VEJA.com – Azevêdo terá o mandato mais difícil da história da OMC

07/05/2013

Especialistas ouvidos pelo site de VEJA explicam quais os desafios que o brasileiro vai enfrentar em seu comandoNaiara Bertão

O resultado ainda nem foi oficialmente divulgado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e o embaixador Roberto Azevêdo, eleito para o cargo de diretor-geral do órgão nesta terça-feira, já recebeu muitas felicitações pela conquista. O prestígio de ter um brasileiro eleito numa disputa acirrada mostrou que o país tem um bom trânsito global, especialmente nos países africanos, asiáticos e latino-americanos – seus principais aliados. A eleição de Azevêdo, que venceu o mexicano Herminio Blanco, também mostrou, de acordo com especialistas ouvidos pelo site de VEJA, que os olhos do mundo estão voltados para a força dos países emergentes.

Mas, passada a euforia da vitória, Azevêdo, diplomata de carreira, comandará a partir de setembro, quando termina o mandato do francês Pascal Lamy, os anos mais difíceis para a organização desde sua criação oficial em 1995. “Estes serão os anos mais complicados que a OMC vai enfrentar para seguir com suas negociações, depois de inúmeros acordos bilaterais e novas regras que estão sendo negociadas fora do âmbito da OMC. O desafio será ‘multilateralizar’ essas regras”, disse ao site de VEJA o embaixador Rubens Antonio Barbosa.

Além da retomada da Rodada Doha, paralisada com o estouro da crise mundial em 2008, a OMC também sofre de perda de credibilidade em um dos seus pilares: a negociação global.

Para Barbosa, dificilmente será alcançado um pacto global de comércio, o sonhado multilateralismo que Azevêdo utilizou como plataforma eleitoral. “Sou cético com relação a retomada da Rodada Doha. Os EUA e a Europa continuam resistentes, a crise criou um ambiente ainda mais adverso e os países estão mais protecionistas”, explicou o embaixador.

É importante lembrar, porém, que o brasileiro não terá poder para propor sozinho mudanças nas relações comerciais. Seu novo cargo permite negociar, agendar encontros, persuadir os membros e liderar as discussões para que os 159 membros cheguem a um acordo. Apesar de sua característica conciliadora – como diversos aliados o descreveram durante os quatro meses de campanha – alinhar interesses entre os países com discrepâncias significativas de recursos financeiros e poder de barganha é muito complicado.

Por isso, tanto Barbosa como Heni Ozi Cukier, professor do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), concordam em um ponto: Azevêdo terá de buscar objetivos menos ambiciosos. Na atuação situação da economia mundial e da próprio organização, o quixotismo precisa dar lugar ao pragmatismo. “O certo é ele escolher temas que deseja trabalhar e diminuir o escopo do que quer alcançar com eles”, aconselha Cukier. Uma iniciativa alinhada que já está em curso dentro das portas da OMC é um acordo de serviços que 40 países já se interessaram – curiosamente o Brasil não faz parte do grupo. Os detalhes desse acordo devem ser apresentados em dezembro, na reunião ministerial do órgão em Bali, Indonésia, primeiro evento formal do mandato de Azevêdo.

http://veja.abril.com.br/noticia/economia/azevedo-tera-o-mandato-mais-dificil-da-historia-da-omc

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