[Blog Naiara com Elas] Quatro mentiras e meias-verdades que te contam sobre investimentos

No Dia da Mentira, veja em que contos geralmente caímos ou até repetimos sobre investimentos

Por Naiara Bertão (01/04/2020)

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Dia da Mentira é uma incrível oportunidade para revermos o que sempre lemos e repetimos. Mas que nem sempre sabemos se é verdade ou não. No mundo dos investimentos há falácias ou meias-verdades que são muito propagadas. Minha ideia com este post é desmistificar alguns lugares-comuns que circulam por aí.

1) Botar os ovos na mesma cesta

Sabe aquele velho ditado “Nunca coloque os ovos em uma cesta só”? Muito usado em lições de moral sobre diversificação, ele não passa de uma meia-verdade. Você pode até colocar os ovos em recipientes diferentes, mas ainda assim eles continuarão a ser de um mesmo produto: ovos.

Ouço e leio muito sobre a tal da diversificação de investimentos e a maioria das informações que passam é de que temos que colocar em fundos diferentes, empresas diferentes, ativos diferentes. Isso é uma meia-verdade. O lado verdadeiro é que é muito melhor sim você ter ativos com riscos diferentes.

Por exemplo: ao invés de alocar seu dinheiro só em ações da Petrobras, ter na carteira um fundo de ações que investe em diferentes empresas, Petrobras, Vale, Magazine Luiza, Itaú, Raia Drogasil, Movida e assim por diante. Em última instância, está diversificando o risco – se uma empresa tiver problemas, as outras podem compensar e manter o rendimento positivo. Se uma, mais ligada ao varejo, sofrer mais durante uma crise econômica, a outra, produtora e exportadora de commodity, pode se sair melhor.

E, se além desse fundo de ações você tiver uma parte do patrimônio em outra classe de ativo, como títulos públicos emitidos pelo Tesouro, de renda fixa e mais conservadores? Melhor ainda porque está diversificando o risco (enquanto as ações têm riscos ligados à saúde das empresas, os títulos públicos estão relacionados ao risco de o governo não pagar a dívida).

Mas, o lado falso é que, mesmo investindo em um fundo de ações diversificado e em títulos do Tesouro, você está depositando todos os produtos em uma só região: o Brasil. Petrobras e Vale podem até ser ações muito ligadas ao mercado internacional, mas o seu ativo é brasileiro e em reais.

O que ouvi de gestores de fundos de investimento que se deram melhor nas primeiras semanas da crise é que eles fizeram uma proteção da carteira apostando contrário ao Brasil. Se o Brasil for mal, quem vai bem? Se o real se desvalorizar, quais moedas vão se valorizar? Se o risco soberano de calote do país piorar, de quem pode estar melhor ou menos pior? Soa antipatriotismo, mas é a lógica da diversificação geográfica e em termos de moeda.

Quem faz gestão de patrimônio dos ricos – e é bem remunerado para isso, claro – presta muito atenção nessa questão da diversificação como forma de proteção da carteira. E mais importante ainda: ter uma clara noção de quais riscos você está correndo e de onde eles vêm.

Nesta semana, o fundador da Oaktree Capital, empresa de investimento em ativos de risco, Howard Marks e um “guru” para o empresário Warren Buffett disse a seguinte frase em uma live organizada pela XP Investimentos:

“O segredo para um investimento de longo prazo bem-sucedido é ser consciente dos riscos que está tomando e tomá-los com sabedoria.”

2) Você tem que tomar mais risco se quiser ganhar mais

Explicada a meia-verdade da diversificação, aqui vou falar sobre uma segunda clássica do mundo dos negócios: a necessidade de tomar mais risco. Primeiro porque, para o pequeno investidor (eu, inclusive) não há necessidade nenhuma de tomar muito mais risco. A palavra necessidade está errada aí.

Tomar mais ou menos risco é uma consequência de duas circunstâncias: 1) do investidor que precisa bater uma meta de retorno mínima, como os fundos de pensão, por exemplo; 2) e do investidor que genuinamente se sente confortável em colocar uma parte do patrimônio em ativos mais arriscados e correr o real risco de perder uma boa parte ou até tudo.

Para muita gente – arrisco dizer que bem mais do que a metade dos brasileiros que investem, não é confortável ver a bolsa caindo 15% em um único dia e ver seu fundo de investimento perder 70% em duas semanas.

Em outra transmissão ao vivo, desta vez comandada pelo banco BTG Pactual, o Guilherme Aché, um dos sócios-fundadores da gestora focada em ações Squadra Investimentos deu uma sugestão que eu acho bem válida: “soul searching”, foi o termo que ele usou e, traduzida para o bom português quer dizer que você deve olhar no espelho e se perguntar se está dormindo bem nesse caos todo que o mercado financeiro está passando ou não.

“É importante evitar o autoengano. Se o investidor não estiver dormindo por dois a três dias, é porque está mal alocado. Está tomando um risco maior do que ele pode suportar. E a chance de vender no pior momento possível, pelo medo, é alta”, diz Aché.

Na mesma conversa, o presidente do BTG, Roberto Sallouti, lembrou ainda sobre a importância de não esquecermos dessa na análise interna. “Aproveite o teste do sono para, na euforia, não esquecer dele. Não se esqueça de como está se sentindo agora. Esse é seu perfil de risco para o longo prazo”, afirma.

Nenhum de nós três – Aché, Sallouti ou eu – somos psicólogos, mas uma coisa é certa: a nossa qualidade do sono é um bom indicativo sim se estamos confortáveis com nossa vida financeira. E não é porque está “todo mundo” falando que você deve correr mais riscos que você deve mesmo. A decisão de quanto colocar (ou se colocar) em renda variável é extremamente pessoal. Isso me dá uma deixa para meu terceiro ponto.

3) É uma oportunidade única e imperdível

Não tem sensação pior na vida do que a gente comprar algo hoje que alguém nos disse que é a última chance de pagar aquele preço, ou que está acabando o estoque, e, uma semana ou um mês depois, a gente ver aquele mesmo item ainda disponível ou, pior, a um preço ainda mais barato.

Quem nunca caiu nesse conto, não é mesmo? E o que vale para uma blusinha, um sapato, um celular, também vale para investimentos. Com a proliferação das plataformas de investimentos e corretoras se reinventando para disputar o investidor pessoa física, as estratégias de marketing também tiveram um upgrade e por isso exige mais atenção de todos nós.

Por que o conto da oportunidade única e imperdível é uma falácia? Há sim situações em que fundos de investimentos fechados há anos reabram para novas – e rápidas – captações, mas antes de sair apertando o play, é preciso entender o porquê.

Qual a motivação por trás do fundo? Para que usará esse novo dinheiro? Qual o desempenho desse fundo nos últimos anos ou 12 meses (poucos meses é um horizonte muito curto quando se fala de retorno de investimento)? Qual a história do gestor? E, o mais importante de tudo: você deve e pode aplicar esse dinheiro neste fundo? Se sente confortável em tomar aquele tipo de risco (já falamos disso!)?

O mesmo vale para qualquer oferta de investimento: por que eu? Por que estão ME dando essa oportunidade? Qual a motivação por trás do “vendedor”? Será que eu confio mesmo nesta pessoa? De novo, eu posso arriscar com esse dinheiro ou ele vai me fazer falta? Não faltam exemplos de fraudes e pirâmides financeiras no Brasil e muitas pessoas caem nelas porque não avaliam de verdade o que está por trás.

Aqui vai um segredo de quem acompanha mercado financeiro há 10 anos: dificilmente você conseguirá aplicar em uma oportunidade imperdível antes dos profissionais do mercado, que ficam 24 horas ligados no que está acontecendo aqui e lá fora, com três terminais de notícias em tempo real e analisando todos os indicadores econômicos possíveis, além, claro, de terem bons relacionamentos com empresas. Nem os ‘day traders’, aqueles investidores que ficam todo dia varrendo as oportunidades de ganhos rápidos conseguem.

Uma dupla de pesquisadores da FGV (Fernando Chague e Bruno Giovannetti) realizou um estudo que mostra só 8% de uma amostra de 19.696 pessoas conseguiu se manter na profissão por mais de 300 pregões e, entre os que persistiram, 91% tiveram prejuízo (dados de 2012 a 2017). Moral da história? Mesmo quem é profissional e trabalha com isso tem suas dificuldades, não somos nós, reles investidores mortais que vamos conseguir petróleo no quintal de casa.

4)Não tenho dinheiro suficiente para investir

Por fim, e não menos importante, a última falácia e que, mesmo com todos os programas de educação financeira, ainda é repetida por aí: eu não tenho dinheiro suficiente para investir.

Na psicologia comportamental há um viés cognitivo muito comum chamado viés da confirmação. Ele nada mais é do que uma tendência de buscarmos, interpretarmos e vermos informações e notícias que confirmem algo que já conhecemos ou acreditamos.

Não é porque você leu que um fundo de investimento tem uma aplicação mínima de R$ 5 mil que não existem outras opções com o mínimo menor – o Itaú, por exemplo, lançou um fundo cujo mínimo é de R$ 1 e que replica a carteira recomendada de ativos do banco, um investimento mais arrojado. Os bancos digitais Nubank, Inter e C6 Bank também já oferecerem rentabilidade próxima a 100% ao CDI para qualquer valor na conta corrente.

O próprio Tesouro Direto tem títulos com mínimo de R$ 35 e, na bolsa, é possível comprar ações no esquema fracionado por menos de R$ 100 (dependerá, claro, do valor do papel escolhido).

E, lembram do número 2 deste post? Você não precisa sair tomando muito risco. Investimentos não é tudo ou nada. Ou você tem muito para sair diversificando ou é melhor deixar na poupança ou no colchão mesmo? Pelo contrário.

A poupança e principalmente o seu colchão estão perdendo para a inflação, ou seja, além de não estar ganhando dinheiro, você está perdendo. Há ativos bem conservadores, ideais para reservas de emergência, como títulos do Tesouro Selic, fundos de renda fixa conservadores, ou ainda ativos com risco bancário, mas que são protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a exemplo dos CDBs, LCIs e LCAs, que fazem um bom trabalho para proteger seu dinheiro da corrosão da inflação.

O ponto principal aqui é se questionar se o que você pensa ou o que te falam é tão verdade assim ou não.

Sugestão de leitura

Este é um livro que eu ainda não li, mas está na minha lista de desejos. Foi muito bem recomendado por uma amiga:

Factfulness: O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos

Livro Factfulness  — Foto: AmazonLivro Factfulness  — Foto: Amazon

Livro Factfulness — Foto: Amazon

 

Segundo a descrição na Amazon:

Um livro que destrói mitos apresentando fatos e estatísticas de forma clara e divertida. Altamente recomendado por Bill Gates. Que porcentagem da população mundial vive na pobreza? Qual é o número de crianças vacinadas no mundo hoje? Quantas meninas terminam a escola?

Quando confrontadas com perguntas simples a respeito das tendências globais, as pessoas sistematicamente dão respostas incorretas. Isso acontece quando nos preocupamos com tudo o tempo todo em vez de compreendermos as coisas como realmente são, e perdemos a capacidade de nos concentrar nas verdadeiras ameaças.

Tomando emprestado o conceito de mindfulness (o ato de ter atenção plena nas experiências, atividades e sensações do presente), os autores propõem a ideia de factfulness: o hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos. Inspirador, bem-humorado e cheio de histórias emocionantes, Factfulness é um livro urgente e essencial que mudará a maneira como você vê o mundo e o capacitará a responder melhor às crises e oportunidades do futuro.

Fico uma dica aí para a quarentena/isolamento!

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

 

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