[Valor Investe] Conheça as 20 gestoras que fisgaram os investidores em 2019

O ranking engloba as casas que mais captaram dinheiro e cotistas no ano passado. Juntas, elas atraíram R$ 60 bilhões para seus fundos

Gestoras de investimento

(Matéria originalmente publicada no Valor Investe em 19/02/2020)

Por Naiara Bertão e Marcelo d’Agosto

O Brasil tem 634 gestoras de investimentos, entre independentes e casas ligadas a grandes bancos. Por mais que o interesse do investidor brasileiro por novos investimentos tenha aumentado desde que a Selic começou a cair há três anos, é difícil se diferenciar. Com exceção de alguns nomes mais conhecidos e facilmente lembrados quando falamos do mercado de gestão de recursos, como SPX, Gávea, JGP e Verde Asset, os demais precisam encontrar uma estratégia para conseguir lugar ao sol. E em 2019, não foram esses nomes conhecidos que brilharam.

Um levantamento feito pelo economista e blogueiro do Valor Investe Marcelo d’Agosto, a partir de dados da plataforma Morningstar, mostra que as 20 gestoras que mais captaram dinheiro e atraíram cotistas para seus fundos de investimentos em 2019 somaram R$ 60 bilhões a mais ao seu patrimônio líquido, dinheiro de 1,2 milhão de novos cotistas.

“É um volume muito grande e dá para perceber que se deu bem quem mostrou um bom histórico de rentabilidade e construiu um bom relacionamento com escritórios de agentes autônomos, consultores e pequenos investidores”, diz d’Agosto.

O levantamento exclui fundos de previdência e imobiliários e só considera na conta os fundos de investimento que tenham mais que 100 cotistas. Vale ressalvar que pode haver na conta uma sobreposição no número de investidores, já que quem aplicou em mais de um dos fundos foi contado duas vezes.

Valor Investe ouviu sete gestoras para entender qual a estratégia de captação acertada em 2019 e o que planejam para 2020.

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Empurrão das plataformas

Se a queda dos juros incitou investidores a procurarem alternativas de investimentos, foram nas plataformas independentes que eles os encontraram. Apesar de os bancos ainda responderem por dois terços do mercado de gestão de recursos, a fatia vem diminuindo à medida que empresas como XP, BTG Digital, Órama, Easynvest, Guide, Genial, Modalmais, Necton e outras dezenas – são mais de 30 hoje – conquistam clientes.

O caso da gestora Occam Brasil ilustra bem o poder desses canais de distribuição. Quando a gestora nasceu, no fim de 2018, de uma cisão da Brasil Plural Gestão de Recursos tinha R$ 2,2 bilhões sob gestão, basicamente de fundações, investidores institucionais, grandes bancos e escritórios que cuidam do dinheiro de famílias abastadas, os family offices. Hoje, são R$ 9,5 bilhões sob seu guarda-chuva, sendo que um terço já é de clientes vindos de plataformas.

“O que está acontecendo no Brasil é um forte movimento de saída de renda fixa e tomada de mais riscos. Aumentamos a captação em todas as classes de clientes e canais, mas crescemos de forma planejada e equilibrada. Acreditamos que o passivo [patrimônio] deve ser divido entre classes, não ter demais e nem de menos de cada uma”, diz Isabel Ramos, sócia da Occam.

A abertura desse canal direto com o cliente também permitiu que gestoras novas entrassem na disputa com as grandes. A Legacy Capital, por exemplo, captou R$ 7,7 bilhões ano passado e tem apenas um ano e meio de vidaA Dahlia Capital, fundada em meados de 2017, atraiu R$ 2,4 bilhões só em 2019.

Até quem não era tradicional desse segmento, como as seguradoras Porto Seguro Investimentos e SulAmérica Investimentos, conseguiu emplacar seus fundos de renda fixa, ações e crédito privado. Juntas, as duas captaram R$ 3 bilhões em 2019 e 77 mil cotistas.

“Primeiro oferecemos aos nossos clientes os produtos que já usávamos para gerir o dinheiro da própria seguradora e depois abrimos para as plataformas”, comenta Izak Benaderet, diretor de Investimentos da Porto Seguro Investimentos, aberta em 2014.

Estruturaram oito fundos de investimentos em três estratégias: renda variável, renda fixa e crédito privado, este último só com ativos de alta qualidade, que, apesar de darem retorno menor, são menos arriscados. “Nosso apetite de risco de crédito para a empresa [a Porto Seguro] é o mesmo que para os clientes”, diz Benaderet.

Bancos mais abertos

A força das plataformas fez as gestoras dos grandes bancos também se abrirem mais. O grande destaque foi a Kinea Investimentos, que pertence ao banco Itaú. De longe foi a que mais captou no ano passado – R$ 15,5 bilhões.

“Nossa estratégia de captação está focada em distribuir nossos produtos via parceiros que tenham plataforma private e plataformas de varejo. Nós temos diversos distribuidores. Além do próprio Itaú, estamos no BTG, Banco do Brasil, XP, Guide, Easynvest e várias outras plataformas”, diz Márcio Verri, presidente da Kinea, ressaltando que, mesmo nesses canais de distribuição, a preferência é por clientes mais endinheirados.

A própria gestora da XP, a XP Asset Management, cresceu com o empurrão da plataforma. Apesar de funcionar de forma independente do grupo, tem 80% dos clientes pessoas físicas, a maior parte vinda da própria plataforma da XP.

“Nosso esforço dentro da plataforma da XP compete com as assets (gestoras de investimentos) de igual para igual”, comenta Marcos Peixoto, sócio e executivo-chefe da XP Asset.

Foram cerca de R$ 5 bilhões captados em 2019, sem considerar fundos de previdência e imobiliários, segmentos em que a asset mais apostou no ano. Só não captou mais porque seus principais fundos de renda variável ficaram fechados para captação. A XP Asset até já selecionou um time para desenvolver uma nova família de fundos de renda variável, para não perder o apetite do investidor.

Empurrão do bom desempenho

Para todos eles, porém, a rentabilidade passada é sim um atrativo e tanto na hora de apertar o enter na hora de investir, apesar de todo mundo alertar que rendimento passado não é garantia de bom retorno futuro. E no quesito retorno passado, o ano de 2019 ajudou muito. A bolsa foi bem, os juros caíram e o dólar disparou, o que foi excelente para quem tinha as apostas certeiras.

Justamente pelos dois dígitos gordos durante o ano que gestoras como Safari Capital, Távola Capital e Moat Capital se deram bem. Seus principais fundos, o Safari FIC FIM, o Távola Absoluto FIM e o Moat Capital FIA renderam 42,24%, 36,20% e 43,85%, respectivamente em 2019, bem acima do Ibovespa (31,58%). Durante os primeiros seis de 2019, os dois primeiros lideravam o ranking do Valor Investe dos fundos mais rentáveis do ano.

O Absolute Vertex, com retorno de 10,16% em 2019 foi outro fundo que se destacou. “A captação ano passado foi reflexo da consolidação de um resultado de longo prazo que apresentamos. A empresa tem sete anos e mostramos desempenho em diferentes cenários. Quando chegamos a essa conjuntura de juros baixos, estávamos prontos para capturar a mudança de mercado, a busca por maior apetite de risco”, diz Tiago Sant’Anna, sócio da Absolute Investimentos.

A Absolute, que tem hoje R$ 16 bilhões sob gestão, ganhou R$ 4 bilhões e cerca de 33 mil novos cotistas em 2019.

Empurrão do bom relacionamento

Em um momento que todo mundo aconselha os investidores a migrarem para aplicações potencialmente mais rentáveis (e arriscadas) e a diversificarem sua carteira, fica mais difícil escolher onde pôr o dinheiro. Com tantas opções de fundos, alguns investidores se dedicam a pesquisar os produtos que tenham mais seu perfil; há quem procure aconselhamento de consultores ou assessores de investimentos; e há ainda as pessoas que escolhem os produtos por já terem ouvido falar dos gestores.

“O agente autônomo é quem está na ponta final, conhece os produtos e o que o investidor precisa”, comenta Paulo Bokel, executivo responsável pela área de Distribuição da ARX Investimentos. A gestora distribui seus produtos em mais de 30 plataformas.

Algumas gestoras como XP, Occam, Equitas, Moat, Legacy e Dahlia, ainda arranjam tempo para dar palestras e participar de entrevistas e lives em redes sociais. É um meio que elas encontraram para criar o que em marketing é chamado de “consciência de marca” ou “awareness”. Em outras palavras, ver e ser visto para ser lembrada na hora que o investidor vai aplicar seu dinheiro.

“Nosso objetivo é mostrar transparência e estarmos próximos dos investidores, independentemente de seu tamanho. Estar mais próximo possível dos clientes para eles entenderem os conceitos e entenderem o que estamos fazendo”, diz Isabel Ramos, sócia da Occam. A gestora participa de todos os eventos, entrevistas, podcasts, vídeos e qualquer outra oportunidade para aparecer que for convidada.

Com a quantidade e variedade de fundos antigos e novos, a indicação se tornou um dos maiores trunfos. Os sócios da gestora Vitreo sabem bem disso e têm estreitado cada vez mais o relacionamento com a casa de análise Empiricus.

É bem comum encontrar nos relatórios de recomendação de fundos da Empiricus os fundos da Vitreo e a própria gestora cria fundos de fundos com base nas indicações da Empiricus. Uma simbiose que tem dado bons resultados. Em 2019, a Vitreo captou R$ 1,2 bilhão e 68 mil cotistas. Os fundos até estão disponíveis em algumas plataformas, como Guide, Genial, Órama e PI, mas quase tudo que entra é venda direta.

Empurrão das redes sociais

Para chegar ao ponto de mirar em um fundo sem ajuda de um assessor, o investidor ou recebe uma dica e confia em quem a deu, como no caso da Empiricus-Vitreo, ou conhece o gestor. E em tempos digitais, quem sabe usar os canais para se comunicar diretamente com o investidor pode sair na frente. É o caso do gestor Henrique Bredda, da Alaska Asset Management.

Sua participação ativa no Twitter – e envolvimento em polêmicas – têm ajudado na fama. Em 2019, a casa captou R$ 2,4 bilhões e 108 mil cotistas (neste quesito, só perde para o Kinea, que conta com o apoio do Itaú). No fim de janeiro deste ano, bateu a impressionante marca de 200 mil cotistas.

Mas, se não fosse o bom rendimento de seus fundos, pode ser que sua fama se restringisse ao quadrilátero do fintwit, comunidade do mercado financeiro no Twitter. Bredda ganhou os holofotes por ter investido, acertadamente, no papel da varejista Magazine Luiza quando ninguém dava nada para elaSurfou a onda dos 1.000% de valorização nos últimos anos e ganhou autoridade para prever investimentos. Em 2019, o fundo Alaska Black Institucional FIA rendeu 31,12%.

Empurrão do produto

Os casos acima mostram que relacionamento com o investidor (e com quem toma decisão por ele) é importante, mas o produto obviamente conta muito também. Estar com o fundo certo, na hora certa ajudou a ARX Investimentos a se destacar ano passado. Dos R$ 5,3 bilhões que a gestora captou em 2019, R$ 4,7 bilhões vieram apenas de dois fundos: ARX Denali FI RF Crédito Privado e ARX Vinson FI RF Crédito Privado, ambos com estratégia de crédito privado.

“A gente tinha o produto certo, estávamos no momento certo, com o mercado muito ávido por crédito privado e muitos fundos estavam fechados. Isso nos ajudou a crescer”, diz Bokel, executivo responsável pela área de Distribuição da gestora. No segundo semestre, mesmo com a onda de ajuste de preços, quando muitos fundos perderam, a gestora segurou as pontas e perdeu pouco. Foi o momento também que os fundos de ações ganharam pulsão.

Em crédito privado, as gestoras Quasar e Iridium também chamaram a atenção, o que ajudou a captarem, juntas, R$ 3,1 bilhões e 52 mil cotistas. A forte procura por este tipo de ativo é explicada pela baixa taxa de juros, que levou o CDI ao patamar de 4,25% ao ano.

Nesse contexto, os fundos de renda fixa que tinham algum componente de risco se saíram bem. Sozinho, o fundo Kinea Absoluto FI RF LP, de renda fixa, atraiu mais de R$ 12 bilhões no ano passado, boa parte vindo de plataformas. “É um fundo com apetite de risco moderado e rentabilidade boa”, explica Verri, da Kinea.

A Icatu Vanguarda também atraiu o investidor mais conservador para seus fundos de renda fixa, mas foi seu fundo de ações focado em aplicar em empresas boas pagadoras de dividendos é que brilhou: o Icatu Vanguarda Dividendos FIA captou R$ 1,5 bilhão.

“É um produto que, dentro do universo de bolsa, é mais defensivo, tem preocupação com preservação de capital em períodos de queda. A expectativa é entregar um retorno real expressivo, de IPCA + 9% ao ano ao cliente. É uma alternativa de proteção expressiva contra as oscilações da inflação. Acreditamos que isso tenha fomentado o crescimento do fundo nos últimos anos”, comenta Bruno Horovitz, diretor de relações com investidores da Icatu Vanguarda.

Ele explica que o portfólio da gestora não é, porém, pensado para aproveitar oportunidades de mercado. “Queremos fazer produtos atemporais, que continuarão a ser importantes para o investidor em 10 anos”, ressalva Horovitz.

Perspectivas

Todas as casas ouvidas estão animadas com o mercado, apesar da concorrência ter crescido e todas estão planejando criar (ou já lançando) novos fundos. Os fundos de crédito privado e de previdência são os principais lançamentos para este ano.

 

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