VEJA.com – Rastreabilidade pode ser a saída para o leite

27/05/2013

Prática adotada pela indústria de carne acompanha todo o caminho do produto numa tentativa de garantir a segurança de origem para o consumidorJéssica Otoboni, Talita Fernandes e Naiara Bertão

Os criadores de gado tiveram que sentir no bolso o descuido com a procedência do animal para tomar uma atitude contra o descaso com a qualidade do produto. Há uma década, com os problemas fitossanitários explodindo no mundo, os países importadores começaram a exigir garantias de procedência para comprar a carne de seus fornecedores. No Brasil, o animal era criado solto no pasto, sem nenhum auxílio da tecnologia, o que começou a refletir nas vendas no mercado internacional. Em 2006 esse cenário mudou com o Serviço de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), um sistema eletrônico de rastreabilidade que acompanha todos os passos do boi, do nascimento ao abate; do processamento à mesa do consumidor. A transparência foi uma exigência para todos os envolvidos sobreviverem no negócio. Sem esse rigoroso padrão de qualidade, os países da Europa, da Ásia e os Estados Unidos não aceitam negociar a compra do produto – hoje as fazendas brasileiras produzem 9,4 milhões de toneladas e exportam 16,5% de carne bovina.

Com o recente escândalo da adulteração do leite no Rio Grande do Sul, os laticínios começam a pensar no desenvolvimento de um sistema parecido com a rastreabilidade bovina. Há quatro anos, a Aurora Alimentos criou o programa Produto Aurora Rastreado (PAR). Em parceria com a fabricante de embalagens Tetra Park, é possível consultar a origem das matérias-primas de todos os 750 produtos da empresa. No caso do leite, quando o consumidor desconfia de alguma contaminação ou adulteração, ele pode rever todo o trajeto da fazenda ao ponto de venda no PAR, o chamado “RG do leite”. Há detalhes sobre origem da matéria-prima, os leiteiros, detalhes da produção (hora e temperatura em que foi tirado da vaca e análises feitas preliminarmente), transporte, avaliações de qualidade feitas já no laticínio, unidade produtora, pasteurização, linha de envase, volume do leite produzido, armazenamento dentro do laticínio e trajeto até o varejista. “Nós reforçamos agora a divulgação do programa e tivemos picos de consulta no site”, diz Selvino Giesel, gerente de lácteos da Aurora.

Mas nem todas as empresas caminham para a rastreabilidade – pelo menos por enquanto. A Nestlé, gigante multinacional do setor de alimentos, escolheu trabalhar com um outro sistema. A empresa desenvolveu um programa para auxiliar os seus fornecedores de leite no Brasil, o Programa Boas Práticas na Fazenda, em parceria com a Embrapa. Ao entrar no programa, o produtor compromete-se a introduzir ou aperfeiçoar gradualmente um conjunto de procedimentos. Para garantir o cumprimento, há visitas periódicas de técnicos que orientam as atividades e fazem pré-auditorias preparatórias para a verificação final. O projeto é auditado por empresas terceirizadas, como a Qualit Consultants of New Zealand (Qconz) e a Genesis Inspect. A fazenda que cumpre as orientações recebe o selo de Boas Práticas.

Leia também: Após série de contaminações, Anvisa propõe mudanças no recall de alimentos
Chefe de empresa holandesa é preso por escândalo de carne de cavalo

Obstáculos – Ao contrário de grandes empresas como Aurora e Nestlé, os especialistas apontam dificuldades para introduzir a rastreabilidade em toda a cadeia do leite. Há dificuldades técnicas para se adotar no setor um esquema semelhante ao da carne, principalmente entre pequenos produtores. “O trabalho de rastreabilidade é importantíssimo, mas dependendo do tamanho da fabricante, esse detalhamento pode estar aquém de suas condições financeiras porque é caro”, explica Avany Bom, coordenadora do curso de nutrição Anhembi Morumbi.

Diferentemente dos bovinos, que podem ser seguidos individualmente com mecanismos eletrônicos como chips e coleiras, no leite a coleta é feita em cada propriedade rural em caminhões-tanque e, algumas vezes, leites de produtores diferentes podem acabar misturados no mesmo tanque. Para uma solução imediata, o rastreamento poderia ser feito nos caminhões que fazem a ligação entre produtor e empresa. “Um caminhão pode ser carregado por apenas um produtor, mas quando chega ao laticínio é depositado nos silos onde estão leites de outros produtores, ou seja, misturam tudo”, explica Ernani Porto, professor da Esalq-USP.

Todas as tentativas para tentar evitar novas fraudes são válidas. Mas cabe aos laticínios participarem mais do controle de qualidade com técnicos e laboratórios para identificar as irregularidades – antes que elas cheguem ao consumidor. “Não dá para confiar apenas no controle de qualidade que é o feito pelo laboratório do Ministério da Agricultura”, diz Porto.

Carnes

O rastreamento das carnes bovinas já se tornou uma prática comum, realizada por muitos frigoríficos, como a JBS, Mondelli e Marfrig Group. O processo conta com a identificação individual dos animais, além de fornecer dados como a raça do boi, a idade do animal, sexo, propriedade de origem, tipo de manejo, lote ao qual pertencia e data de abate. Os animais recebem acompanhamento e os documentos necessários pela equipe de rastreabilidade e pelo Serviço de Inspeção-Federal (SIF).

Leite

A prática de rastreabilidade ainda não é muito popular entre os laticínios. No momento, somente a Aurora Alimentos possui um sistema que analisa o produto diversas vezes, coletando amostras. Por ser extremamente perecível, as produtoras ainda encontram problemas para rastrear o leite. Contudo, após o incidente com algumas empresas do Rio Grande do Sul, especialistas acreditam que a prática vai se popularizar.

Vegetais e hortaliças

O rastreamento de vegetais não é dos mais comuns, mas empresas como Percicoti e Mallmann já investem no setor. A preocupação com fraudes ao longo das etapas de manejo e transporte fez com que algumas companhias aprimorassem seu controle quanto ao processo interno e externo dos produtos. Com isso, eles chegam com mais segurança aos consumidores quanto à qualidade e a sua certificação.

Frango

Seguindo o mesmo caminho do mercado de carnes bovinas, a rastreabilidade das carnes brancas já é um processo comum. As cooperativas Big Frango e C.Vale, por exemplo, trabalham com o sistema e prezam pela supervisão dos seus produtos, garantindo o padrão de qualidade.

Cereais

Quanto à aveia, cevada, centeio, arroz e trigo, o rastreamento é um processo que está se expandindo. A SL Alimentos possui um sistema contínuo, eficaz e inovador que se destaca no setor. A Atlantic Meals garante a supervisão desde a semente até o produto final, assegurado por um rigoroso processo de amostragens, análises e registros, e controlado por um Departamento de Qualidade próprio.

Mel

O rastreamento do mel é uma prática que está se tornando comum, principalmente no sul do país. Por meio de iniciativa pública, todo o mel catarinense que integra o mercado interno e externo é cadastrado e controlado por meio de registros de manejo e de produção que são arquivados para futuras auditorias ou verificações de controle. Ele conta com um código de rastreamento que pode ser acessado a qualquer momento pelos consumidores por meio do site www.paripassu.com.br. A Cooperativa Apícola Encosta da Serra, também em Santa Catarina, faz uso de um sistema parecido, que busca oferecer um produto de qualidade e procedência garantidas.

http://veja.abril.com.br/noticia/economia/rastreabilidade-pode-ser-a-saida-para-o-leite

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: