[EXAME] Com pior operação do mercado há 5 anos, Tenda sai do buraco

tenda

Abril/2016

Revista EXAME

Por Naiara Bertão

São Paulo — Na ciclotimia típica do mundo corporativo, não é de todo incomum que a empresa dada como perdida ontem seja a queridinha de amanhã — e vice-versa. O setor imobiliário brasileiro tem sido pródigo em grandes quedas.Incorporadoras como PDG e Rossi tiveram resultados tão ruins que hoje valem menos de 3% do que valiam cinco anos atrás.

Mas essas são apenas as quedas mais dramáticas. É tarefa quase impossível encontrar quem esteja melhor hoje do que estava em 2011, quando o Brasil vivia em transe rumo a uma Shangri-lá que nunca existiu. Uma delas é justamente a que, em 2011, todos davam como caso perdido: a incorporadora voltada para a baixa renda Tenda, controlada pela Gafisa.

Em 2011, a Gafisa teve prejuízo de quase 1 bilhão de reais — e 70% dessa perda veio da Tenda, motivada por uma das maiores barbeiragens da qual se tem notícia no setor imobiliário brasileiro. Descontrole nos custos, atrasos nas obras, análise de crédito mambembe, crescimento desorganizado — até terrenos contaminados por lixo industrial a Tenda tinha comprado.

Em 2012, a Gafisa, que havia adquirido a Tenda quatro anos antes, estudou fechar a subsidiária. Mas acabou desistindo da ideia porque teria de lidar com ações judiciais de mais de 30 000 clientes que haviam comprado apartamentos ainda por construir. Hoje, a situação é bem diferente. Enquanto empresas de construção estão enxugando para sobreviver, a Tenda conseguiu se reerguer e está ajudando a Gafisa.

É a terceira maior do setor em volume de lançamentos, a quarta em volume de vendas e a primeira em velocidade de vendas — indicador que mede o sucesso comercial dos projetos. Em 2015, depois de quatro anos seguidos de prejuízo, a Tenda voltou ao azul, respondendo por 41% do lucro da Gafisa.

O resultado é consequência de uma operação de guerra iniciada em 2012, quando Rodrigo Osmo, então diretor financeiro da Gafisa, assumiu a operação da Tenda. A sede da empresa foi transferida do bairro nobre de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, para a Sé, no centro. Aos 600 funcionários foi dada a missão de resolver problemas do passado e encontrar tempo para pensar no futuro.

As últimas unidades das “safras” pré-2012 foram entregues em setembro do ano passado. Cada uma das mais de 30 000 unidades deu prejuízo. Aos poucos, porém, foi possível repensar o modelo de negócios — e encontrar um que, de preferência, ganhasse algum dinheiro em vez de perder. Agora a Tenda só começa a erguer um prédio se a obra está 100% paga.

Os vendedores precisam repassar em até 90 dias os clientes às instituições financeiras — disso depende sua comissão. Um dos grandes motivos para a crise da Tenda foi a altíssima inadimplência, resultado de uma péssima análise de crédito. O padrão do setor é repassar os clientes aos bancos somente na entrega das chaves, o que abre espaço para o cancelamento de contratos (os chamados distratos).

Em 2012, a Tenda teve 1,25 bilhão de reais em distratos. Em 2015, o número caiu para 192 milhões de reais. A obra demora mais para começar, mas a empresa deixa de perder essa bolada com cancelamentos. Houve também uma mudança operacional. A Tenda passou a construir com moldes de alumínio, mais baratos, e não mais de alvenaria.

A companhia concentra-se em seis regiões metropolitanas, e não no país inteiro, como antes. O mercado de habitação para baixa renda vive um bom momento — e boa parte disso vem da mãozinha do governo. A MRV tornou-se a maior incorporadora da bolsa por ser líder desse mercado, que mantém a demanda graças a programas como o Minha Casa, Minha Vida.

Empresas como MRV e Tenda se beneficiam da consolidação porque esse mercado passou. Das 17 companhias que construíam para a baixa renda em 2010, só restam oito, sendo três consideradas grandes — MRV, Tenda e Direcional. Depender do governo é sempre um risco, ainda mais de um governo virtualmente quebrado.

As companhias de educação superior, por exemplo, sofreram com o encolhimento, do dia para a noite, do Fies, programa federal de financiamento ao ensino superior. Em 2014, a Gafisa anunciou planos de separar a Tenda. Alegou que os negócios são totalmente diferentes e têm pouca sinergia.

Mas a empresa não conseguiu se entender com os credores da Tenda, que emprestaram com a garantia do controlador. Nos últimos meses, pouco se falou no projeto de cisão. Talvez não seja mesmo hora de separar o que começou a dar certo de novo.

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