[Valor Investe] As rugas do FaceApp podem te fazer pensar seriamente na aposentadoria

O filtro de envelhecimento assusta em um primeiro momento, mas é uma ferramenta poderosa para driblar a dificuldade do nosso cérebro de pensar no futuro

gustavo-ferreira

(Matéria publicada originalmente no Valor Investe em 16/07/2019)

Por Naiara Bertão

Não deu outra coisa nas redes sociais este fim de semana além de pessoas compartilhando fotos delas mesmas alguns (bons) anos mais velhas. O filtro, criado pelo aplicativo FaceApp, pode assustar em um primeiro momento, mas, pode ser uma ótima oportunidade de você conseguir organizar a sua vida financeira de vez.

Isso porque ele permite nos vermos anos mais tarde, algo que o nosso cérebro se recusa a fazer quando pensamos em poupar para o futuro. Um teste rápido: se alguém te perguntar se você prefere ganhar R$ 100 hoje ou R$ 110 daqui um mês, o que você responderia?

A maioria das pessoas pegaria o dinheiro já. Isso porque o nosso cérebro entende que R$ 100 hoje valem mais do que R$ 110 lá na frente. Isso é o que os psicólogos econômicos e economistas comportamentais chamam de desconto hiperbólico. Mas ele é apenas um dos culpados da nossa visão ‘curtoprazista’.

Há outro culpado: o viés do presente. Pense no estacionamento de um shopping center na véspera de Natal. Estará vazio ou entupido de carros? Pense em como é ou era sua rotina de estudos para as provas. Mantinha um planejamento diário ou deixava sempre para a última hora, passando a madrugada toda revisando a matéria?

Pois bem, tendemos, então, a postergar as atividades para o prazo máximo em que podem ser realizadas porque queremos aproveitar ao máximo o bem-estar do presente.

“A gente dá muito mais peso para o presente do que deveria. Se ganharmos uma viagem, tendemos a pensar que a melhor data para ir é hoje. Antecipamos tudo o que é prazer e postergamos o que ocasiona dor ou desprazer”, comenta o economista e blogueiro do Valor Investe, Samy Dana.

“Em aposentadoria isso provoca um grande problema porque as pessoas antecipam seu consumo, vivendo melhor no presente, e faz isso de forma repetitiva. Assim, nunca chega o futuro. Prometem começar a poupar ou investir na segunda-feira e acabam pulando para a outra segunda, e depois adiam para mais uma semana e acabam nunca fazendo”, aponta Dana.

Leia também: Aplicar no mercado financeiro ou fazer faculdade? Veja o que dá mais dinheiro

Se nem com prazos mais curtos, como um mês, uma semana e, em muitos casos, um dia, já temos dificuldade, imagine poupar para daqui 20, 30, 40 ou 50 anos usufruir desse sacrifício. “Eu não sei nem o que será da minha vida até lá”, é a desculpa mais comum para fugir da árdua tarefa de planejar a aposentadoria.

Recentes técnicas de mapeamento cerebral têm nos permitido fazer importantes descobertas sobre como nosso cérebro lida com investimentos.

“Por exemplo, quando tomamos decisões ligadas a guardar dinheiro para a nossa aposentadoria, a área do cérebro ativada é a área responsável por processar interações com outras pessoas e não conosco mesmos. É como se ao tomar uma decisão de tão longo prazo o nosso cérebro não conseguisse entender que o recurso que estamos guardando é para nós mesmos. Em outras palavras, o cérebro processa esse ato como uma ‘doação’”, explica Martin Iglesias especialista em investimentos do Itaú Unibanco

E sinto informar a todos, mas estamos otimistas demais. Segundo pesquisa da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), mais da metade (56%) das pessoas que ainda não se aposentaram acreditam que os recursos que as sustentarão na velhice virão da previdência pública. Ledo engano!

“Ainda que hoje a reforma da Previdência seja assunto de qualquer roda de conversa, a maior parte das pessoas tem a certeza de que alguém está cuidando do futuro financeiro para elas. Portanto, não precisam se preocupar com isso agora”, explica eu seu blog no Valor Investe a superintendente de educação financeira e market data da Anbima, Ana Leoni.

Leia o Blog da Ana Leoni: “É melhor você enriquecer antes de envelhecer

Então, o que devo fazer agora?

Sabendo que temos naturalmente dificuldade em poupar para nosso “Eu Futuro”, podemos aproveitar para encarar a nossa foto mais velho(a) e começar um compromisso com nós mesmos(as).

Olhe para sua imagem com o filtro e se mentalize no futuro: como você quer estar naquele momento? Você quer estar curtindo a aposentadoria com uma receita mensal confortável ou passando dificuldades financeiras?

Acho que todos nós queremos mesmo é ter dinheiro para viajar, desenvolver um novo hobby ou até começar um novo projeto pessoal/profissional. Certo? Então planeje seu orçamento para conseguir poupar e coloque seu dinheiro para render.

Planeje o seu futuro

O consultor financeiro Gustavo Cerbasi sugere em seu livro “Adeus Aposentadoria” para, além de investimos financeiros para a nossa aposentadoria, também nos preocupemos em manter a nossa saúde em ordem.

Isso porque, se precisarmos trabalhar mais, estaremos fisicamente e psicologicamente em condições e, se conseguirmos poupar o suficiente para nos aposentar e nos dedicar ao que nos faz felizes, também teremos saúde para aproveitar essa fase.

Outro ensinamento de Cerbasi no livro “A Riqueza da Vida Simples” (Editora Sextante), lançado este ano, é o de priorizar no orçamento doméstico gastos com o que nos faz feliz hoje, mas não deixar de poupar para o que vai nos fazer feliz lá na frente.

Ele propõe, então, inverter o tradicional orçamento de gastos primeiro e conforto depois. Ou seja, colocar o que nos faz feliz hoje e que nos pode trazer uma satisfação mais duradoura antes dos gastos básicos. Depois, adaptar o nosso estilo de vida ao que sobrar, mesmo que isso signifique morar em um apartamento menor, usar transporte público ou levar marmita para o trabalho. Entenda como fazer isso nesta matéria sobre o assunto.

Se você quer ter uma noção de quanto deve poupar para ter uma quantia de dinheiro mensal para, lá na frente, não precisar mais trabalhar, veja o post do economista André Rocha, colunista do Valor Investe, e nossa calculadora de Previdência.

O Itaú também desenvolveu uma metodologia para saber quanto poupar para a aposentadoria que ensina a seus clientes: a regra do 1,3,6,9. Veja:

  • 35 anos: 1 ano de salário acumulado;
  • 45 anos: 3 anos de salário acumulado;
  • 55 anos: 6 anos de salário acumulado;
  • 65 anos: 9 anos de salário acumulado.

Exemplo: se você tem 35 anos, deve ter o valor equivalente a um ano do seu salário acumulado para a aposentadoria; se tem 45 anos, deveria ter o equivalente a três anos; aos 55, precisa acumular seis anos da sua renda e; aos 65, precisa de nove anos de salário.

Mas, o banco sugere que, se você tiver entre 25 e 40 anos, guarde todos os meses um percentual equivalente à sua idade atual menos 15. Ou seja, se você tem 37 anos, deveria guardar 22% da sua renda para garantir um futuro tranquilo (37 – 15 = 22).

Vale dizer que é apenas uma das técnicas para descobrir quanto poupar e você deve colocar uma meta que seja adequada a você. Só você sabe o quanto realmente consegue poupar – claro, depois de ser honesto(a) com suas reais necessidades de gastos. O importante é guardar alguma coisa todo mês.

Invista em você mais velho(a)

Estudos ligados à área das Finanças Comportamentais mostram que, se uma pessoa for exposta a uma foto sua envelhecida, na hora de tomar a decisão, a chance de ela fazer um investimento aumenta bastante.

Samy Dana dá uma dica valiosa: mantenha um fluxo de pagamento para você mesmo(a) como se fosse um compromisso, na mesma categoria da conta de luz, telefone e internet que você paga mensalmente.

“Podemos criar um valor para nossa aposentadoria, uma conta que pagamos todo mês e direcionamos para investimentos”, diz o economista.

Ele recomenda aplicar o dinheiro em fundos de investimento, títulos do Tesouro e papéis de renda fixa e variável conforme o seu perfil de tolerância ao risco, mas não aplicar em qualquer plano de previdência privada.

“Só valem [os planos de previdência] a pena se não tiver taxa de entrada e nem de saída e a taxa de administração for inferior a 0,4% ao ano”, explica o economista.

Se você tem realmente dificuldade em se comprometer com você mesmo(a), a dica é usar o que os economistas comportamentais e psicólogos econômicos chamam de “nudge” ou empurrãozinho.

Exemplo disso são as aplicações automáticas na poupança e no Tesouro Direto. Sabe aquele velho ditado “o que os olhos não veem o coração não sente”? Se você não vê o dinheiro na sua conta, tapeia o seu cérebro e sua vontade de gastar.

“O FaceApp serve para refletirmos sobre a forma como estamos nos preparando para o futuro. Aproveite a brincadeira da foto envelhecida para repensar a forma como você está se preparando para o futuro”, diz Martin Iglesias, do Itaú Unibanco.

Se você gosta do tema, temos ainda duas indicações de livro:

“Decisões Econômicas: Você já parou para pensar?”, da professora e colunista do Valor Investe Vera Rita de Mello Ferreira (bom para entender como a nossa mente funciona e como tomamos decisões)

“O valor do amanhã”, de Eduardo Giannetti (para saber mais sobre como as escolhas que fazemos afetam nosso futuro

 

Veja a matéria original: As rugas do FaceApp podem te fazer pensar seriamente na aposentadoria

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