[Valor Investe] O que eu aprendi sobre investimentos com o navegador Amyr Klink

Navegador compartilha aprendizados seus que também valem para quem investe ou quer investir

Por Naiara Bertão

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(Matéria publicada no site do Valor Investe em 25/02/2020)

Aos 65 anos, o navegador brasileiro Amyr Klink, o primeiro do mundo a fazer a travessia solitária em um barco a remo no Oceano Atlântico, pode dizer que está bem de vida. Há alguns anos ele e sua família venderam tudo que tinham para ter mobilidade.

O objetivo do desapego ele contou durante um mega evento da XP Investimentos em Florianópolis, para investidores e profissionais do mercado financeiro. “Não quero perder tempo e nem me preocupar com as contas e despesas de se construir e manter um barco. Quero ficar só com os benefícios de ser navegador. Prefiro ter liquidez, um bom assistente de investimento e tempo para viajar e fazer o que eu tenho vontade no pouco tempo que me resta”, disse.

Os barcos, desenhados e construídos por ele mesmo, ganharam dois destinos: os museus e as casas de novo proprietários. Agora, ele é sócio de um estaleiro em Paraty e lidera excursões turísticas à Antártica, continente onde já foi 43 vezes.

“Levamos na última viagem 60 brasileiros, pessoas importantes que já fizeram tudo o que o dinheiro poderia proporcionar de experiências legais, mas nunca tinham ido à Antártica. Pareciam crianças brincando na neve. Tenho muita alegria em poder compartilhar com outras pessoas o que eu vivi lá”, contou.

Durante uma hora, ele contou a milhares de pessoas sua trajetória com os barcos, as dificuldades financeiras pelas quais passou e traçou paralelos de suas experiências com o mundo dos investimentos. Veja o que eu aprendi com Amyr Klink:

Planejamento leva mais longe

Durante 100 dias, Amyr Klink velejou sozinho 7 mil quilômetros, partindo de Lüderitz, na Namíbia (África) até Salvador, na Bahia. As correntes marítimas certamente ajudaram. Mas foi sua preparação durante os dois anos anteriores que fizeram com que ele cumprisse a missão de atravessar o Atlântico Sul à remo e sobrevivesse.

“Quando joguei a âncora na praia dia 18 de setembro (de 1984) provei que a parte mais simples do projeto de 55 páginas que eu desenhei tinha sido remar. Eu estava feliz por ter cumprido meu plano”, disse.

Ele conta que cada dia tinha uma missão diferente, um número de quilômetros para remar, um momento para calcular a posição dos astros, um período para descansar, e por aí foi, um passo de cada vez dentro de um plano bem estruturado.

Durante dois anos, além de estudar a rota dos ventos e das correntes marítimas, estudou ciências de localização nos mares (naquela época não tinha GPS), previsão do tempo (não tinha sinal de internet) e fez curso de rádio operador profissional, caso precisasse se comunicar. Com tudo acertado, entrou no mar.

“Os primeiros 80 dias não consegui chegar na meta de remar 33,5 milhas. Mas fui a partir daí fazendo um incremento a cada dia. Eu sabia que o fato de estar mais gordo no início e do barco estar mais pesado poderia prejudicar o rendimento. À medida que avançava, ganhava também mais ritmo e cadência. E o melhor: sem um gerente de banco, sem um oficial de justiça, vizinha louca que não me deixava dormir em Paraty para me atrapalhar”, explicou.

É em ambientes imprevisíveis que exercitamos a criatividade

Quando Amyr Klink decidiu que iria construir um barco para navegar até a Antártica teve de enfrentar não só o questionamento das pessoas sobre sua sanidade, mas também dificuldades financeiras. A estimativa era de R$ 25 milhões e oito anos de construção. Nos primeiros seis anos, conta o navegador, ele e o sócio passaram por “um desespero financeiro apavorante”.

“Nunca tivemos certeza se pagaríamos a folha de funcionários no mês seguinte. Eu pensava nisso a cada uma das 3 mil viagens da minha casa até o estaleiro em Itapevi”, disse.

Nos últimos dois anos, porém, um provedor de internet decidiu patrocinar o projeto e eles conseguiram o dinheiro necessário para tocar a obra até o fim. “Durante os dois anos de bonança a gente cometeu todos os erros do projeto.” Desde a seleção de equipamentos até as decisões estratégicas importantes, foram muitos erros, erros que não tinham cometido no período mais difícil, até porque não tinham margem de manobra nenhuma para erros.

É exatamente quando temos noção da escassez e da finitude que somos eficientes. E hoje nós vivemos, como investidores, em um desses momentos de instabilidade. É exatamente nesses ambientes de imprevisibilidade que exercitamos a capacidade que nos torna eficientes”, afirmou.

Amyr Klink no evento  Expert da XP em Florianópolis, em novembro de 2019 — Foto: Divulgação XP

Amyr Klink no evento  Expert da XP em Florianópolis, em novembro de 2019 — Foto: Divulgação XP
Amyr Klink no evento Expert da XP em Florianópolis, em novembro de 2019 — Foto: Divulgação XP

Escute os outros para fazer diferente

É claro que a experiência dos outros é importante para não cometermos os mesmos erros do passado. Mas algumas vezes se fizermos exatamente o contrário do que os outros falam, pode dar mais certo ainda. Pelo menos foi isso que o navegador fez quando um amigo perguntou se ele não tinha medo de ficar preso no gelo em meio ao inverno polar.

A ideia de ficar preso um ano na Antártica não assustou. Pelo contrário, agradou. “Ficar preso um ano em um lugar que ninguém te alancasse pode ser o inferno ou o paraíso. É interessante como o olhar muda”, diz.

Ele começou, então, a construir um barco que aguentasse não só a viagem, mas ficar ancorado no meio do gelo durante um tempo, era preciso ter envergadura e autonomia. Em 1989, o veleiro Paratii viajou rumo à Antártica e sim, por sete meses ficou preso no gelo da Baía de Dorian.

“A gente vive em um país que tudo se comenta e pouco se executa. Não quero ser passageiro, quero ser condutor.”

Economize para aproveitar as oportunidades

Foi na Antártica que Amyr Klink usou seu curso de economia: gerenciar os mantimentos e se manter no planejamento durante um ano. Passado o inverno e com o gelo derretendo, foi a hora de fazer a auditoria do barco. Ele contabilizou mantimentos suficientes para mais 22 meses. Não pensou duas vezes: quando o barco se desprendeu do gelo, ele partiu da Antártica rumo ao Polo Norte e retornou ao ponto de partida, a cidade de Paraty, em outubro de 1991.

Excesso de confiança é perigoso

Na navegação e nos investimentos, ter altas expectativas e confiança de que tudo vai dar certo pode ser perigoso.

“Eu quase perdi o barco oito vezes. Quando não estava em crise, sem pressão ou cobrança, sem escassez, nos tornamos ineficientes e desperdiçamos os recursos. Eu quase explodi o barco porque liberei gás e ascendi a ignição de forma errada, depois de fazer isso muitas vezes. A experiência de quase perder em segundos o que levou a vida pra fazer é assustadora, mas é importante. Minha dica é para analistas de investimento e investidores é entenderem o que há de bom no cenário, mas também o que há de ruim e também as suas próprias fraquezas.”

Ajuda é válida

O terceiro maior desafio do velejador Amyr Klink foi contornar a Antártica, algo que ninguém havia conseguido fazer. Além de ser um desafio longo, requer um grande planejamento e capacidade de lidar com imprevistos.

Planejamento não era um problema para o navegador. Mas para improvisar ele contou com a ajuda da esposa, Marina. Isso o fez perceber a importância de ter gente de fora acompanhando e dando sugestões e conselhos.

Em um determinado ponto da viagem, Klink percebeu que estava ficando muito para trás em distância navegada planejada. O problema é que, neste caso, se ele não terminasse o roteiro em 86 dias, ele enfrentaria mal tempo e o inverno antártico. Teria, então, que desistir da viagem, ir para a Austrália, e esperar o ano seguinte.

Foi então que sua esposa, do Brasil, sugeriu que ele, ao invés de fugir das tempestades, deveria entrar nelas. A lógica era simples: após uma tempestade, há um período de 14 horas de calmaria, em que venta pouco – justamente onde ele estava errando. Na tempestade, ele pegaria ventos mais fortes e completaria o percurso no tempo.

“Foi a primeira vez que eu errei a logística e foi a Marina que me ajudou. Quem está de fora enxerga com mais clareza no que estamos errando”, afirmou. Ele conta que a esposa vendeu a casa em que moravam por um valor bem menor (desespero) e comprou um serviço profissional de meteorologia para guiar o marido. Ele conseguiu fazer os 360 graus. “Fui lá e vi que a terra não é plana, mas é redonda”, brincou.

A felicidade pode estar na liquidez

“Não quero perder tempo e nem me preocupar com as contas e despesas de se construir e manter um barco. Quero ficar só com os benefícios de ser navegador. Prefiro ter liquidez, um bom assistente de investimento e tempo para viajar e fazer o que eu tenho vontade no pouco tempo que me resta. Meus sócios são minha família e eles se tornaram cúmplices dessa ideia de pensar. O que importa no mundo hoje são as experiências”, foi assim que Amyr Klink explicou sua decisão de vender tudo para ganhar mobilidade.

Para ele, suas filhas não terão casa própria, mas poderão morar em qualquer lugar do mundoO benefício de uma vida menos materialista, segundo ele, são menos preocupações e problemas para resolver. É claro que o sonho da casa própria e do carro da moda ainda é compartilhado por muitos brasileiros, mas o que Klink sabiamente aprendeu é que cada vez mais as experiências têm se sobrepostos às coisas. Isso dá lugar a investimentos financeiros em detrimento de coisas materiais.

Veja matéria original: O que eu aprendi sobre investimentos com o navegador Amyr Klink

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