado Unidos são em volumes muito baixos. E para resolver isso, no Brasil temos o carro flex e o ideal é que ele continue “flexando”, brinca, mas cobra do governo a adoção de políticas públicas que estimulem o setor, que hoje tem PIB de US$ 48 bilhões, exporta US$ 15 bilhões e gera milhares de empregos.

“Até 2020, estão previstos investimentos de R$ 156 bilhões. Qual país não quer investimento dessa magnitude, principalmente quando ele é feito pelo interior e tem tantos subprodutos?”, questiona, cobrando o fim dos subsídios à gasolina.

“Vamos supor que o congelamento da gasolina siga por mais 10 anos. Aí sim, seria problema (de abastecimento no Brasil) porque exportar seria mais rentável. Mas espero que não aconteça”, diz, lembrando que algo assim significaria um retrocesso para o país.
“Isso significaria o Brasil sujar sua matriz energética em troca de limpar as dos outros.”

Para Jank é preciso haver uma diferenciação entre combustível limpo e fóssil, como já acontece nos Estados Unidos e Europa.

“O Brasil, que tem matriz limpa, 47% de energia renovável, não deve sujá-la. O governo precisa se conscientizar de que há mais alternativas para o Brasil além do pré-sal e de Belo Monte. Ambos são importantes, ambos tem o seu papel, mas o Brasil lá atrás teve a inteligência de ter matriz muito mais diversificada, além de petróleo e hidrelétrica. Não podemos jogar esse avanço fora.”

O sr. espera avanços na produção de cana neste ano?

Esperamos um ano com a mesma dificuldade dos últimos dois ou três anos, mesmo com a renovação dos canaviais, que deslanchou da metade do ano passado para cá. Para a frente, vemos um bom horizonte. Mas, como a renovação dos canaviais foi retomada recentemente, não dá para dizer ainda qual será o tamanho da próxima safra. Talvez seja melhor que a última, que foi muito ruim. Mas esperamos um ano com safra justa.

O que é uma safra justa?

Vamos dizer que a safra 2011/12 repita a performance de 2008. Isso é uma safra justa. Até aquele ano, o setor vinha crescendo 10% ao ano e depois estagnou.

O que causou essa estagnação?

Houve essa quebra violenta nos canaviais nos últimos anos. Existe um mito que se criou de que os produtores teriam migrado para o etanol e deixado a produção de açúcar de lado, mas o que houve foi quebra nas lavouras. A redução foi geral, na produção de cana, de etanol, de açúcar, todas acima de 5%.

Mas não foi só a quebra de safra a responsável, certo? Desde a crise de 2008, as empresas pararam de investir em novos canaviais. Naquela época, houve a entrada de novos grupos, que compraram cana que já existia e não houve investimentos em novas unidades. Além dos problemas climáticos e da pouca renovação, vale lembrar que houve perda de competitividade do etanol frente à gasolina pelo aumento de custos em sua produção, o que desestimulou aportes no setor.

A gasolina com preço estável afeta a competitividade?

Houve um aumento de custo da ordem de 40%. O custo do etanol na usina subiu e a gasolina na bomba está com o preço parada há seis anos. O governo tem mantido o preço da gasolina estável ao consumidor, que é um das razões pa gasolina ao invés do etanol. O governo desonerou a gasolina, mas não desonerou o etanol. O peso dos impostos na gasolina, que era 47% do valor na bomba, caiupara 35%. O etanol paga 31%. Parece menos, mas na verdade não é.

Por quê?

Por que o etanol tem conteúdo energético menor que a gasolina. Quando se calcula o custo por quilômetro rodado, a gasolina acaba sendo menos tributada. No fim, essa desoneração da gasolina e o aumento de custos de produção destruíram as margens. O resultado é que, quando se vai construir um novo projeto, há até a justificativa de haver um mega mercado lá na frente, mas o preço do etanol ao valor de hoje não fecha a conta.

Ou seja, essa política da Petrobras prejudica o setor?

Pois é. Mas o pior é que quem paga boa parte do custo disso é a própria Petrobras, que é obrigada a importar gasolina. Obviamente, como hoje a gasolina no Brasil é mais barata que a internacional, a Petrobras perde dinheiro e isso é uma perda para o país. O Brasil tem condições de ser exportador de diesel, gasolina e etanol, mas na medida em que ele se organizar para isso.

Esse cenário inibe os novos investimentos no setor?

Nossa produção está em 550 milhões de toneladas de cana. Para atendermos a demanda da frota de veículos flex, de 50% do mercado mundial de açúcar
– que é a participação do Brasil – e ainda uma exportação de 13 bilhões de litros de etanol que estimamos para 2020, nossa produção de cana terá que dobrar até a safra 2020/2021 e chegara 1,2 bilhão de toneladas.

Como chegar a essa meta?

Para alcançar essa estimativa, temos de crescer 9% ao ano e implantar 120 novas unidades de produção de cana. Você pode se perguntar se é possível, mas em 2005 tínhamos 300 unidades no país e desde então apenas 130 unidades novas foram construídas.

Com a atual realidade do setor, é possível crescer 9% ao ano?

Não é difícil. Nós já crescemos 9% ao ano, é possível. É muito difícil, mas é possível.
Nos anos 2000, o setor recebeu muitos investimentos, mas boa parte das empresas quebrou…

Nesse período o mundo vivia um momento de grande oferta de recursos. E isso mudou. A vantagem é que hoje as empresas que estão nos setor são mais sólidas financeiramente do que aquelas que chegaram em 2005.

Quais os principais gargalos?

A grande dificuldade quando se fala de crescimento não é renovar canavial. Isso é obrigação. Crescer as plantas e implantar novas unidades são o grade tema de 2012 porque para colher uma safra maior em 2014 temos que começar a plantar agora.

O fim da tarifa de importação dos Estados Unidos estimula a produção no Brasil?

O nosso alvo é o mercado americano. Dos 70 bilhões de litros de etanol que é a meta de produção em 2020, 13 bilhões devem ser direcionados para o mercado externo, 5 bilhões para outros fins, e o restante ao mercado interno. E essa meta visa o principal mercado, que tem cota mínima para o etanol.

É possível atingir essa meta?

É bem possível chegar a esse volume de exportação. Vale lembrar que os Estados Unidos pagam prêmio pelo etanol de cana em comparação ao produzido a partir do milho. E esse prêmio nunca esteve abaixo dos US$ 0,60 por galão, algo em torno de US$ 0,22 por litro ou quase R$ 0,40 por litro.

Por quê?

Esse prêmio existe porque os Estados Unidos têm uma cota para o consumo de etanol de milho e outra para combustíveis avançados. E o etanol de cana é o único avançado porque reduz as emissões em 90%, enquanto o de milho reduz em 20%. É um prêmio dado pela melhor qualidade ambiental do produto.

Se há tanto mercado e tanta oportunidade porque não se constroem novas usinas?

O maior problema é que a maior parte da cana vai para o etanol hidratado e esse produto perdeu a competitividade frente a gasolina, além do aumento dos custos com o preços da terra, a valorização da mão de obra e dos insumos, principalmente após as mudanças com a mecanização da colheita.

Desde o ano passado, a Unica negocia a redução dos tributos com o governo. Há avanços?

No ano passado, as conversas se centraram no abastecimento do mercado interno.Nós importamos etanol, produzimos anidro em maior volume para não faltar produto para ser misturado na gasolina e o governo prometeu um programa de estocagem e financiamento para apoiar o setor. Os dois saíram no final do ano passado.

Um desses programas é o Pró-renova, do BNDES, de R$ 4 bilhões. A maior parte dessa verba será direcionada para renovação de canaviais? Sim, essa verba será usada para renovar canaviais. Precisamos renovar 18% a 20% todos os anos e estávamos renovando apenas 10%.

Renovar canaviais é a prioridade das usinas? Sim e já aconteceria de qualquer jeito. Com o programa do BNDES, isso se acelera.

O sr. pode dar detalhes sobre o programa de estocagem?

É um programa que era acionado sempre que ocorria safra justa. No final do ano foi aprovada medida provisória que estende esse programa por cinco anos. Não sabemos ainda qual o tamanho da linha de financiamento, nem o custo. Mas pelo menos agora o programa passou a ser permanente. Ele permitirá que as empresas consigam recursos a custo adequado para retirar o produto do mercado no auge da safra, não deixando o preço cair, para recolocar esse produto nas entressafras.

Que efeito isso terá?

O que vinha acontecendo é o seguinte: como não havia esse programa, as empresas em dificuldades vendiam muito produto na safra, o preço caía e quando chegava na entressafra, não havia estoque suficiente e o preço subia. O programa permitirá regular a oferta ao longo do ano.

A vontade política para ajudar aumentou com a entrada da Petrobras no setor?

A sinalização que recebemos do governo é que chegou a hora de buscar um programa de crescimento. O Brasil importa US$ 10 bilhões em derivados de petróleo e etanol. Existe uma percepção no governo de que é plenamente possível resolver esse problema com maior produção de derivados de etanol. O crescimento vai vir e se não fizermos isso, vamos sujar a matriz energética, o que seria um grande crime porque a gente tem uma matriz muito limpa, onde a cana é a segunda fonte de energia.

Como fazer isso num momento de investimento quase nulo?

Eu confesso que 2011 foi um ano muito difícil. Cansamos de receber pessoas que tinham anunciado grandes investimentos e desistiram justificando estar em compasso de espera. Mas 2012 começou bem. A entrada da Petrobras ajudou, assim como a do BNDES como financiador.

O que falta para que esse mercado deslanche de vez?

O governo precisa se conscientizar de que há mais alternativas para o Brasil além do pré-sal e de Belo Monte. A biomassa da ra o país manter a matriz energética limpa. Óbvio que não é tarefa trivial, sobretudo na questão de impostos, que envolve vários órgãos do governo, mas temos esperança.

Qual o tamanho do setor hoje? 

O PIB é de US$ 48 bilhões e pode dobrar até 2020. A receita com exportações é de US$ 15 bilhões e pode chegar a US$ 26 bilhões. Podemos gerar um milhão de empregos entre diretos e indiretos por conta de investimentos de R$ 156 bilhões. Qual país não quer investimento dessa magnitude, principalmente quando ele é feito pelo interior e tem tantos subprodutos?

Com a abertura do mercado americano, a tendência é de que as exportações cresçam. Isso afeta o mercado interno?

No curto prazo não vejo desabastecimento porque o que vai sair de produto é muito pouco, as exportações para os Estado Unidos são em volume muito baixos. E para resolver isso, no Brasil temos o carro flex e o ideal é que ele continue “flexando”.

Há risco de desabastecimento?

Se não temos produto hoje, não significa que não teremos no futuro, em 2020. Quando apostamos nas exportações, estamos olhando para o longo prazo. Acreditamos que o etanol é uma das poucas alternativas viáveis para o mundo pós-petróleo, de baixo carbono. O petróleo é escasso, altamente poluente e quando os Estados Unidos decidem abrir o seu mercado, isso fica ainda mais claro.

E se vender para fora ficar mais interessante?

Não vejo isso hoje, pois nossa demanda está aqui. Mas, vamos supor que o congelamento da gasolina siga por mais 10 anos, aí sim, seria problema porque a rentabilidade maior seria lá fora. Espero que não aconteça.

Por quê?

Porque isso significaria o Brasil sujar sua matriz energética em troca de limpar as dos outros.

Existe esse risco?

Só se o governo continuar com a política de controle do preço da gasolina. Existe aí uma questão de política pública para combustível e eletricidade. É preciso haver uma diferenciação entre combustível limpo e fóssil, o que já acontece nos Estados Unidos. O Brasil, que tem matriz limpa, 47% de energia renovável, não deve sujá-la. E se a gente mantiver os carros flex usando mais gasolina que etanol, a matriz ficará mais suja e isso será uma decepção para a sociedade, é um retrocesso.

Com o pré-sal, o consumo de petróleo ganha fôlego no país.

O pré-sal encantou e empolgou a sociedade pelo fato de o Brasil poder virar exportador de petróleo e passar a ter uma renda que até já está sendo disputada por estados e municípios. Isso, aliás, o tornou muito apetitoso. Mas o fato é que o pré-sal ainda vai levar anos para chegar de fato ao mercado, tem um custo elevado e vai trazer um mundo de CO2 para a atmosfera. Não podemos enxergar o Brasil como país do pré-sal e Belo Monte. Ambos são importantes, ambos tem o seu papel, mas o Brasil lá atrás teve a inteligência de ter matriz muito mais diversificada, além de petróleo e hidrelétrica. Avançamos na biomassa e isso não pode ser jogado fora.

Como está a produção de biomassa, quais os números?

Hoje, geramos 4.100 megawatts (MW), mas a maior parte é usado para movimentar as próprias usinas. É um potencial fantástico e a vantagem é que não é preciso construir nada: ela está lá, em formato de bagaço e de palha de cana. É só queimar.

http://www.brasileconomico.ig.com.br/epaper/contents/BE_2012-02-22.pdf

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