VEJA.com – Manter redução do IPI é única alternativa para Dilma

30/07/2012

Após desonerar a indústria automobilística, presidente vive um dilema: o setor não recupera o vigor e há risco iminente de demissões. Sem incentivos, pode ser ainda piorNaiara Bertão

Nas últimas semanas, uma ameaça de demissão na General Motors de São José dos Campos (SP) descortinou algumas verdades para a presidente da República: benefícios fiscais paliativos não têm sido suficientes para segurar o emprego na indústria, e, uma vez concedidos, retirá-los em época de crise pode causar problemas ainda maiores. Em coletiva de imprensa em Londres, Dilma Rousseff afirmou que poderá anular a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis nacionais se a GM não voltar atrás em sua decisão de demitir 1.500 funcionários em São José dos Campos (SP). “Nós damos incentivos e queremos retorno, que é o emprego”, disse a presidente.

Ao querer cobrar contrapartida de empresas que vivem tão somente do lucro, a presidente age de forma quase ingênua. Quando atendeu aos lamentos da indústria automobilística e aumentou, em setembro de 2011, em 30 pontos porcentuais o IPI de carros importados, Dilma optou por um caminho pouco ortodoxo para incentivar o setor produtivo: em vez de estimular a competição, resolveu protegê-lo da ameaça estrangeira. Com a piora da crise e a desaceleração do mercado interno, a presidente praticou mais uma “boa ação” ao zerar o IPI de automóveis nacionais como forma de acelerar o consumo e, consequentemente, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Como moeda de troca, exigiu da indústria automotiva uma atitude camarada: a manutenção do nível de emprego.

Contudo, camaradagem não esvazia pátios e nem vende carros. As vendas de veículos tiveram queda de 0,33% no acumulado de 2012 em relação ao mesmo período do ano passado. Esse foi apenas um dos diversos fatores que fizeram com que o PIB do primeiro trimestre ficasse em 0,2% – obrigando o governo a reduzir sua expectativa de crescimento econômico de 4,5% para 3% neste ano. Já a produção industrial recuou 3,4% entre janeiro em maio de 2012 na comparação com o mesmo período do ano passado.

Demissões – Diante deste cenário, o mercado de trabalho também dá sinais de fraqueza. A criação de emprego caiu 25,9% no primeiro semestre ante o mesmo período de 2011, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e do Emprego (TEM). Os números do MTE mostram que, nos últimos três meses, as indústrias metalúrgica e mecânica demitiram mais que contrataram.

Segundo analistas ouvidos pelo site de VEJA, um quadro mais sombrio para o mercado de trabalho, sobretudo para as montadoras, é fato concreto diante da desaceleração do PIB. E, caso a presidente cumpra a promessa de retirar incentivos do setor que demitir, a expectativa é que ela piore ainda mais a situação do emprego. “Se o IPI reduzido for tirado, é provável o setor fique estagnado no ano ou, ainda, que as vendas caiam em relação ao ano passado”, afirma David Wong, da consultoria Kaiser Associates. Wong acredita que, se o estímulo for mantido, o setor automotivo deve crescer apenas de 3% a 4% neste ano.

Nova reunião – Montadoras, governo e sindicatos estão em constante negociação. Na próxima terça-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai se reunir com representantes da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automorores (Anfavea) para discutir uma solução para o setor, pois demissões generalizadas nas fábricas de veículos ainda não são fato consumado. Aliás, vale lembrar que, no Brasil, o custo financeiro para se demitir muitas vezes é maior que o de manter o funcionário recebendo o salário por meses, sem trabalhar, ou em regime de férias coletivas. Na GM de São José, as dispensas (remuneradas) mais recentes estão congeladas até 4 de agosto.

De qualquer modo, nos últimos doze meses, a empresa fez ajustes sem alarde. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, a GM fechou cerca de mil postos de trabalho na cidade no período, sem contar os desligamentos dos dois Planos de Demissão Voluntária (PDV) ocorridos ao longo deste ano. “Não é justo que governo faça a renúncia fiscal e as montadoras não cumpram com sua responsabilidade em relação aos funcionários”, afirma o presidente do sindicato, Antonio de Barros.

Leia mais: Fazenda convoca Anfavea para explicar dispensas no setor   

Esbravejo sindical à parte, o fato é que a presidente cedeu aos caprichos das montadoras, postergou a discussão real sobre a competitividade da indústria nacional e está hoje em situação delicada. Segundo um analista ouvido pelo site de VEJA e que preferiu não ter seu nome citado, se as vendas da indústria automobilística caírem devido a uma eventual redução do IPI, este fenômeno pode acarretar uma diminuição de até 10% de capacidade produtiva do setor. Em outras palavras, estima a fonte, haveria demissão de 10 mil a 15 mil funcionários em toda a cadeia produtiva.

“Ela (Dilma) está num beco sem saída. Se tirar o incentivo, a indústria vai vender menos e acionar seus planos de demissão porque, acima de tudo, as montadoras querem manter suas finanças em ordem”, afirma. É tudo o que o Palácio do Planalto mais tema, haja vista que toda a cadeia automotiva – montadoras, empresas de autopeças e fabricantes de acessórios, além de toda a rede de serviços agregada – tem um impacto de cerca de 8% no PIB. Prejudicar o segmento significa, portanto, um ‘pibinho’ ainda pior para 2012. Em resumo, mexer no PIB reduzido dos veículos está, por ora, fora de cogitação.

http://veja.abril.com.br/noticia/economia/reducao-do-ipi-de-veiculos-e-caminho-sem-volta-para-dilma

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