[Valor Investe] Três fundos de investimento perderam mais de 10% em agosto. Entenda por quê

No mês passado, três fundos caíram dois dígitos, impactados pelas turbulências na economia global e forte variação do câmbio. Veja quais

ralo financeiro

(Matéria publicada originalmente no Valor Investe em 06/09/2019)

Por Naiara Bertão

Agosto já é considerado um mês longo e difícil por não ter feriado. Mas, este ano, foi especialmente árduo para os milhares de investidores de alguns fundos. Dos quase 800 produtos oferecidos nas plataformas, 200 tiveram perdas no mês passado. Três, em especial, caíram dois dígitos, assustando os cotistas.

São eles: Exploritas Alpha América Latina FIC FIM, da gestora Exploritas; Alaska Black BDR Nível I FIC FIA, da gestora Alaska; e Versa Long Biased FIM, da Versa. Os três são fundos considerados agressivos e, justamente por terem dado bons retornos em meses anteriores, atraíram muitos investidores nos últimos anos. Alaska Black e Exploritas, por exemplo, aparecem na lista dos fundos onde mais os ricos investiram em julho.

Fundos que perderam dois dígitos em agosto

Fundo Retorno no mês Retorno no ano
Exploritas Alpha América Latina FIC FIM -16,95% -3,92%
Alaska Black BDR Nível I FIC FIA -14,27% 5,02%
Versa Long Biased FIM -12,08% 3,49%

Em relação a outros fundos do mesmo perfil, esses três fundos foram bem piores.

Mediana da rentabilidade em agosto por categoria

Fundos multimercado 0,55%
Fundos Long Biased 1,19%
Fundos de Ações 1,24%

Apesar de as medianas apontarem para cima, não foi um mês fácil para os investidores.

O próprio Ibovespa oscilou bastante, chegou a acumular queda de 5,29% durante o mês (quando o índice chegou a 96.429 pontos), mas, no fim, acabou perdendo apenas 0,67% no acumulado de agosto. Já o dólar passou de uma mínima de R$ 3,85 no 1º dia do mês para a máxima de R$ 4,17 no dia 29, a segunda maior cotação da história do real até então. Acabou fechando com valorização de 8,5% em agosto.

Três grandes acontecimentos bagunçaram todo o cenário e aumentaram consideravelmente o nível de incerteza. Prova disso foi que o investimento mais rentável de agosto foi o ouro. O metal, cuja valorização mensal chegou a quase 18%, é considerado um porto-seguro para momentos de aversão a risco.

O que aconteceu em agosto?

O acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China, questão que se arrasta há meses, foi um dos motivos. Foi em agosto que o banco central chinês permitiu que o yuan (moeda local) tivesse a maior desvalorização desde 2008, rompendo a barreira de 7 yuans por dólar. Os EUA classificaram, então, a China como um país manipulador de câmbio.

Outro ponto delicado do mês foi a “moratória” da Argentina na última semana. O ministro da Fazenda da Argentina, Hernán Lacunza, anunciou na quarta-feira (28 de agosto) um pacote de extensão dos prazos das dívidas do país, especialmente com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mesmo não sendo uma moratória propriamente dita – foi mais uma renegociação de vencimentos de dívida com os credores -, a notícia aumentou a aversão aos mercados emergentes.

Antes disso, a crescente probabilidade de vitória do kirchnerismo nas próximas eleições já havia sacudido o mercado do país vizinho. O Merval, principal índice da bolsa de valores argentina fechou agosto em 24.609 pontos, queda acumulada de 41,49% no mês.

Por fim, a briga entre os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da França, Emmanuel Macron, por causa da Amazônia reforçou a aversão ao país. No centro da crise diplomática estava em jogo o apoio financeiro de países da União Europeia ao Fundo Amazônia, em um momento de aumento das queimadas na região.

A surpresa positiva do mês foi o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro do segundo trimestre, que subiu 0,4%, o dobro do estimado pelo mercado. Em 12 meses, o avanço foi de 1%.

Como os fundos reagiram?

Em situações como essa, é natural que não apenas investidores, mas também gestores vejam seus investimentos sacudir, e, eventualmente, tentem reagir. Cada qual com sua estratégia, tentam, em geral, minimizar as perdas de seus clientes. Nem sempre dá tempo.

Fundos mais alavancados ou que concentram a carteira em alguns ativos acabam sendo mais prejudicados por oscilações bruscas do mercado (para bem e para o mal). Aqueles que, como estratégia, mudam muito de posição também podem acabar fazendo apostas erradas em momentos de turbulência e falta de clareza.

Veja o desempenho dos três fundos ao longo dos últimos três anos:

Trajetória volátil
(Não consegue visualizar o gráfico, veja na matéria original)

Apesar da queda brusca, esse não foi, por exemplo, o pior período para os fundos Alaska Black e Versa Long Biased. No caso do Alaska, entre março e junho de 2017, o fundo chegou a acumular prejuízo de 22,21% contra 14,27% em agosto, situação que levou dois meses para compensar.

Já o Versa perdeu entre março e setembro de 2018 nada menos que 42,88%, prejuízo que levou quatro meses para recuperar. Ambos são fundos considerados mais agressivos.

A perda de agosto do Exploritas Alpha, de 16,95%, contudo, foi a maior de sua história e, no ano, a carteira acumula prejuízo de 3,92%.

“Os fundos têm posições nos mercados de renda variável, juros e câmbio. No caso do Alaska Black, o carro chefe da gestora (de mesmo nome), as posições podem mudar acentuadamente de um mês para outro”, explica o economista Marcelo d’Agosto em sua coluna no Valor Investe.

Uma estatística usada para medir o risco de um fundo de investimento é o Valor em Risco (VaR). O objetivo é calcular, com base nos dados históricos, qual seria a perda máxima possível em certo período, dentro de um determinado intervalo de confiança.

No exemplo abaixo, o economista Marcelo d’Agosto calculou o VaR dos três fundos considerando a rentabilidade mensal entre agosto de 2016 e julho de 2019. A estimativa representa perda máxima esperada em um mês, com 99% de confiança.

O prejuízo do Exploritas Alpha em agosto foi de 16,96% e extrapolou a previsão, que era de no máximo 4,20%. Já as perdas do Alaska Black e do Versa Long Biased ficaram dentro do intervalo de previsão. Veja:

Previsão e realidade

O que fazer?

Para investidores que, ao ver seus cifrões caírem junto com o preço da cota do fundo, a primeira dica é: calma! Não tomar decisões por impulso, como sacar o dinheiro, é importante para você não se arrepender depois.

A segunda dica é tentar compreender porque o fundo foi mal. Como muitos fundos trabalham com estratégia de longo prazo, um mês para eles não significa muito – podem, inclusive, recuperar depois. Claro, pode tomar mais tempo do que o esperado, mas há chance de recuperação e o investidor só se beneficiará disso se for paciente.

Outra pergunta que o investidor deve se fazer é se os motivos que o fizeram optar pela aplicação (como confiança na estratégia do gestor) seguem presentes. Às vezes, a pessoa nem faz essa reflexão a priori.

“A recomendação é manter a calma e ver se a política de investimento do fundo é compatível com o que você quer, pensar se está disposto a colocar o dinheiro nessa gangorra. É legítimo ficar desconfortável com isso. Se realmente você viu que não é para você, pode ser melhor sair, resgatar, e investir em um fundo menos alavancado ou arriscado”, diz d’Agosto no post mencionado.

Para entender porque os fundos se deram mal em agosto, analisamos suas cartas mensais, documentos importantes para investidores acompanharem a estratégia e a visão dos gestores de seus fundos. São, geralmente, publicadas no site das gestoras.

Veja agora o que levou o Exploritas Alpha, o Alaska Black e o Versa Long Biased a amargar perdas significativas em agosto:

Exploritas

A Argentina foi uma pedra no sapato do fundo multimercado Exploritas Alpha América Latina. A cota do fundo se desvalorizou 7% em um só dia, 11 de agosto. O motivo foi a prévia da eleição presidencial na Argentina.

A chapa Frente de Todos (de Alberto Fernadez e Cristina Kirchner) ganhou da chapa Juntos por el Cambio (Mauricio Macri e Miguel Picheto) por uma diferença de mais de 16 pontos dos votos válidos: 49,49% vs 32,94%. No dia, a alocação do fundo era de 8,6% em ações e 15,5% em bonds (títulos de dívida corporativa) na Argentina.

A reação dos investidores foi de reduzir a exposição no país, o que puxou, consequentemente, o preço dos ativos para baixo.

“Esse cenário não era imaginado nem pelas pesquisas contratadas pelo kirchnerismo. As últimas pesquisas, e as mais sérias, que circulavam pelo mercado na semana antecedente à eleição, mostravam um cenário apertado: uma vitória de 1-3% para qualquer um dos lados”, explica a gestora na carta mensal.

Segundo o gestor da Exploritas, Daniel Delabio, a gestora continua posicionada em Argentina. O que fizeram, até agora, foi trocar ativos (de ações para bonds) e setores onde veem oportunidades maiores de ganhar dinheiro.

Hoje, a gestora continua apostando em Argentina, mas sua posição em ações diminuiu para 2,9% da carteira, e a de bonds, para 10,4% — parte da diminuição da fatia é a própria perda de valor dos ativos.

“Achamos que alguns preços estão exagerados. Não sabemos o que vai acontecer, mas acreditamos que, passada a eleição, os líderes argentinos vão sentar com os credores e renegociar as dívidas. Isso poderia levar a uma recuperação de preços dos ativos em relação aos preços atuais”, comenta Delabio.

Apesar do cenário adverso, a gestora está confiante que os preços atuais justificam os riscos. “Pensando em um horizonte um pouco mais longo (6-12 meses) acreditamos que esses títulos estarão em patamares mais condizentes com a história e a realidade”, diz a empresa na carta.

A crise na Argentina representou 11,6 pontos percentuais dos 16,95% de perdas no mês. Outras apostas que não deram certo foram posições compradas e vendidas em ações, inclusive brasileiras, e os juros. A gestora aposta em juros menores para os títulos públicos de longo prazo, mas, em agosto, as taxas subiram um pouco.

O fundo BTG Exploritas Alpha América Latina Access FIC FIM, que compra cotas do fundo-mãe (Exploritas Alpha América Latina FIC FIM), também teve um prejuízo relevante, de 16,88% no mês. Os dois fundos juntos somam patrimônio de R$ 1,5 bilhão e 16 mil cotistas.

Alaska

O fundo de ações Alaska Black BDR Nível I e o seu filhote Alaska Black II BDR Nível I FIC FIA, que compra as cotas do primeiro, amarguraram perdas de 14,27% e 14,32% em agosto, respectivamente. Juntos, os fundos somam R$ 2,8 bilhões de patrimônio e 74,5 mil cotistas.

Segundo a carta de agosto da gestora, o fundo perdeu em suas três estratégias, de câmbio, juros e ações.

A principal perda veio do câmbio (-7,85%). “Em câmbio, os fundos Alaska Black FIC’s seguem com exposição de um patrimônio vendido no dólar contra o real”, explica a gestora na carta mensal.

A equipe também foi surpreendida em juros. “No mercado de juros, os fundos Alaska Black FIC’s mantiveram sua posição vendida em juros e sofreram com a alta das taxas”, explica.

A gestora não disse quais as ações que puxaram o resultado para baixo no mês, mas comenta que, em renda variável, as perdas foram “generalizadas”. “Além do Ibovespa ter terminado o mês no campo negativo, nossas carteiras de ações tiveram um desempenho pior que o benchmark.”

Perdas e ganhos do Alaska Black em agosto

Renda Variável Juros Câmbio Caixa Custos Total
– 3,40% – 4,01% – 7,85% 0,07% 0,93% – 14,27%

“Apesar de adotar um estilo de gestão muito ativo, o resultado das posições do Alaska Black guarda relação com os três principais indicadores do mercado brasileiro que medem o desempenho dos juros prefixados, da bolsa e do câmbio. No jargão do mercado, essa combinação é chamada de “kit Brasil”, diz o economista Marcelo d’Agosto em seu blog no Valor Investe. “O desempenho do Alaska Black tem sido altamente positivo. Mas as oscilações de rentabilidade também têm sido elevadas”, completa.

Versa

Com R$ 120 milhões de patrimônio e 2,3 mil cotistas, o fundo Versa Long Biased FIM perdeu 8,2% em agosto só com opções de dólar e outros 3% com opções de bolsa de valores. As opções são papéis que dão ao portador o direito de comprar ou vender um ativo no futuro por um valor previamente combinado.

Outra perda significativa, segundo a carta mensal da gestora, foi com a venda a descoberto de três papéis: Banco InterMagazine Luiza e o ETF BOVA11. Uma venda a descoberto é uma aposta do investidor na queda da ação, mas sem ter se protegido de possível perda antes (daí o termo ‘a descoberto’). Neste caso, o gestor do fundo acreditou que essas ações cairiam, mas elas subiram: só o banco Inter se valorizou 21% em agosto e a Magazine Luiza, 10%.

“Enxergando aceleração no crescimento do Brasil, entrada de capital externo e desaceleração do crescimento americano, montamos a carteira comprada em construtoras, varejistas, siderúrgicas, e vendida em ações de menor crescimento como elétricas, seguradoras, além de casos específicos”, diz a gestora na carta que soltou aos acionistas no dia 15 de agosto.

“Apesar de o cenário interno estar em linha com o esperado, o externo mostrou-se mais desafiador do que prevíamos. A recente escalada na guerra comercial veio concomitante a países desenvolvidos reportando uma piora significativa da economia e os dados chineses mostrando uma desaceleração mais forte do que o esperado. Neste cenário, nossa exposição a commodities e ao real se tornaram perdedoras”, completa.

Na ponta contrária, ou seja, com as apostas de alta de papéis na bolsa, o fundo perdeu com a mineradora Vale, que se desvalorizou 8,5%, e a fabricante de autopeças Iochpe, que acabou perdendo 10,7%.

A Vale sofreu com a piora na guerra comercial entre EUA e China, já que o país asiático é o maior comprador de minério de ferro do mundo e sua economia é sensível ao aumento de tarifas comerciais impostas pelos EUA. Além disso, o preço do minério de ferro caiu 25% em agosto.

“Já esperávamos uma acomodação nos preços do minério de ferro dado o gradual retorno dos níveis de produção da Vale após o rompimento da barragem de Brumadinho. Nas nossas estimativas, as ações da Vale estariam ‘baratas’ mesmo se os preços voltassem para os US$ 75/ton de antes (hoje está em US$ 85/ton) da tragédia”, diz a gestora na carta.

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