VEJA.com – Próximo presidente terá o dever de entregar um país mais competitivo

25/10/2014

Não há almoço grátis: sem ‘boom’ das commodities e ajuda da China, produtividade terá de avançar para que o Brasil volte a crescer

Luis Lima e Naiara Bertão

O Brasil que emergirá das eleições tem um imperativo para voltar a crescer: ganhar produtividade. Nos últimos quatro anos, o governo não conseguiu solucionar os graves problemas da economia brasileira, como a alta e complexa carga tributária, o baixo nível de infraestrutura e a falta de mão de obra qualificada. Em alguns aspectos, piorou o ambiente de negócios, lançando mão de uma política intervencionista em setores como o automotivo, de óleo e gás e elétrico. O resultado é que o país acumulou, entre 2011 e 2013, três anos de desempenho negativo no indicador de produtividade elaborado pelo The Conference Board. Para reverter esse quadro, o próximo governo, seja ele qual for, terá de implementar políticas opostas às que foram levadas adiante nos últimos anos. A chave, segundo especialistas ouvidos pelo site de VEJA, é trocar a ideologia pela meritocracia. A busca por mercados mais estratégicos comercialmente é o primeiro passo.

Abandonar o protecionismo em setores pouco competitivos vem em seguida. A missão é difícil. Em caso de vitória de Aécio Neves (PSDB), será preciso um trabalho rigoroso para detectar ineficiências e elaborar uma política de longo prazo que restabeleça a confiança do setor industrial, hoje abalada. Já Dilma Rousseff (PT) terá de fazer um exame de consciência, que poderá levar à constatação de que as medidas de proteção que marcaram seu governo provocaram o efeito rebote e levaram o país a colher baixo crescimento.

Especialistas consultados pela reportagem são categóricos: para que o Brasil dê um verdadeiro salto em produtividade, é preciso que sua indústria consiga integrar as cadeias globais de valor, ou seja, ter preço e qualidade para competir com os demais países. Tal missão só será viável se o próximo governante encampá-la como prioridade, ao lado dos avanços em saúde pública e educação. Para que isso ocorra, a taxa de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) precisa avançar. Durante o governo Dilma, o Brasil teve sua menor taxa histórica de investimento, de 18%. Em países da América Latina, como Peru, Chile e México, esse coeficiente é, em média, de 25%. Na China, é de cerca de 30%. “Não avançamos por conta do posicionamento ideológico do atual governo. Em vez de procurar mercados mais exigentes e rentáveis, houve foco no Mercosul, e foi um desastre. As exportações para a Argentina vêm caindo e a China ganha cada vez mais mercado em cima das nossas costas”, afirma Luiz Felipe D’Ávila, presidente do Centro de Liderança Pública (CLP).

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O Brasil possui problemas antigos que atravancam o desenvolvimento e ainda não foram devidamente solucionados: infraestrutura deficiente, impostos muito mais elevados que seus vizinhos e burocracia. Mas, adicionalmente, ao longo do governo Dilma, houve um distanciamento em relação ao setor empresarial, que contribuiu de forma significativa para que a indústria não prosperasse. Não que Dilma não quisesse o avanço. O plano Brasil Maior e o pacote de desonerações da folha de pagamentos estão aí para mostrar o contrário. O problema é que a concepção que o governo tem em relação a como tornar o país mais competitivo está descolada da realidade vivenciada por nações que dão o exemplo, como a Coreia do Sul. As medidas internalizaram a indústria e reduziram seu potencial de competitividade no período em que o Brasil mais precisava do setor para crescer. “É preciso que o governo reconheça a importância da indústria dentro de um projeto nacional de desenvolvimento. Não adianta a indústria ser competitiva dentro de suas fronteiras”, afirma Paulo Francini, diretor de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Como resultado das medidas de proteção ao mercado, a produtividade tem contribuído menos para o crescimento econômico no Brasil do que em outros países. O indicador da OCDE que calcula a produtividade total dos fatores (PTF) mostra que o crescimento médio anual do Brasil desde o ano de 2000 foi negativo em 0,3% até 2012. No caso dos dez países mais desenvolvidos da América Latina, o mesmo período corresponde a uma alta de 0,14%. Já quando se traça uma média de sete países asiáticos, percebe-se avanço de 2,4% em produtividade. Corrobora para este cenário a dificuldade que existe para se abrir e fechar empresas no país. O indicador Doing Business, do Banco Mundial, aponta que a abertura de uma empresa brasileira exige 13 etapas e leva 119 dias. No Chile, na Colômbia e no México, é possível atingir o mesmo objetivo em apenas 14 dias.

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O consenso dos especialistas é de que a única forma de resgatar o país de um modelo que desestimula a concorrência externa é a implementação de políticas horizontais, ou seja, que sejam as mesmas para todos os setores. A dinâmica é exatamente oposta à que vem sendo aplicada no atual governo. Em um intento de estimular o emprego, o governo acabou forçando o consumo de bens produzidos no país em detrimento de produtos importados com preços mais competitivos. Cria-se, assim, uma cadeia de ineficiências cultivada por preços elevados. “O melhor que o governo pode fazer é criar condições adequadas para o crescimento da produtividade, em vez de tomar apostas arriscadas em indústrias específicas”, afirma Jens Arnold, economista sênior da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Caso não haja, na estratégia do próximo governante, um plano de abertura industrial eficaz e que projete o Brasil para atender às demandas globais, o país pode não apenas ser menos competitivo em relação ao exterior, mas também em relação a ele mesmo. Segundo o economista Carlos Arruda, coordenador do núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral, os ganhos de produtividade dos setores que conseguem avançar decorrem, em geral, de aumento de investimento e área de produção, e não da produtividade propriamente dita, que envolve inovação e tecnologia. Outra deficiência é que mesmo no caso de setores competitivos, como o agronegócio, as ineficiências que existem ao longo do caminho, até o produto chegar ao consumidor final, acabam anulando os ganhos obtidos com a inovação. “No setor agrícola, houve um ganho de produção e eficiência na produção por hectare de soja, em especial. Mas, até chegar ao consumidor, esse ganho de produção já absorveu, ao longo da cadeia, ineficiências produtivas ligadas a infraestrutura, logística, fornecedores, serviços e distribuidores”, afirma Arruda. Nesta mesma dinâmica se enquadra a Embraer, que trabalha com ganhos de produtividade, dá treinamentos periódicos a seus funcionários, busca os ganhos de eficiência, mas recebe as deficiências produtivas de seus fornecedores. “São as heranças produtivas. O problema não está só no ambiente macro e nem só no micro. Entre os dois há uma cadeia que incorpora ou tira produtividade do processo produtivo”, diz o economista.

VEJASalto em inovação ainda não ocorreu

Project Syndicate: A destruição criativa no trabalho

A manutenção do emprego tem sido apontada pelo governo como a justificativa para todas as políticas de protecionismo industrial. A intenção da presidente Dilma foi sempre muito clara: com um mercado consumidor aquecido, pensa ela, a indústria não precisa demitir. E se essa indústria usa produtos nacionais, acaba criando um círculo virtuoso de emprego e consumo. A presidente, contudo, esqueceu-se de combinar isso com os próprios brasileiros, cujo orçamento está altamente comprometido com dívidas. Fosse a indústria mais competitiva, poderia compensar com exportações o desaquecimento local. O maior exemplo de falha nessa estratégia pode ser percebido no setor que mais foi alvo de medidas de estímulo: o automotivo. É justamente ele que mais vem sofrendo os efeitos da desaceleração. As vendas de veículos acumulam queda recorde para essa década e a indústria automotiva já demitiu mais de 10 mil funcionários ao longo do ano. Reverter esse caminho em busca de uma verdadeira abertura comercial significa ganhar no longo prazo. O resultado, apontam os especialistas, será um país com um mercado de trabalho mais sustentável e menos oscilante — já que não dependerá diretamente de políticas de governo. A receita é apartidária e pragmática. Mas requer um (a) cozinheiro (a) competente.

Como retomar a produtividade

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No setor sucroalcooleiro

No setor sucroalcooleiro, o aumento da produtividade está diretamente ligado ao investimento em inovação, como, por exemplo, em mudas mais eficientes. Segundo especialistas, mudas novas têm um potencial genético 13% mais produtivo, se o manejo for adequado. A recomendação é de que, anualmente, 20% do canavial seja renovado, para que ao fim de cinco anos todas as mudas sejam substituídas por outras mais produtivas. Contudo, por falta de caixa, as usinas brasileiras costumam renovar apenas 10%. O resultado é uma perda de produtividade da ordem de 5% entre 2006 e 2013. Em termos comparativos, no mesmo período, a soja e o milho tiveram um avanço de 2% e 36% no mesmo intervalo, respectivamente. Mudas de melhor qualidade são resultado de investimentos bilionários em inovação. E, neste caso, é preciso reconhecer que os usineiros estão em desvantagem. Enquanto os grandes produtores de grãos contam com o apoio da Embrapa e de gigantes como Monsanto e Cargill para financiar a melhoria genética, no caso da cana-de-açúcar, a inovação fica a cargo de grupos endividados. Vale lembrar ainda que o represamento dos preços da gasolina e do diesel nos últimos dois anos pelo governo também agravou o quadro. Isso porque a decisão impediu os usineiros de repassar o aumento de custos ao produto e, de quebra, assumir investimentos mais vultuosos em inovação e gestão adequada da lavoura.

No setor de óleo e gás

A produtividade no setor de óleo e gás tem dois aspectos importantes: o geológico e o industrial. A quantidade de barris produzidos por trabalhador, por exemplo, varia de acordo com o campo explorado. É um setor de difícil mensuração de parâmetros de produtividade, apesar de haver algumas iniciativas de padronização de métricas. Mesmo assim, não é preciso ser um grande estudioso da área para saber que o país tem pela frente um grande desafio com as descobertas do pré-sal. Os investimentos para exploração dos poços são bilionários e a indústria local ainda não está no nível de competitividade adequado para fazer frente à crescente demanda. Assim, o avanço do setor exigiria certa flexibilidade na compra de produtos e contratação de serviços. Para uma cadeia deficitária, a importação não é sinônimo de menor criação de vagas, mas uma forma de contornar a sobrecarga dos produtores nacionais, o que impacta diretamente na produção e produtividade. A Petrobras, por exemplo, maior empresa do setor no Brasil, se queixa de não conseguir cumprir seu cronograma de investimentos porque a indústria nacional não é capaz de atender à demanda. Neste sentido, a política de conteúdo local serve mais como entrave do que como propulsora do desenvolvimento. “É preciso sofisticar a politica de conteúdo local. Em vez de substituição de importação de forma indiscriminada, deve-se permitir a importação e a exportação a alguns setores”, defende Edmar de Almeida, diretor de pesquisa do Instituto de Economia da UFRJ. Para o advogado do setor de óleo e gás do Demarest Advogados, João Almeida, uma possível solução seria a Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) conceder autorizações específicas que permitiriam as empresas flexibilizar, dentro de um limite pré-estabelecido, as metas de conteúdo local que foram acertadas nas licitações. “Há espaço, dentro das interpretações, de flexibilização da regra”, diz Almeida.

No setor elétrico

Eficiência é a palavra-chave quando se fala em produtividade do setor elétrico, o que reforça o compromisso do próximo governo em estimulá-la. Com a reviravolta regulatória vista no setor em 2012 com a MP 579, que garantiu a modicidade tarifária, a receita das empresas do setor foi comprimida. A MP prevê que as geradoras e distribuidoras sejam remuneradas pelos custos operacionais, não por investimentos em eficiência. “As novas regras, para quem aceitou, provocou uma volta ao ano de 1998, quando estava vigente a tarifa pelo custo operacional, não pela eficiência”, afirma Alexei Ivan, presidente da Associação Brasileira de Energia Elétrica (Abee). O problema foi que nos últimos dois anos as companhias viram seus custos dispararem com a queda do nível dos reservatórios das hidrelétricas e acionamento de usinas térmicas, cujos custos de produção são significativamente maiores. O resultado desse quadro foi o sucateamento da infraestrutura e a falta de investimentos em eficiência. Para ganhar eficiência, os especialistas do setor recomendam, entre outras medidas, o investimento em geração, principalmente em hidrelétricas com grandes reservatórios; diminuição de perdas técnicas e não técnicas das linhas de transmissão e distribuição; respeito aos contratos; segurança jurídica; e estabilidade regulatória.

No setor automotivo

A melhora da produtividade do setor automobilístico esbarra em dois principais obstáculos: o perfil replicador e a lógica da escala. A fabricação no país, historicamente, reproduz modelos concebidos em centros de inteligência e inovação baseados na Europa, Estados Unidos, Coreia do Sul, China e Japão. O que a indústria nacional faz é apenas o processamento, o que não permite mudanças em nível tecnológico e de design, com exceção de algumas adaptações. No Brasil, reside a lógica de larga escala: produzir poucos modelos em grande volume, visando o baixo custo. “A lógica das empresas é que, em fábricas como as brasileiras, quanto maior a escala, melhor”, explica Luiz Carlos Mello, ex-presidente da Ford Brasil e sócio-diretor do Centro de Estudos Automotivos (CEA-Autodata). O Novo Regime Automotivo, implementado pelo atual governo, trouxe ao país algumas fábricas mais modernas, mas a maioria ainda possui instalações antigas que precisam se adaptar à produção dos poucos modelos mais novos. Outro ponto é a vocação da indústria automotiva brasileira de inclinar-se ao mercado doméstico. “Não temos tradição em criar tendências mundiais e trabalhar marcas. As fábricas de automóveis precisam ser mais flexíveis, como as da Coreia, para se tornarem referência”, acrescenta Mello. A média de produção de carros por empregado por ano é de 83 nos Estados Unidos contra 23 no Brasil, conforme dados de 2013. Mesmo assim, deve-se reconhecer ganhos de produtividade adquiridos ao longo das últimas duas décadas. Neste período, a produção nacional saltou de 1,4 para 3,5 milhões de veículos com o mesmo número de trabalhadores. No entanto, este avanço se deu, sobretudo, pelo aumento da capacidade via ampliação de fábricas, e não por investimentos em inovação, pesquisa e desenvolvimento e educação.

Em infraestrutura

Não é de hoje que a deficiência em infraestrutura no Brasil é tema de discussão. Mesmo assim, pouco se avançou nos últimos anos. A insegurança regulatória, a falta de manutenção adequada dos projetos já existentes, a inexistência de conexão entre os modais de transporte (rodoviário, ferroviário, hidroviário e aeroportuário) comprometem o lucro e agregam mais peso ao custo Brasil. Na relação entre quilômetro quadrado de área por quilômetro de trilho, o Brasil tem a proporção de 286, contra 19 do Japão, 42 dos Estados Unidos, 51 da Índia, 111 da Argentina e 201 da Rússia. Quanto menor o número, melhor, segundo levantamento do Internacional Union of Railways. Especialistas em logística dizem que o país está longe de atender a toda a necessidade, especialmente a ferroviária, mais barata para os exportadores. Um trem tem capacidade para transportar 100 toneladas por vagão. Considerando que cada trem carrega, em média, 30 vagões de uma vez, então, ele pode transportar 3 mil toneladas. Já um caminhão tamanho padrão carrega apenas 30 toneladas. A despeito disso, é preciso considerar que a malha ferroviária do país é velha e não permite que o trem circule em alta velocidade, como em outros países. “As ferrovias brasileiras não têm capacidade para atender à demanda. Muitas empresas gostariam de utilizar esse modal, mas não têm acesso”, comenta Paulo Fleury, diretor-geral do Ilos. Por ser um setor que exige alto investimento, subsídios governamentais, como taxas de juros menores, estimularia o investimento privado. O governo atual chegou a lançar um programa em 2012 para mudar a regulamentação do setor e construir 11 mil quilômetros de linhas férreas. Mas, até agora, nada saiu do papel. A incerteza com relação ao novo marco regulatório do setor travou os investimentos. No caso de hidrovias, a novela se repete: o potencial hídrico é desperdiçado. Segundo levantamento do Ilos, há mais 40 mil quilômetros de vias aquáticas disponíveis, especialmente nas regiões Norte e Centro-Oeste. Os portos também sofrem com a insegurança jurídica que a mudança do marco regulatório trouxe no ano passado. Até agora, o edital das primeiras concessões no novo modelo não foi aprovado. O primeiro passo para o próximo governo, na visão de especialistas, é fazer um grande diagnóstico de como estão as obras e quais são os projetos. Em seguida, é preciso estabelecer prioridades e um cronograma para que os projetos avancem. É preciso ainda ponderar a qualidade dos projetos de engenharia já feitos e, se necessário, refazê-los. O planejamento deve ocorrer em sintonia com o exponencial crescimento da demanda, condição necessária para o desenvolvimento de qualquer país.

Próximo presidente terá o dever de entregar um país mais competitivo

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