VEJA.com – Com Brics em baixa, Mist surge como novo oásis econômico

26/08/2012

México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia despertam a atenção de um mercado frustrado por crise no mundo desenvolvido e desaquecimento nos emergentesNaiara Bertão e Ana Clara Costa

O termo Brics – sigla que se refere ao grupo de países em desenvolvimento composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, que por uma década foi pronunciado à exaustão como promessa de crescimento e retorno aos investidores, está a um passo de ter um concorrente. O motivo é a ascensão de outro time de emergentes que atende pelo apelido de Mist: México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia (leia um pouco mais sobre cada um). Esses países crescem mais, passaram nos últimos anos por turbulências econômicas menos profundas e possuem menos burocracia. Em suma, são hoje vistos como um novo oásis num mercado frustrado por perdas na Europa, nos Estados Unidos e, mais recentemente, no Brasil e na China. Jim O’Neill, presidente do Goldman Sachs Asset Management (GSAM) e criador da alcunha Brics, é considerado o autor, mesmo que involuntariamente, da nova sigla. “Muitos pensam que criei esse acrônimo, mas ele nasceu do fato de eu ter definido, cerca de quinze meses atrás, onze novos países como economias promissoras. Como, do grupo de onze, os quatro são os que mais se destacaram, jornais disseram que havia criado o conceito de Mist. Achei engraçado”, disse em entrevista ao site de VEJA.

O’Neill – que não utiliza mais o termo “economias emergentes” para se referir aos BRICS por achar que elas “já emergiram” – criou o grupo dos onze incluindo nações que, anos atrás, não seriam nem lembradas como promessas de ganho aos investidores. Além do Mist, o economista escolheu Bangladesh, Egito, Irã, Nigéria, Paquistão, Filipinas e Vietnã como mercados que, juntamente com os BRICS, se tornariam as maiores economias do século XXI. De acordo com as estimativas do executivo, Brics e Mist terão juntos um Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 12 trilhões de dólares ao fim desta década em termos reais – dois terços provenientes dos Brics e um terço do total vindo da China. “Os Brics são muito importantes e ainda não se pode compará-los com os MIST”, afirma O’Neill.

Comparações à parte, a expansão econômica de México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia é inegável, enquanto o mundo desenvolvido agoniza em recessão ou estagnação econômica, e muitos emergentes veem seu dinamismo se esvair claramente. “Os países do MIST estão ganhando visibilidade por causa da desaceleração dos Brics. Brasil, Índia e China estão experimentando taxas de crescimento abaixo do previsto neste ano, não apenas devido ao ciclo econômico, mas também porque tomaram medidas que não foram tão bem recebidas pelos mercados”, afirma Christopher Garman, diretor de estratégia de mercados emergentes da Eurasia Group. No caso do Brasil, em particular, ele diz que o investidor está pessimista, sobretudo, com o baixo crescimento – que deve encerrar o ano em 1,75% segundo previsões do mercado financeiro. Contudo, ele lembra que os mesmos investidores avaliam que os esforços da presidente Dilma Rousseff para estimular o PIB – tais como os pacotes que têm sido anunciados e as medidas para ajudar a indústria – mostram uma “luz no fim do túnel”.

Ciclos – O surgimento de levas de países que dão um salto rumo ao desenvolvimento não é fato isolado na história da economia global. Os Estados Unidos e o Japão, por exemplo, já foram nações emergentes que surpreenderam o mundo com seu vigor. Olhar para além dos Brics pode ser considerado, portanto, algo natural. “Muitos investidores começam a olhar para histórias de crescimento fora dos BRICS, e alguns fundos estão apostando em países do segundo escalão dos emergentes”, conta Garman. “O Mist reúne essencialmente os maiores países depois dos Brics”, completa. Apesar de economistas e investidores falarem dessa seleção de países há dois anos, tal predileção ganhou adeptos nos últimos meses por conta do agravamento da crise financeira europeia e seu impacto nos emergentes dos Brics – com destaque para o vexame brasileiro.

Ambiente de negócio – Além do fato de serem países em desenvolvimento com economias fortes – todos fazem parte do G20, o grupo das vinte maiores economias do planeta –, as principais características que unem os Mist são mercado consumidor atrativo e o fato de estarem melhorando constantemente seu ambiente de negócios. “Isso faz com que investidores os vejam como lugares para se investir no longo prazo, inserindo-os em um portfólio global diversificado”, diz a analista da Economist Intelligence Unit (EIU), Justine Thody. (veja quadro comparativo de Brics e Mist)

É inegável, porém, a atração que exercem dados que comprovam pujança econômica sobre estrategistas e investidores globais. México e Indonésia, por exemplo, cresceram, respectivamente, 4,1% e 6,4% no segundo trimestre deste ano na comparação com igual período de 2011 – contra míseros 0,8% do Brasil. O mais impressionante, na visão do mercado, é que tais números se apresentem num momento em que o mundo patina e grande parte dos países revisa para baixo suas previsões para o PIB.

Disciplina macroeconômica – Alfredo Coutiño, diretor da Moody’s Analytics para a América Latina, explica que essa expansão “fora da curva” é resultado basicamente da disciplina macroeconômica (fiscal e monetária) dos governos do MIST, além da constante promoção dos negócios com melhoria da regulação, oferta de segurança jurídica e abertura ao mercado internacional. “O ponto em comum entre os quatro é que eles são gerenciados por equipes econômicas com filosofia pró-mercado, o que dá segurança e deixa os investidores felizes”, afirma.

Ressalvas – Mesmo com a popularização recente, o novo elenco enfrenta certa resistência por parte de alguns economistas.  Alguns acreditam que Brasil, China e Índia logo recuperarão o fôlego e retomarão o centro das atenções. Outros apontam que os fundamentos que sustentam esse crescimento vultoso do Mist são temporários. Coutiño destaca que, ainda que México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia suportem elevadas taxas de ampliação do PIB por vários anos, seu conjunto é ainda pequeno para substituir o papel dos BRICS como locomotivas da economia internacional. Somente o Produto Interno Bruto somado de Brasil, Rússia, Índia e China é quase quatro vezes maior que o do MIST: 13,5 trilhões de dólares contra 3,9 trilhões de dólares (veja quadro sobre Brics e Mist). 

quadro comparativo dos BRICS e dos 'MIST'

“Seriam necessários índices muito fortes de crescimento por vários anos para que o Mist chegasse aos pés dos Brics”, diz o analista da Moody’s. Ele aposta que a desaceleração de China, Brasil e Índia é uma fase, explicada pela fraca demanda global e por gargalos estruturais que, sobretudo a economia brasileira, precisa sanar.

Os analistas apontam que os quatros integrantes do Mist (veja lista) possuem desafios econômicos relevantes a superar, tais como a necessidade de aprofundar investimentos produtivos, elevar a taxa de poupança interna, incentivar a produtividade e promover atualização tecnológica. Existem ainda problemas no campo político e de direitos humanos. “Não podemos comparar maçãs e laranjas. Os investidores estão sempre olhando para o ‘novo’, para nova narrativa, mas penso que este grupo em particular é apenas uma moda”, dispara Coutiño.

Dani Rodrik, professor de política econômica internacional de Harvard, tem opinião semelhante. “Sou um pouco cético. Esses países (do MIST) têm pouco em comum e, além disso, por serem economias médias, têm o mesmo potencial que outras tantas”, afirma. Rodrik ressalta ainda que México e Indonésia são economias com forte influência do segmento de matérias-primas, as quais, neste momento de crise internacional, não estão muito bem.

E há ainda o CIVETS – Justine, da EIU, lembra ainda que o Mist não é unanimidade na lista de “novos queridinhos” dos investidores. “Outro grupo que está em evidência é o Civets, que, além da Turquia e Indonésia, inclui Colômbia, Vietnã, Egito e África do Sul”, relata a economista, que acrescenta que a Nigéria é outro país observado hoje. Para o professor de economia do Insper, José Luiz Rossi Junior, a Coreia do Sul nem deveria estar na lista de países criada por Jim O’Neill, porque seria uma país maduro e desenvolvido – não se enquadraria, portanto, no pré-requisito de nação emergente.

Mist: as novas potências que hoje ofuscam os Brics

1) México: junto com os EUA na dor e na sorte

A dependência econômica do México em relação a seu vizinho, os Estados Unidos, foi sua maior dor nos últimos anos, mas também sua maior sorte. Após quatro anos sombrios, a economia americana dá sinais cada vez mais claros de recuperação – e o México se beneficia quiçá mais dessa nova realidade que os próprios americanos.

Enquanto a expectativa para a expansão do PIB dos EUA em 2012 é de 2%, o México deverá crescer 4%. O país também colhe os frutos de investimentos em infraestrutura e privatizações feitas na década de 1990. Ainda que controversas – já que, em alguns casos, criaram verdadeiros oligopólios, como no setor de telecomunicações –, as privatizações propiciaram ao país um ambiente de crescimento menos atravancado que o do Brasil. Além disso, a própria influência da Casa Branca faz com que o governo mexicano interfira pouco na economia do país, o que proporciona um ambiente de estabilidade aos investidores. A taxa de juros no México permanece inalterada em 4% ao ano desde 2008.

Contudo, o principal ativo mexicano é hoje justamente a conjuntura econômica chinesa. Com a valorização do yuan e o aumento dos custos trabalhistas, a China está deixando de ser o país mais barato para se produzir, sobretudo para os EUA – seu maior parceiro de manufatura. “O México sofreu um baque quando a China se tornou o maior exportador para os Estados Unidos. Agora que a China não está mais tão barata assim, o México vai se beneficiar”, diz Jim O’Neill, ao explicar porque o país latinoamericano é seu “MIST” preferido. O fácil acesso ao mercado interno dos EUA e a proximidade geográfica fazem do México uma nação mais atrativa aos negócios do que o Brasil, diz a Economist Intelligence Unit (EIU).

2) Turquia: riqueza que vem do Oriente e do Ocidente

A proximidade territorial da Turquia com a Europa a coloca em posição estratégica para um forte relacionamento econômico com este mercado. A boa localização faz ainda do país um importante entreposto comercial entre o Oriente e o Ocidente, facilitando também as relações com o mundo árabe, a Ásia Central, os Balcãs e a Rússia. No primeiro trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) turco cresceu 3,2% na comparação com igual período do ano passado – mais que a alta de 2,8% projetada por economistas. O crescimento, no entanto, veio acompanhado de inflação, que bateu em 10,4% em termos anuais em março, bem acima da meta do banco central local.

Reforma estruturais, fiscais e econômicas implementadas entre 2002 e 2003 deram forças para a Turquia se recuperar da profunda crise que passara anos antes. De acordo com o jornal britânico The Guardian, os bancos privados estão sólidos, mesmo depois de uma recente onda de crescimento do endividamento das famílias. As finanças públicas também são invejáveis para os padrões dos pares europeus. A dívida pública caiu de 74% do PIB em 2002 para 40% no ano passado.

Mesmo estando na mira dos investidores, o professor de Política Econômica Internacional da Universidade Harvard Dani Rodrik – que coordenou um estudo recente sobre o país – lembra que a Turquia enfrenta ainda desafios macroeconômicos. Um problema é a crescente dependência do capital estrangeiro para alimentar sua economia, o que explica o fato de o déficit em conta corrente turco ter batido em 10% do PIB no ano passado. Outro desafio a ser enfrentado é o risco de deterioração de sua própria democracia. Por fim, a Turquia tem custos trabalhistas relativamente altos e suas principais exportações – como automóveis e têxteis – estão sob dura competição dos rivais asiáticos.

Desde 2005 a Turquia almeja uma vaga na União Europeia, mas a oposição do governo do Chipre (com quem tem desavenças) e do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy atrasaram as negociações. Na opinião do professor José Rossi Jr, do Insper, a Turquia é o país do grupo dos MIST que mais tem chances de continuar na pauta de economistas por não ser tão vulnerável – como o México, por exemplo, que depende muito do desempenho da economia americana.

3) Indonésia: o valor de um mercado jovem e em crescimento

O mercado interno da Indonésia chama a atenção de empresas. São 250 milhões de habitantes – uma população predominantemente jovem – vivendo num arquipélago localizado entre o Sudeste Asiático e a Austrália.

A analista da Economist Intelligence Unit (EIU), Justine Thody, destaca a importância do grande mercado consumidor indonésio – o maior do Sudeste Asiático, com faturamenteo de 462 bilhões de dólares em 2011. “O setor varejista do país está crescendo rapidamente, apesar de ainda estar em estágio inicial de desenvolvimento, o que permite elevadas margens, especialmente em bens com maior valor adicionado”, diz. Justine destaca ainda que a população jovem e os avanços da democracia têm melhorado as expectativas de estabilidade política nos longo prazo – e esses ingredientes, segundo ela, formam a base para altas taxas de elevação do PIB nas próximas décadas.

Além do potencial de consumo, a Indonésia tem atraído empresas que queiram baixar seus custos de produção, visto que dispõe de mão-de-obra ainda barata, farta e com a qualidade necessária. “A indústria têxtil e calçadista são algumas das que mais têm se desenvolvido no país – roubando espaço, inclusive, da brasileira no mercado mundial porque consegue praticar baixos preços”, conta José Luiz Rossi, professor de economia do Insper. Com um PIB de 845,7 bilhões de dólares em 2011, o país vem num ritmo de desenvolvimento crescente: 4,6% em 2009, 6,2% em 2010 e 6,5% no ano passado.

4) Coreia do Sul: expansão focada na qualidade

A riqueza e a altíssima qualidade profissional dos sul-coreanos são características mais marcantes do país. Com um consumo interno de 12 mil dólares por pessoa/ano e 50 milhões de consumidores, a Coreia do Sul é um dos principais mercados da Ásia. A nação está entre os dez maiores mercados globais de publicidade, bem como de alguns serviços – como os financeiros, a exemplo dos seguros de vida – e indústrias – como a de cosméticos, por exemplo.

“Outro mercado em ascensão é o de educação, saúde e serviços sociais do governo. O gasto do sul-coreano com educação está entre os maiores do mundo”, explica Justine Thody, analista da Economist Intelligence Unit (EIU). Porém, com a população envelhecendo e os gastos com previdência e saúde em alta, parte do dinamismo vai sendo comprometido.

Segundo o Banco Mundial, o país se juntou ao time dos ricos em 2004, destacando-se pela alta tecnologia e industrialização. Mas o caminho foi atribulado. Na década de 1990, as fragilidades de seu modelo econômico – política fechada e estímulo à poupança em detrimento do consumo – vieram à tona na forte crise financeira que varreu a Ásia. Entre 1998 e 2000, o elevado endividamento e os pesados empréstimos externos de curto prazo afundaram o PIB do país. A Coreia, no entanto, foi hábil em adotar uma série de reformas, incluindo a abertura aos investimentos estrangeiros e às importações.

A economia conseguiu, assim, reerguer-se. Entre 2003 e 2007, cresceu 4% ao ano em média. A crise de 2008 voltou a castigar o país, que depende muito da China – um ponto negativo na visão do professor do Insper, José Luiz Rossi Júnior. A recuperação deu-se graças ao crescimento das exportações, aos baixos impostos e a uma política fiscal expansionista. O país, então, saltou de um crescimento de PIB de 0,3% em 2009 para 6,3% em 2010. No ano passado, porém, voltou a desacelerar o ritmo e cresceu apenas 3,6%.

Com Brics em baixa, Mist surge como novo oásis econômico

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