[Blog Naiara com Elas] Coronavírus: na crise, mercado financeiro perdeu seu bem mais precioso

A falta de previsibilidade deixa todo mundo perdido e sem saber a qual altura estamos do fundo do poço, mas é aí que mora o perigo maior, o ‘pensar demais’

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Por Naiara Bertão (24/03/2020)

Segundo dia de “home office “e eis que a água do meu apartamento acaba. Eu, desesperada, ligo para minha irmã, que ainda está trabalhando na rua, e peço para ela comprar galões (sim, no plural) de água porque não sabia que horas iria voltar – e se iria voltar o abastecimento. Ela me questiona se eu já liguei na portaria para saber o que aconteceu. Aí percebo que me desesperei sem nem saber a gravidade. O porteiro, calmo, disse minutos depois que o pessoal da obra do 10º andar (eu moro no 8º) estourou um cano, mas que deveria consertar na próxima hora.

O desespero que eu vivi pela água do meu prédio é o mesmo que muitas pessoas estão sentindo nesse momento em suas casas. A falta de perspectiva, de informação, de conforto é um prato cheio para o que a psicologia chama de “overthinking”, ou pensar (thinking) demais (over). Assim como eu rapidamente imaginei que poderia ficar dias sem água (e fiquei uma hora, na realidade), é comum em momentos de alta incerteza que nossa mente divague muito. E aí mora o perigo – não só para a minha e a sua sanidade mental, mas para os investimentos.

No coronacrise, um dos bens mais preciosos do ser humano e, seguramente, o mais importante para o mercado financeiro, está em xeque: a previsibilidade. No livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, Yuval Noah Harari comenta que o cérebro maior do ser humano permitiu que ele armazenasse uma capacidade impressionante de informações. Com isso, ao longo da história, desenvolveu habilidades impressionantes de comunicação e imaginação. A capacidade de pensar sobre o passado também nos leva a, por meio de nossas experiências, pensar no futuro, no que pode acontecer.

O que nos diferencia dos animais – imaginar, prever e agir para prevenir problemas futuros – também pode nos levar ao “pensar demais” e ao pânico.

O vencedor do Nobel de Economia Daniel Kahneman no seu livro “Rápido e Devagar”, um clássico da Economia Comportamental, já deixou claro que, a maior parte do nosso tempo nós usamos o nosso sistema 1 do cérebro. Ou seja, aquela que garante a nossa sobrevivência porque é mais rápida, intuitiva e nos faz correr ou lutar diante do perigo. Mas, se o sistema 1 predomina, o sistema 2, mais racional, é deixado de lado.

Quando eu vi que a água da torneira acabou e liguei rapidamente para a minha irmã, eu não pensei muito (em termos racionais). Rapidamente meu cérebro já associou à escassez e as consequências disso, e já pensou prontamente em uma ação: pedir para minha irmã comprar litros de água para minha sobrevivência. Ligar para o porteiro foi uma decisão racional e me trouxe uma espécie de “choque de realidade”. Temos água no prédio, foi uma interrupção temporária, não há perigo de escassez.

E o que tudo isso tem a ver com o mercado financeiro? Simples: o tal “mercado” não é nada mais do que uma construção imaginária. Na real, quem de fato é o mercado somos nós seres humanos. Os operadores de bolsa, os investidores, os economistas, os consultores e assessores de investimentos, as pessoas que trabalham nos bancos centrais, nos governos, os funcionários e sócios das empresas.

O mercado financeiro nada mais é do que um amontoado de pessoas conectadas em tempo real por redes de internet e sistemas de transmissão de dados. E, como seres humanos, temos momentos de irracionalidade.

No meu post do blog sobre pânico, eu já comentei de dois comportamentos humanos que levam ao pânico na bolsa de valores: o efeito manada e a heurística da disponibilidade.

efeito manada é o ato de ir para onde a manada está indo, sem nem ao menos saber por que. É motivado pelo medo de ir contra a maré e errar sozinho(a). Já a heurística de disponibilidade, é a tendência de julgar a frequência ou a probabilidade de um evento pela facilidade com que exemplos ocorrem em suas mentes. Para saber mais, leia aqui.

Na reportagem que eu, Isabel Filgueiras e Julia Lewgoy fizemos sobre como nossas emoções ajudam a explicar as perdas, a professora de Economia Comportamental da ESPM Cristina Helena Pinto de Mello, disse algo que resume bem:

Estamos enfrentando uma situação muito atípica. Temos pouca informação e isso leva as pessoas a tomarem decisões mais emocionais. Entramos em um terreno muito mais irracional do que racional”, explica a professora.

Cristina falou palavras-chaves para entender porque estamos reagindo exageradamente, não apenas no mercado financeiro, mas em outras searas da nossa vida: “pouca informação”.

A falta de previsibilidade nos leva ao “pensar demais”, ao pânico e à irracionalidade. E daí, é um passo até fazermos besteiras.

A besteira no mundo dos investimentos é ver que tudo está caindo, temer que estamos ainda longe do fundo do poço, vender tudo, realizar prejuízo pelo medo, e aí se arrepender depois. Quem tem dinheiro para emergência e não precisa resgatar, não resgate. Este não é o melhor momento.

Se não conseguimos identificar se estamos sendo racionais ou irracionais, a melhor coisa a fazer é paralisar – o tradicional PRP, “Pare, Respire e Pense antes de agir”.

Luz no fim do túnel

A previsibilidade é um dos bens mais preciosos dos seres humanos para imaginarmos, criarmos cenários e planejarmos nosso futuro. E isso, em economia, se traduz no sentimento de confiança.

Se estamos confiantes que os próximos meses e anos serão promissores, teremos emprego, teremos casa para morar e comida na mesa, ficamos mais confiantes para dar passos maiores. Neste momento, muitos casamentos são organizados, financiamento da casa própria, decisões de estudar fora do país, sair da casa dos pais, e por aí vai.

Os economistas medem o nosso nível de confiança para entender se as pessoas estão, por exemplo, dispostas a consumir mais. Se elas estiverem, isso pode ser um motivador para as empresas investirem em inovação, ampliação das fábricas e contratação de novos trabalhadores. O comércio, por sua vez, também espera mais gente entrando nas lojas e comendo em restaurantes e investem também em melhorias. E por aí vai…

Em dezembro do ano passado, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), medido pela Fundação Getulio Vargas, avançou 2,7 pontos, para 91,6 pontos, o maior nível desde fevereiro de 2019 (96,1 pontos). O mesmo indicador, porém, recuou 5,1 pontos em março na comparação com fevereiro e ficou em 91,0 pontos, o menor patamar desde outubro de 2018.

A explicação?

“O resultado de março sugere haver desapontamento dos consumidores com o ritmo de recuperação da economia, após projetarem melhoras para a economia e para as finanças familiares nos meses anteriores. Além da velocidade da recuperação estar aquém do esperado, a demora no avanço das reformas tem contribuído para o aumento da incerteza econômica”, afirma Viviane Seda Bittencourt, Coordenadora da Sondagem do Consumidor, no relatório do mês.

A expectativa (ou projeção) com relação à manutenção do emprego e do crescimento econômico piorou. Portanto, a incerteza aumentou, e ela é um prato cheio para aquilo que já falamos: o medo e à irracionalidade.

Para o mercado financeiro, a previsibilidade dá subsídio para a tomada de decisão. É seu bem mais precioso, já que, com base nela, projeta o que pode acontecer e se posiciona para tirar proveito disso. As projeções são o carboidrato das pessoas que trabalham no “mercado”.

Se passamos por algo sem precedentes e que não dá base para fazer projeções, as decisões podem ser tomadas sem lógica, sem racionalidade. E, como Daniel Kahneman já dizia, são nesses momentos de irracionalidade que podemos fazer besteiras.

Chutamos, não projetamos. E o risco de errar no chute é bem maior, sempre.

Para o mercado financeiro, a lição é a mesma do que para todos os seres humanos nesses momentos atípicos: “Pare, Respire e Pense antes de agir” (PRP)!

Boa quarentena para todos nós!

“A imaginação é a metade da doença; a tranquilidade, a metade do remédio; e a paciência é o primeiro passo para a cura”, disse o médico persa que viveu em 1037, Ibne Sina (ou Avicena, como passaram a chamá-lo)

Sugestões de leitura

E, se quiser aproveitar o período de isolamento para ampliar conhecimento, sugiro esses dois livros:

“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari

Livro "Sapiens - Uma breve história da humanidade" — Foto: AmazonLivro "Sapiens - Uma breve história da humanidade" — Foto: Amazon

Livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade” — Foto: Amazon

“Rápido e Devagar – Duas formas de pensar”, de Daniel Kahneman

Livro "Rápido e devagar: duas formas de pensar" — Foto: AmazonLivro "Rápido e devagar: duas formas de pensar" — Foto: Amazon

Livro “Rápido e devagar: duas formas de pensar” — Foto: Amazon

 

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

 

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