VEJA.com – Sete gargalos para resolver antes da Copa de 2014

05/05/2013

Contagem regressiva para o torneio também serve para lembrar que o tempo está se tornando perigosamente escassoGabriel Castro e Naiara Bertão

No início da semana passada, a contagem regressiva para a abertura da Copa do Mundo de 2014 chegou aos 500 dias. Pouco depois, tanto o ex-craque Ronaldo, que vem sendo o “garoto-propaganda” dos preparativos para o Mundial, como Jérôme Valcke, o homem forte da Fifa na organização do evento, reclamaram dos “pessimistas” que insistem em levantar dúvidas sobre o sucesso do evento. Mas Ronaldo e Valcke não deveriam estar tão confiantes assim. Há cada vez menos tempo para os governos federal e estaduais resolverem os muitos problemas que podem prejudicar a organização dos jogos. Cerca de 20% dos projetos tem previsão de entrega apenas em 2014, perigosamente perto do início do torneio. Mantido o ritmo, algumas das obras preparatórias para o torneio não seriam nem mesmo concluídas a tempo. O governo previu a aplicação de 26,5 bilhões de reais em investimentos na Copa. Até agora, o total comprometido é de 14 bilhões. O valor efetivamente gasto é bem menor: 3,6 bilhões, ou 13,5% do anunciado. Além dos gastos diretos do Executivo, a União abriu mão de 1,8 bilhão de reais como incentivos fiscais concedidos às empreiteiras e à Fifa.

Pelo calendário oficial não haverá sobressaltos: até 12 de junho, o essencial estará funcionando. O problema é que a previsão não é confiável: dos doze estádios, dez tiveram a inauguração adiada por causa de atrasos. Apenas o Castelão, em Fortaleza, e o Mineirão, em Belo Horizonte – concluídos no mês passado – cumpriram o prazo. Pela programação inicial, o Brasil já deveria ter onze estádios em funcionamento. Alguns casos, como o da Arena das Dunas, em Natal, são mais graves. É só fazer as contas: as obras do estádio começaram em agosto de 2011 e só agora se aproximam dos 50% de conclusão. Se o ritmo for mantido, a arena vai ficar pronta exatamente em junho de 2014.

Os problemas se acumulam. A rede hoteleira pode não ser suficiente para abrigar os milhões de turistas, do Brasil e do exterior, que devem se deslocar para assistir aos jogos. A qualificação de trabalhadores para receber os visitantes também anda a passos lentos. As obras nos aeroportos vão ficar prontas em cima da hora, na melhor das hipóteses. Os investimentos em mobilidade urbana estão 20% abaixo do previsto. Do total reservado no planejamento da Copa, o governo não gastou nada com energia elétrica. E nada com a segurança pública.

Críticas – Em entrevista ao site de VEJA, o deputado Romário (PSB-RJ) disse que o atraso em algumas obras é proposital porque, em situação emergencial, as regras de licitação são flexibilizadas: “Esse é o momento das pessoas roubarem. E muito.” Para o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), a situação de descontrole era evitável: “A impressão que se dá é de que o governo ficou paralisado diante dos problemas que viria a enfrentar. Há um risco de danificarmos a imagem do país”, diz ele.

De fato, o Tribunal de Contas da União (TCU) já apontou falhas em contratos de várias obras. Os auditores do TCU apontaram, por exemplo, um sobrepreço de 86,5 milhões de reais na Arena Manaus. No caso do Maracanã,  os problemas surgiram já no projeto básico: o ministro Valmir Campelo, relator dos processos envolvendo as obras da Copa, assinalou que havia “indícios de graves irregularidades no processo licitatório de contratação da obra”. Graves também foram as irregularidades encontradas na licitação para as obras do Porto de Natal: preço inflado em 13% e falhas na licitação. Enquanto isso, o preço da reforma do estádio Mané Garrincha, em Brasília, superou a marca de 1 bilhão de reais – 300 milhões a mais do que a primeira avaliação.

Segundo a Consultoria Legislativa do Senado, a Copa vai custar cerca de 81 bilhões de reais (40 bilhões de dólares), entre investimentos públicos e privados. Seria o torneio mais caro da história – a preparação para a Copa da África do Sul, por exemplo, custou cerca de 8 bilhões de dólares. A esses números, o governo contrapõe uma estimativa otimista: a de que, até 2019, o ganho para o Produto Interno Bruto (PIB) terá sido de 183 bilhões de reais.”No país tudo é reajustado, o preço da matéria-prima, os bens de serviço, a mão-de-obra. O tempo às vezes encarece a obra também. As obras são paralisadas por órgãos de controle”, justificou no mês passado o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. É uma meia-verdade: um bom planejamento evita inclusive as paralisações. É o que faltou ao governo, que já sabe, desde 2007, que o Brasil sediará a Copa. Ninguém pode alegar que foi por falta de aviso.

Sete gargalos para a Copa 

Faltam 500 dias para a bola rolar. E o governo não vai ter tempo de cumprir tudo o que prometeu

1) Estádios

Os estádios da Copa devem custar quase 7 bilhões de reais – mais de 90% desses recursos terão origem pública, federal ou estadual. Das doze arenas a serem utilizadas na Copa, duas estão prontas: o Mineirão, em Belo Horizonte, e o Castelão, em Fortaleza. As obras de todos os outros dez estádios sofreram atrasos – nove deles deveriam ter sido entregues até dezembro do ano passado. Mesmo que tudo dê certo até a Copa, surgirá em seguida outo problema: o que fazer com as arenas de cidades sem um futebol forte, como Brasília e Cuiabá.

Na capital mato-grossense, o consórcio responsável pela Arena Pantanal tem enfrentado dificuldades financeiras. A Arena das Dunas, em Natal, apresenta o pior cenário: em dezessete meses de obras, a conclusão não atingiu os 50%. Nesse ritmo, o risco de a capital potiguar causar dor de cabeça na Copa é grande.
Para piorar: o Tribunal de Contas da União já apontou falhas em contratos de sete dos doze estádios. No caso do Maracanã, por exemplo, os problemas surgiram já no projeto básico: o ministro Valmir Campelo, relator dos processos envolvendo as obras da Copa, assinalou que havia “indícios de graves irregularidades no processo licitatório de contratação da obra.

2) Mobilidade urbana

No balanço de janeiro 2011, o primeiro divulgado pelo governo federal, 58% dos projetos de mobilidade urbana já estavam fora do prazo. De lá para cá, a situação só piorou – piorou tanto que o Executivo simplesmente parou de divulgar o balanço com esses detalhes. Oito das 53 obras de mobilidade urbana ainda não saíram sequer da fase de planejamento. Em dezembro de 2012, o governo constatou que os investimentos nessa área ficaram 20% abaixo do esperado para o período.

Um dos projetos anunciados, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Brasília, deveria ter sido inaugurada em março do ano passado. Na prática, os trabalhos não começaram e não vão começar tão cedo: o empeendimento já foi retirada da matriz de obras para o torneio.

Em São Paulo, por exemplo, estão previstas “intervenções viárias” em torno da Arena Itaquera. Mas não há sinal de quando as obras vão começar. Em Porto Alegre, apenas 5% do valor previsto para melhorar o acesso à Arena Beira-Rio foram investidos até agora.

O VLT de Cuiabá não ficará pronto em dezembro de 2013, como previsto. O governo do estado aumentou o número de operários de 650 para 4.000, numa tentativa de impedir atrasos ainda maiores na obra. O governo do Amazonas só apresentou seu plano de mobilidade urbana para a Copa em 15 de janeiro deste ano. São sinais preocupantes. Os projetos de mobilidade urbana serão a parte mais cara da Copa: quase 12 bilhões de reais estão destinados a essas obras.

3) Aeroportos

Será a Copa do improviso: o governo promete construir ou ampliar 21 terminais de passageiros e 7 pistas e pátios para aeronaves, com investimentos de mais de 7 bilhões de reais. Mas, em quatro aeroportos, a previsão de término das melhorias chega a maio e junho de 2014, às vésperaas da Copa do Mundo. Qualquer atraso pode criar um cenário de caos-  até porque dois três dos aeroportos mais importantes do país, os de Viracopos, Guarulhos e Brasília, estão no final da fila. Natal completa a lista das obras que vão ser encerradas em cima da hora. No Recife, outra situação preocupante: a empresa responsável pela obra ainda nem foi escolhida.

Das 30 intervenções previstas em aeroportos, oito foram entregues e 13 estão em andamento. O problema do setor aéreo fica mais evidente quando se analisam dados divulgados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac): enquanto a demanda por viagens aéreas continua crescendo no país, a oferta caiu – discrepância que pode se acentuar durante a Copa.

4) Hotéis

O governo promete que a oferta de leitos hoteleiros vai crescer 15% até 2014. Mas a missão não é fácil. Parte dos empreendimentos será financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A instituição elevou de 1 para 2 bilhões de reais o valor disponível para apoiar a construção de hotéis, numa tentativa de acelerar a construção de novas opções de hospedagem. Ainda assim, como a solução não depende apenas do poder público, este é um dos gargalos com maior risco de gerar transtornos durante a Copa.

A situação mais grave é a de Belo Horizonte: a cidade precisará aumentar sua capacidade hoteleira em 48%, o que equivale a 23.000 leitos. No Rio de Janeiro, o acréscimo previsto é de 16.000.

Uma das soluções improvisadas já foi sugerida pelos organizadores do torneio: o uso de transatlânticos para abrigar os visitantes em cidades litorâneas. Mas nem isso está garantido: as obras do píer do Rio de Janeiro, que devem permitir a criação de 10.000 leitos em navios, ainda não começaram. A previsão é de que a melhoria fique pronta só em 2014.

5) Atendimento turístico

A principal aposta do governo para incrementar o atendimento ao turista é a construção e melhoria de 400 Centros de Atendimento ao Turista (CAT), ao custo aproximado de 210 milhões de reais. As unidades devem servir como ponto de apoio a estrangeiros que visitem as subsedes da Copa. Mas nenhuma dessas obras vai começar antes de abril deste ano.

O Executivo também prometeu qualificar 240.000 pessoas para receber os turistas durante o torneio esportivo. Vai precisar, no entanto, acelerar o ritmo para cumprir a promessa: em 2012, primeiro ano do projeto, 57.000 pessoas passaram pelo programa de treinamento. Sem experiência de grandes eventos com estrangeiros, a maior parte das cidades-sede da Copa corre o risco de passar vergonha. A expectativa é de que o Brasil receba 7,2 milhões de turistas estrangeiros ao longo de 2014 – um aumento de 25% em relação ao número de visitantes registrado em 2012.

6) Segurança

O programa do governo prevê investimentos de 1,9 bilhão de reais: desses, 1,2 bilhão serão destinados à melhoria na estrutura das polícias, responsáveis pela prevenção ao crime nas cidades. O restante será investido nas Forças Armadas, que terão a função de vigiar as fronteiras e evitar a infiltração de terroristas no país.

O governo também prometeu construir 14 Centros Integrados de Comando e Controle (CICC), para coordenar as ações de segurança nas cidades-sede. Até agora, 13 deles continuam apenas no papel. Apenas uma unidade do Rio de Janeiro já começou a ser implementada.
No balanço oficial, o saldo de investimentos em segurança é zero – isso mesmo, nada do que foi reservado para o setor foi efetivamente gasto. E algumas das melhorias têm previsão de conclusão já durante o transcorrer da Copa.
7)  

Energia

O risco de apagões é real – e não só por causa do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, que tem ameaçado a geração de energia elétrica no país. Se São Pedro não ajudar, a bomba pode estourar exatamente no ano da Copa. Com ou sem chuva, as falhas na estrutura do sistema elétrico tem deixado regiões importantes do país às escuras com uma frequência inaceitável.

A matriz de obras para a Copa prevê sete intervenções no setor de transmissão de energia – por conta dos estados. Apenas duas delas tiveram início. O total de recursos efetivamente gastos é igual ao da segurança públcia: zero. O governo também monitora a construção de novas unidades de distribuição de energia para evitar imprevistos. O custo: 1, 7 bilhão de reais. O prazo: maio de 2014. É outro item da lista que não pode sofrer atrasos – apesar do histórico nacional de mal planejamento jogar contra. As obras de distribuição de energia devem beneficiar todas as cidades-sede.

Sete gargalos para resolver antes da Copa de 2014

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