[EXAME] Conheça algumas startups que estão inovando na área médica

Estima-se que 80% das startups em saúde que existem no Brasil são focadas em desenvolver aplicativos — conheça iniciativas inovadoras na área

Idengene
Equipe da startup IdenGene

São Paulo — O setor de saúde é um dos que mais consomem dinheiro público e privado no mundo. Em 2019 a expectativa de vida global deve chegar a 73,3 anos e estima-se que 11% da população ultrapasse os 65 anos de idade. No mundo, cerca de 7 milhões de dólares (ou 9,9% do PIB) são gastos com saúde.

Só no Brasil, a estimativa é que as despesas saltem de 9% do PIB hoje para 20% a 25% em 2030, de acordo com estudo do Instituto Coalizão Saúde e da consultoria McKinsey. Para reduzir essa previsão, é consenso que a evolução tecnológica terá um papel fundamental, seja na descoberta de novas drogas ou no desenvolvimento de equipamentos e softwares que tornem hospitais mais produtivos e trabalhe a prevenção. Não é à toa que também é um dos que mais atraem investimentos.

O próprio Instituto Chan Zuckerberg, do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg e sua esposa, já anunciou 3 bilhões de dólares em investimentos nos próximos 10 anos para pesquisas de doenças ainda incuráveis.

Segundo a consultoria americana do setor Startup Health, mais de 8 bilhões de dólares foram investidos em 2016 em mais de 500 empresas de tecnologia em saúde nos Estados Unidos. Cerca de 200 novos investidores passaram a observar esse mercado. Grande parte desse dinheiro vai para startups de softwares, aplicativos e equipamentos médicos mais baratos e produtivos.

No Brasil, apesar de saúde ser o segundo setor que mais recebeu investimentos desde 2011 (foram 12,5 bilhões de reais, segundo a Abvcap), as iniciativas tecnológicas com base em biotecnologia e genética (ou lifescience, como é conhecida a área no exterior) ainda são minoria.

Estima-se que 80% das cerca de 900 startups em saúde que existem no Brasil são focadas em desenvolver aplicativos, como os de prontuário eletrônico e agendamento de exames, softwares para gestão de hospitais e clínicas e equipamentos para testes clínicos e melhora da qualidade de vida de pacientes.

“Poucos profissionais têm bagagem para empreender na área científica. Em geral, são pesquisadores de institutos e universidades, com anos de trabalho e resultados comprovados”, diz Eduardo Emrich, presidente da fundação mineira Biominas Brasil, que dá auxilia o desenvolvimento e expansão de negócios em saúde.

Veja algumas iniciativas brasileiras realmente inovadoras na área médica:

IdenGene

A startup, fundada em 2015 pelo biomédico e doutor em Oncologia Raphael Parmigiani e o administrador de empresas Thomas Almeida, realiza testes genéticos para diagnósticos de diversos tipos de câncer. Também ajudam oncologistas e pacientes a determinar qual o melhor tratamento para cada pessoa, a partir de seu genoma.

Os preços dependem da complexidade do exame, mas é possível fazer um diagnóstico de câncer de mama, por exemplo, por 2.000 reais. Ao realizarem tudo no Brasil – grande parte dos concorrentes envio as amostras para os Estados Unidos ou Europa – eles conseguem entregar resultados mais rápido, em até 15 dias, muitas vezes.

“Por sermos especializados, conseguimos dar aos pacientes uma consultoria personalizada – esse é o futuro da medicina”, diz Parmigiani. A área é promissora: por ano, o Brasil registra 600 000 novos casos de câncer. Em 2016, a IdenGene fechou a venda de uma fatia para o grupo nacional Oncoclínicas – a companhia tem o direito de aumentar sua participação de 20% (hoje) para até 70%. O valor da transação não foi divulgado.

Tismoo

Também na área de mapeamento genético, a Tismoo realiza testes de diagnóstico e tratamento em pacientes que apresentem o Transtorno do Espectro Autista. A empresa recebeu 4 milhões de reais em investimentos e começou a operar em 2015, em São Paulo. Formada por sete sócios, entre eles o professor da Universidade da Califórnia, o brasileiro Alysson Muotri, está agora em busca de investidores para ampliar a atuação. Dos clientes já atendidos, aproximadamente 5% são provenientes de fora do Brasil. Faturou aproximadamente 700 000 reais ano passado e espera dobrar as receitas este ano.

Veritas

Sediada no Supera, parque de biotecnologia da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP), a Veritas é uma empresa especializada em descobrir moléculas biológicas (produzidas por células e animais naturalmente ou a partir da engenharia genética) para farmacêuticas desenvolverem novos medicamentos. A companhia está testando um novo anticorpo para terapia e diagnóstico do câncer e novos agentes antibacteriais contra a Tuberculose. Por estar ainda em fase de testes, não fatura. A principal receita virá quando licenciarem biofármacos para a indústria farmacêutica. “Com o deposito da patente no mês passado, esperamos para o próximo ano negociar e fechar acordos com os potenciais interessados”, diz a química Sandra Rodrigues Pereira, sócia-fundada da companhia.

R-Crio

O dentista capixaba José Ricardo Muniz Ferreira conheceu o potencial regenerativo das células-tronco da polpa do dente de leite durante o doutorado em Biomateriais pelo Instituto Militar de Engenharia (IME-RJ), em 2012. “Comecei a estudar regeneração com células-tronco porque queria encontrar uma forma de reabilitar os meus pacientes com perda óssea”, diz Ferreira.

Em 2013, ele decidiu largar o consultório, que mantinha por 22 anos e empreender. Levantou 25 milhões de reais com sócios investidores e abriu em Campinas, interior de São Paulo, a R-Crio, a primeira empresa de extração e armazenamento de células-tronco vindas do dente de leite.

A empresa já fez centenas de coletas e deve faturar 6 milhões de reais este ano. Os clientes pagam cerca de 3.000 reais pelo procedimento, mais 735 reais por ano pelo armazenamento, preço próximo ao praticado por empresas que armazém células-tronco do cordão umbilical e medula óssea, como a Cryogene, Cryopraxis e CordVida.

OneSkin e Pluricell

A empreendedora Carolina Reis vinha desde 2014 a produzir em laboratório diferentes tipos de células humanas a partir de células-tronco, como as da pele. A intenção era vender para a indústria de cosméticos para ser usada em testes de novos produtos. A companhia tomou um novo rumo quando ela foi selecionada para participar de um programa de mentoria da aceleradora americana de biotecnologia IndieBio, em São Francisco (EUA).

“Percebi que o mercado de pele humana estava saturado, em especial nos EUA. Fomos desafiados, então, a criar um novo negócio em apenas quatro meses de curso”, diz Carolina. Como resultado, a OneSkin começou a testar moléculas e princípios ativos com poder antienvelhecimento com o objetivo de vender à indústria cosmética.

“Começamos do zero, com novo nome, novos sócios e nova proposta”, diz a bioquímica e empresária, que tem mais três sócios. A empresa acaba de receber um aporte de capital de um fundo de investimento – o valor não foi divulgado, mas está entre 1 e 3 milhões de dólares.

No mesmo ramo está a Pluricell Biotechnologies, startup criada por biólogos que reproduz, a partir de células-tronco, tecidos humanos, como os que compõem o coração e o fígado. “Acreditamos muito na medicina regenerativa e terapia celular para o futuro dos tratamentos de doenças”, diz Marcos Valadares, sócio da Pluricell e da GeneSeq, startup de sequenciamento genético.

Supera – USP

O Supera, parque biotecnológico da USP de Ribeirão Preto é um dos principais do país em pesquisas relacionadas à área médica. Ao todo são 63 iniciativas de empreendedores, como os médicos Sandro Soares Ebert Seixas Hanna, da Invent Biotech, empresa focada na produção de anticorpos para tratamentos imunológicos.

Empreendedorismo Corporativo

Uma das principais dificuldades para o setor se desenvolver no país é de ordem financeira. Diferente de outras startups, as ligadas à área médica demandam investimentos muito maior (milionários, em sua maioria) e demoram de 10 a 12 anos para conseguir, de fato, comercializar seus produtos. Por isso, os principais investidores são grandes grupos do setor, como farmacêuticas, laboratórios de análises e hospitais.

Os hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês já começaram há pelo menos três anos a estreitar os laços com startups brasileiras para melhorar procedimentos, criar novos tratamentos e desenvolver a parte de análise de dados. Juntos, eles vão investir em 2017 quase 80 milhões de reais nas áreas de pesquisa e inovação.

A Johnson & Johnson, por exemplo, investe globalmente 9 bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento por ano, sendo que parte deste dinheiro vem ao Brasil, onde há um de seus cinco centros de pesquisa no mundo. A empresa acaba de selecionar a vencedora do programa Aging Population Challenge, iniciativa voltada para start-ups latino americanas que estão desenvolvendo soluções de saúde voltadas para idosos. A vencedora, a brasileira Hoobox Robotics, comercializa um software de reconhecimento de imagem que ajuda pessoas a controlarem a cadeira de rodas através apenas de suas expressões faciais.

LINK: Conheça algumas startups que estão inovando na área médica

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