Dia da Mulher: reflita sobre apenas ESTE comportamento

A heurística da Representatividade é perigosa para sua carreira, seu crescimento pessoal e para a sociedade – e isso vale para homens e mulheres

PorMulti-talented!

Por Naiara Bertão

Eu não gosto muito do Dia da Mulher, mas queria aproveitar a ocasião para chamar a atenção para a Heurística da Representatividade.

Primeiro, por que não gosto muito de comemorar o 8 de março. Por nascer em uma família que somos hoje em três filhas, duas cachorras e meu pai, todo dia sempre foi nosso. Mais do que isso: eu cresci em uma família de mulheres muito fortes. Vi, quando criança, minha mãe ir sozinha de ônibus do interior de São Paulo à Goiânia de ônibus, num bate-volta para comprar roupa para revender. Vi minhas tias batalhando em seus trabalhos para ajudar no sustento da casa. Meus pais sempre proveram todo suporte emocional e material para que eu e minhas irmãs estudássemos para ter uma profissão.

Tive a oportunidade de desenvolver, como integrante da família Infante Bertão um senso de “eu posso ocupar o espaço que eu quiser, mas, claro, isso exige esforço pessoal”. Não que minha família não fosse machista, pelo contrário. Ainda é muito. Mas o meu círculo familiar me permitiu ir além e, mais importante que isso, me permitiu desenvolver a minha crítica pessoal sobre a sociedade. É muito mais fácil você conseguir pensar nos problemas do mundo quando tem dinheiro para comprar comida, uma cama para dormir e nenhuma conta atrasada!

Meu contexto me permitiu e o Jornalismo me fez desenvolver um olhar holístico sobre o mundo. E nele, eu vi algo que não gostei: o quanto nós usamos um dos comportamentos psicológicos mais nocivos, na minha opinião: a HEURÍSTICA DA REPRESENTATIVIDADE.

Neste Dia da Mulher, só quero que você se reflita sobre como a heurística da representatividade está presente eu sua vida. Não gosto muito de comemorar o Dia da Mulher porque eu genuinamente acredito que meu dia é todo dia. Mas, quero aproveitar o momento que estamos olhando para elas, e para nós mesmas, para pedir: CUIDADO com essa heurística. Por quê? Vou explicar:

Primeiro, uma heurística é um processo cognitivo inconsciente, algo que fazemos sem pensar. A heurística da representatividade, segundo estudiosos de Psicologia e Economia Comportamental, é a nossa arte de usar os estereótipos para analisar o presente. Podemos dizer que é nosso comportamento mais preconceituoso.

Para entender, um exemplo: imagine que seu(sua) chefe te peça para receber três pessoas novas no escritório e uma delas irá ocupar um cargo na diretoria executiva, outra será profissional de limpeza e a terceira, da área de marketing. Mas, ninguém te contou como elas são e nem qual a função atribuída a cada uma.

Quando a recepção te fala que elas chegaram, você vê, à medida que se aproxima, um homem branco bem vestido, uma mulher branca de olhos claros de óculos e salto e uma mulher negra de estatura mais baixa e com alguns quilos a mais que os demais, com um vestido e um batom de cor forte na boca. Quem você imagina que ocupará qual função?

Você pode até não falar, mas, provavelmente você vai pensar que o homem branco será o novo vice-presidente, a mulher branca de olhos claros a pessoa do marketing e a moça baixinha, da limpeza. Não é? Temos essa ‘mania’ de associar rapidamente uma coisa a outra, sem nem nos questionar se não estamos tendo como base esterótipos. É assim que o viés da Representatividade age.

Nosso contexto (leia-se: nossa criação, propagandas, livros, ensino na escola, amigos, falta de representatividade nas empresas etc.) sempre nos levou a relacionar um homem branco ao poder, à inteligente e à segurança. Sempre nos fez pensar que, por isso, provavelmente será o novo vice-presidente. Além disso, em nossas cabeças, o marketing sempre foi uma área dominada por mulheres e, em especial, brancas, estudiosas e inteligente, o que nos levaria a crer que a mulher branca de olhos claros e óculos seria a pessoa do marketing. Por fim, faxinas são geralmente feitas por mulheres negras e que fogem do padrão ocidental de beleza, mas investem em maquiagem para se sentir bem, não é? O que nos levaria a acreditar que a moça baixinha seria a nova assistente da faxina.

Gente, nem preciso dizer que, neste exemplo tosco há inúmeros erros cognitivos, muitos inconscientes, fruto do que sempre nos disseram e sempre vimos também – a falta de diversidade nas empresas e nas escolas nos levam a erros comuns. Inúmeros filmes, séries e stands ups comedys tratam dessa nossa mania de classificar as pessoas em estereótipos.

A palavra “provável” quando fazer aferições é a chave da Heurística da Representatividade. Ela funciona como um atalho mental em que inferimos probabilidades de alguém ter uma determinada profissão, de um evento acontecer e de que algo pertence a uma determinada categoria. Se você conhecer uma pessoa super extrovertida, que gosta de dar palestras, de participar dos happy hours, de organizar jantares com os colegas de trabalho, e ele te contar que é programador da área de Tecnologia da Informação, na hora você vai pensar (ou falar): “Nossa, mas você é muito comunicativo e sociável para ser de TI”.

Nunca pesquisei com atenção os efeitos e contras daqueles processos seletivos às cegas, mas acho a ideia boa. Nas primeiras etapas da seleção, nem o sexo, nem nome, nem idade (em alguns casos, também não revelam a faculdade onde estudaram) dos candidatos são relevados. A ideia é tentar minimizar os vieses inconscientes. É um início de mudança.

Riscos

Pessoal, quando eu conheci pela primeira vez essa heurística, estudada e descrita pelos pesquisadores duas mentes brilhantes da Economia e Psicologia Comportamental, Daniel Kahneman e Amos Tversky nos anos 1970, eu entendi que essa é, para mim, um dos comportamentos psicológicos mais perigosos.

A Representatividade reforça nossas crenças e é nocivo em dois sentidos.

Primeiro, porque pode nos levar a interpretações erradas. Um exemplo que foi muito estudado por alunos desses campos de ciências comportamentais: a relação da Heurística da Representatividade com o assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes de 27 anos, morto após ter sido confundido com um terrorista pelas autoridades britânicas pela maneira como estava vestido e sua aparência.

Além disso, ela limita nossa mente. Por que quando falamos a palavra “investidor” pensamos em um homem e não uma mulher? Por que ainda associamos a mulher a algo frágil? Por que ainda achamos que cozinha é lugar de mulher e escritório é um ambiente masculino? Por que homens preferem mentorar homens? Por que mulher não tem que cuidar das próprias finanças? Por que é tão difícil, conscientemente ou inconscientemente, aceitar que mulheres não só podem, como devem ocupar os cargos mais altos de empresas, da política, da ciência, da tecnologia, das finanças e da engenharia?

Uma pesquisa recente do The Reykjavik Index for Leadership, elaborada peça consultoria Kantar e divulgada pelo Valor Econômico, mostra que mais da metade dos brasileiros se sentiria desconfortável em ter uma mulher à frente do governo e 59% se sentiriam confortáveis com CEOs mulheres em uma grande organização.

Tapa na cara

O mais assustador foi outro dado para mim: Mais da metade das mulheres entrevistadas (52%) se sentem muito confortáveis com uma mulher presidente, enquanto só 34% dos homens responderam o mesmo. Shame on you (Deveria se envergonhar) – para homens e mulheres.

Eu fiquei por dias me perguntando por que 48% das mulheres disseram não se sentir confortáveis com outras mulheres na liderança da companhia? Me veio à cabeça sempre a fala de alguma colega de trabalho dizendo “eu prefiro trabalhar com homem, são mais organizados e não ficam de mimimimi”. Esse, pessoal, é claramente um viés de Representatividade. Eu sempre fui muito organizada e sou totalmente contra “mimimimi” no trabalho – e, o mais curioso, sou mulher, não homem. E todas as minhas colegas que disseram isso também são do sexo feminino. E por que raios ficamos repetindo isso?! Merecemos um tapa na cara ao generalizar algo tão mais complexo. E outro ainda por, muitas vezes, usarmos essas generalizações, estereótipos e pré-julgamentos da Representatividade para excluir ou escolher pessoas de processos seletivos.

Se tem algo que é tão século XX, é a GENERALIZAÇÃO. E a gente só vai conseguir sair dela se pararmos – o tempo todo mesmo – a nos questionar porque temos tal e tal pensamento, porque julgamos e tal e tal maneira uma pessoa. É exaustivo porque é lutar contra algo intrínseco, mas é algo extremamente importante para, de fato, termos avanços na diversidade, representatividade e diminuição de gaps.

E, principalmente, meninas e mulheres, questione o que você acha (inconsciente) sobre você. Quais espaços vocês ainda acham que não podem ocupar sem nem terem parado para refletir sobre o porquê? Se desafie a desafiar esses pensamentos!!!!!!!!

Neste 8 de Março de 2020, só desejo uma coisa: cuidado com a Heurística da Representatividade!

Uma indicação de filme, especialmente para os homens: “Eu Não Sou Um Homem Fácil”

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