Nai e o dinheiro

IMG_0127Eu era uma criança serelepe. Gostava de correr de um lado para o outro, de brincar na rua com meus amigos o dia todo e adorava ir à sorveteria tomar aquela casquinha avantajada – morava no interior de SP – de Flocos com Napolitano. Naquela época ganhava uma mesada de R$ 20 e eu me deslumbrava quando via que havia sobrado algumas moedas no fim do mês. Na minha adolescência consegui convencer meus pais que com R$ 30 não conseguia sair com minhas amigas e barganhei um aumento de 66,66% na minha mesada, que a elevou para uma simbólica nota de R$ 50.

Minha família nunca foi muito ligada a bens materiais, carros luxuosos, nem itens tecnológicos de última geração, mas cultivam até hoje a cultura do conforto que cabe no bolso. Meu pai trabalhou em banco em grande parte de sua vida e minha mãe tem um dom de vendedora-nata que lhe rendeu experiências diversas no comércio desde atendente de lojas de departamento a dona de lojas de R$ 1,99, roupas, fábrica de porta-retrato, sorveteria, lanchonete… Hoje ambos tocam um restaurante/pastelaria no interior de São Paulo.

Se me perguntassem qual lição eu aprendi com meus pais, certamente eu falaria sobre sua visão de longo prazo e espírito batalhador. Contar com a sorte nunca foi o ponto forte deles. Eles sempre foram muito pé do chão e centrados quando o assunto era dinheiro. Talvez muito vêm de sua geração – meu pai chegou a dividir um ovo com um dos irmãos porque não havia mais o que comer e minha mãe era a única mulher entre seis irmãos homens em um tempo que eram as mulheres que cuidavam da casa e da família. Eles sempre arregaçaram as mangas e fizeram o que precisavam para seguir em frente. Hoje têm uma vida confortável, sem luxos exagerados, algumas propriedades, investimentos para aposentadoria e trabalham muitas horas por dia em um projeto que eles acreditam.

Como disse, meu pai trabalhou muitos anos de sua vida em banco e eu cresci naquele meio de lidar com dinheiro. Certa vez entramos em uma loja de brinquedos, eu tinha 6 ou 7 anos, e eu vi um daqueles carrinhos que você pedala – naquele tempo carrinhos elétricos eram absurdamente caros. Eu sempre fui MUITO teimosa e eu fiz um escândalo que queria aquele carrinho amarelo. A minha vida dependia de ter aquele carro. Minhas brincadeiras nunca mias seriam as mesmas se eu não tivesse aquele carro, a minha vida perderia o sentido. E meu pai, já sem paciência pelo escândalo que eu fazia na loja, me disse que aquele carro era muito caro. E eu, tranquilamente, lhe disse: “Mas você tem cheque, o banco paga”.

No fim eu acabei ganhando o carro, mas hoje, anos depois, eu percebo uma coisa boba, mas muito importante naquele episódio. Crianças não têm noção sobre dinheiro, não sabem o quão difícil é ganhá-los e o qual fácil é perdê-los e não sabem também o que uma dívida pode causar na cabeça de um adulto. É nosso papel ensiná-las desde cedo. Seja por meio de uma mesada, de conversas ou ainda de ‘nãos’. O que mais vemos hoje são adolescentes sem limites e eles têm grandes chances de se tornarem jovens universitários sem limites que torram seus salários todo em bares e baladas e adultos endividados também.

Acho que não é apenas uma questão de educação, é de exemplo. Eu sempre tive um ótimo exemplo em casa. Meus pais nunca deixaram de viver e nem de poupar. O equilíbrio entre presente e futuro é muito difícil de ser alcançado, mas, em se falando de finanças, deve ser ao menos almejado.

Ouço muitos amigos falarem sobre estarem no vermelho, de gerentes de bancos que os perseguem, de cheque especial, de compras em 12 vezes sem juros. Eu nunca passei por isso, mesmo tendo uma fase bem gastadora. Já tive épocas bem muquirana mesmo, de não comprar um sunday do McDonald’s porque já havia extrapolado minha cota de ‘comer fora’ do mês. Mas, como finanças é um exercício diário, percebi que o sucesso – financeiro, profissional, pessoal, amoroso etc – está no meio-termo. Nunca muito e nem pouco. Excessos são perigosos e autodestrutivos.

Não sou rica, não tenho dinheiro sobrando para planos megalomaníacos, mas conquistei muita coisa na minha vida até agora. Coisas que para alguns pode parecer pequeno, mas para mim são grandiosos. Moro sozinha, comprei uma smartTV, tenho um guarda-roupa cheio, saio moderadamente, pago uma academia, vou frequentemente ao supermercado e adoro sair para jantar com amigos, tenho recursos para emergências, invisto em duas previdências e, às vezes, jogo na Lotofácil, afinal, contar com a sorte faz parte também da vida, não é?

Próximo: Nai esponjinha

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