VEJA.com: Por que o mundo teme a saída da Grécia do euro

Mais instabilidade nos mercados, prejuízos com títulos, dólar em alta e temor de contaminação generalizada estão nas previsões de economistasNaiara Bertão

Muita incerteza e tensão. Esse será o cenário que o mundo viverá se a Grécia deixar a zona do euro, alertam economistas ouvidos pelo site de VEJA. Nesta quarta-feira, agências de notícias internacionais apontaram que os líderes do Eurogrupo concordaram num pacto para que cada nação da união monetária prepare um plano de contingência ante a saída iminente dos gregos do bloco. A informação foi negada por Atenas, mas, de qualquer forma, dá o tom de nervosismo que toma conta das finanças internacionais.

A possível derrocada da Grécia seria reflexo, dizem os especialistas, de uma eventual falha em resolver no curto prazo o impasse político que se instalou em Atenas. O cenário não é nada improvável tendo em vista o crescimento nas pesquisas para o pleito de 17 de junho de líderes de esquerda, que são contrários ao rigor das medidas de austeridade fiscal impostas por outras economias da eurozona, sobretudo a Alemanha. A questão preocupante não é apenas se a Grécia terá condições de pagar ou não suas dívidas.

A decisão que pode ser tomada até o fim de junho – a depender do resultado das eleições – implicará não apenas o fim da ajuda financeira da União Europeia (UE), mas, sobretudo, terá efeitos catastróficos sobre a zona do euro (veja quadro). Terá o poder ainda de ditar o humor dos mercados internacionais e definir se o mundo caminha novamente para uma segunda grande recessão, após a crise que se sucedeu ao estouro da bolha imobiliária americana em 2008.

Desde 6 de maio, os partidos contrários ao expressivo corte de gastos públicos no país conquistaram mais lugares no Parlamento. As urnas escancararam o descontentamento da população grega – que sofre com anos seguidos de caos econômico – com a política vigente. Seis anos atrás, a Grécia já mostrava uma dívida acima do seu Produto Interno Bruto (PIB), da ordem de 106,1%.

Com o passar do tempo e as complicações políticas iniciadas com a crise de 2008, o déficit público piorou até atingir 165,3% no fim de 2011. A dívida pública grega ultrapassa hoje 350 bilhões de euros.

Para socorrer o país problemático, o trio formado pelo Banco Central Europeu (BCE), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE) – chamado de “troika” – costurou vários empréstimos.  Em março, a UE aprovou a liberação da primeira parcela do segundo pacote de resgate da Grécia, de 130 bilhões de euros, para que Atenas reduza seu déficit para 117% até 2014.

Em troca, foram impostas condições, entre elas corte de gastos do governo e reformas estruturais. O rigor das medidas teve forte efeito deletério sobre uma economia já combalida. O resultado foi uma taxa de desemprego de 20,7% e uma queda de 6,2% do PIB no primeiro trimestre. Cabe lembrar que, no ano anterior, a “troika” já havia liberado 110 bilhões de euros.

Agravando ainda mais a já difícil situação, os partidos políticos gregos não chegaram a um acordo sobre planos para a economia e o mundo reage negativamente ao temor de calote.Dezessete de  junho será o último capítulo da novela que revelará o destino da Grécia, da zona do euro e do mercado mundial.

Divisor de águas – Segundo o analista político da Tendências Consultoria, Rafael Cortez,  as pesquisas gregas apontam que o partido de extrema esquerda Syriza é o favorito para ganhar as eleições, depois de ter ficado em segundo lugar no pleito passado. A vitória do Syriza, que é comandado pelo socialista Alexis Tsipras, implicaria o agravamento deste cenário.

A razão é simples: o partido é contra as medidas de austeridade fiscal. “Na Grécia, o partido que ganha mais cadeiras tenta formar um governo de maioria; se não conseguir, o segundo mais votado recebe a missão e assim por diante”, explica Cortez. Ele diz que o boicote da dívida não significa necessariamente o adeus da Grécia ao bloco, uma vez que a UE pode tentar comprar a dívida grega, assim como os Estados Unidos fez, em 2008, com seu próprio sistema financeiro.

“Se a Grécia não acordar com as medidas europeias, o calote é o mais provável dos cenários”, diz o professor de economia internacional da Universidade de São Paulo (USP), Simão Davi Silber, que chama a Grécia atual de “mula sem cabeça” por suas dificuldades em ter uma liderança firme. Para ele, o calote poderia levar a Grécia a sair da zona do euro, uma vez queas próprias autoridades europeias alertam que ela precisará seguir conforme os planos iniciais para ficar no bloco.

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, reconheceu na semana passada que a saída da a Grécia da zona do euro é uma possibilidade arriscada. “Seria uma situação extremamente custosa e com grandes riscos, mas que somos obrigados a analisar de um ponto de vista técnico”.

Na última sexta-feira, o comissário europeu de Comércio, Karel De Gucht, em entrevista publicada no jornal belga De Standaarddisse que a própria Comissão Europeia e o BCE já simulam o que aconteceria se a Grécia deixasse o euro. Hoje, um grupo de trabalho do Eurogrupo sugeriu que cada país formatasse um plano de contingência para se precaver das conseqüências deste fato.

O que vai acontecer ninguém sabe, mas se a Grécia sair – ou “for saída” – da eurozona o cenário seguinte seria resumido por uma palavra: caos.

1) Fora do euro, caos grego pioraria ainda mais

O economista-chefe da Gradual Corretora, André Perfeito, não acredita que a Grécia deixará o bloco justamente porque as consequências para a Europa (e o mundo) seriam tão calamitosas que as autoridades tentarão impedir que isso aconteça. Ele elenca, primeiramente, a piora da situação, já caótica, da economia grega. “Ela tem uma balança comercial tão cronicamente deficitária, exporta poucos produtos, não pode fabricar itens básicos e importa grande parte de seus insumos, que a ressureição do dracma [antiga moeda grega] não ajudaria muito”, afirma.
Além disso, a Grécia seria deixada de fora do bloco comercial único europeu, o que agravaria ainda mais sua recessão. Os preços aumentariam fortemente e o rendimento real da população cairia de forma abrupta.
A credibilidade do próprio dracma – que renasceria em um abiente de inflação elevada e problemas crônicos na economia – pode ser posta em xeque. “Poderia haver uma corrida aos bancos, com saques massivos, o que desestabilizaria ainda mais o sistema financeiro”, projeta Perfeito. Na semana passada, apenas com os temores de saída da zona do euro, os gregos já sacaram muito mais do que de costume de suas contas bancárias.
2) Efeito cascata no sistema bancário (e na economia)

O adeus da Grécia à zona do euro e a volta do dracma não teriam impacto apenas em território grego. Os títulos de dívida do país – que estão na tesouraria de diversos bancos europeus – praticamente virariam pó com o calote que seria inevitável ante um corte da ajuda externa. O resultado seria uma onda de prejuízos nas principais instituições financeiras do velho continente, inclusive de países em melhor condição econômica (como a Alemanha). Consequências terríveis teriam aqueles bancos já problemáticos, como os espanhois.

Ao mesmo tempo, o temor de que um novo país europeu ocupe a posição deixada pela Grécia de mais problemático do bloco do euro reforçaria as tensões dos investidores, que cobrariam mais pela dívida deste governo. Espanha, Portugal e Itália, que são os mais cotados para este posto infame, poderiam pagar juros ainda mais altos para rolar seus títulos de dívida. A diferença dos juros pagos pelos títulos públicos espanhois e os alemães a dez anos, por exemplo, bateu recorde em 15 de maio.

Qual seria o novo candidato ao cargo ainda não está acerto, mas economistas ouvidos pelo site de VEJA fazem suas apostas. A Espanha certamente será uma “grande pedra no sapato” da zona do euro. Já Simão Silber, profesor de economia internacional da USP, diz que Portugal, por ser pequeno, seria o candidato natural à sucessão da Grécia. Sua dívida ultrapassou o PIB em 2011 (107,8%). “Portugal ainda tem chance de ser socorrido, mas o problema vai piorar quando for a vez da Espanha”, afirma.
André Perfeito, da Gradual, aposta que a Espanha será a sucessora imediata da Grécia graças ao rápido crescimento de seu déficit público nos últimos anos: sua relação dívida/PIB, que era de 36,2% em 2007, fechou em 68,5% ano passado, quase o dobro. Para piorar, há o problema bancário. “A Espanha possui bancos muito grandes, que já sofrem com a bolha imobiliária, desemprego altíssimo, crescimento abaixo de zero e com as medidas de austeridade fiscal”, lembra o economista.
Na semana passada, a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou o rating de crédito de 16 grandes bancos espanhois, inclusive do Grupo Santander e do BBVA. No mesmo dia, saiu a notícia de que os correntistas do banco espanhol nacionalizado Bankia sacaram mais de 1 bilhão de euros (1,3 bilhão de dólares) da instituição, em um sinal da pouca confiança.
Rafael Martello, analista da Tendências Consultoria, lembra que o cenário não seria apenas de dificuldades financeiras, mas também econômicas. Dificuldades no setor bancário redundariam em mais restrição de crédito, diminuição da produção e do consumo, dos investimentos e, consequentemente, baixo crescimento da região. O Brasil seria impactado por tabela, já que exporta bastante para a Europa e compra insumos de lá.
Apesar de não se saber qual seria o tamanho do rombo mundial causado pela saída da Grécia,Martello avalia que o impacto hoje será bem menor do que se isso acontecesse um ano atrás.Isso porque os países da Europa estão bem menos expostos a títulos gregos e ativos mais problemáticos.Segundo relatório do Instituto Internacional de Finanças, a economia europeia precisaria da injeção de um trilhão de euros para estabilizar seu sistema financeiro caso acontecesse uma eventual quebra incontrolável da economia grega.

3) Bolsas em queda livre no mundo e dólar na ponta contrária

Como qualquer momento de incerteza política e/ou econômica, os investidores preferem ativos mais líquidos (de onde podem entrar e sair com facilidade) ou de menor risco (renda fixa, ouro, dólar).

O Brasil já teve uma pequena amostra de como o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, reagiria diante de um quadro de piora da situação grega. Na semana passada, o Ibovespa anulou todos os ganhos do ano e o dólar ultrapassou o patamar de 2 reais pela primeira vez em quase três anos.

Economistas acreditam que o dólar pode subir ainda mais e o Ibovespa amargar mais perdas.  Em 30 dias, o índice brasileiro já caiu mais de 11%, enquanto o americano Dow Jones desvalorizou-se 4% no período. “O panorama seria de um estresse absurdo no mercado, pessimismo generalizado e alta volatilidade”, explica Rafael Martello, da Tendências.

4) Crise de confiança internacional contra a Europa

Em meio a toda a discussão sobre a permanência ou não da Grécia no bloco do euro, outra questão que tem pesado é a própria credibilidade do bloco europeu. Se não conseguir controlar os já conhecidos problemas de um país pequeno dentro de suas fronteiras, o grupo transmitirá ao mundo o recado de que não consegue preservar sua própria união e equilíbrio. “Se a Grécia sair, serão jogados fora duas gerações de bloco e bilhões de euros em esforços”, aponta André Perfeito, da Gradual.
Se a zona do euro conseguir resolver a questão grega, o economista acredita que mostrará, por outro lado, que tem força política e que o grupo é viável.  Um primeiro passo, em sua opinião, seria a flexibilização do discurso de austeridade, que já se mostrou insuficiente para conter os déficits fiscais. Os gráficos de evolução da dívida em relação ao PIB da Espanha, Itália, Portugal e Grécia mostram isso, na avaliação de Perfeito. O crescimento econômico também seria necessário.
Crescimento x Corte de gastos – Ao lado da Grécia, o eleitorado francês também mostrou em 6 de maio que não quer mais tanto rigor fiscal. O novo presidente eleito, o socialista François Hollande, pregou em seu discurso de posse a necessidade de políticas de estímulo à economia também, repetindo seu posicionamento de campanha. O medo é que, se radicalizar, ele abrirá um embate com a principal personagem da zona do euro: a chanceler alemã Angela Merkel, que é mentora dos planos fiscais ao lado do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. Felizmente, ambas as autoridades têm feito um esforço de conciliação de suas posturas.
De qualquer modo, Pierre Moscovici, novo ministro das Finanças da França, afirmou em sua posse que o país só vai ratificar o pacto europeu sobre disciplina fiscal se o documento for alterado para  incluir compromissos ambiciosos com o crescimento econômico. Contudo,  Merkel vem reforçando que não vai flexibilizar as medidas de austeridade fiscal acordadas.
A expectativa dos investidores é que Merkel e Hollande consigam transformar o discurso conciliatório em prática. Rever significativamente as políticas de austeridade fiscal é considerado pelo mercado como uma medida por demais arriscada. Por outro lado, a região clama por medidas que estimulem a recuperação do PIB, haja vista que esta é condição necessária para impulsionar a arrecadação e, de quebra, contribuir para a melhoria das contas públicas.

 

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