Blog Naiara com Elas – O que aprendi em 20 minutos com a Malala

O Valor Investe foi convidado para participar de um bate-papo especial com a ativista paquistanesa neste sábado. Leia a entrevista com Malala na íntegra

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 18/07/2020

Certa vez perguntaram a uma garota síria refugiada no Líbano, depois que seu país foi destruído pela guerra, qual era o sonho delaE ela prontamente respondeu que era se tornar uma arquiteta para reconstruir seu país de origem quando voltasse.

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Essa história foi contada neste sábado pela ativista paquistanesa Malala Yousafzai, durante evento organizado pela XP, a Expert. A pessoa que perguntou à garota qual era seu sonho foi a própria Malala, e ela usou isso como exemplo para dizer como histórias desse tipo a impressionam e a inspiram a continuar lutando pela educação de todas as meninas do planeta.

Para quem não sabe, Malala enfrentou a morte de perto em 2012, quando tinha apenas 15 anos. Incentivada pelo pai a falar desde cedo o que achava, ela se tornou uma jovem ativista pelo direito das meninas paquistanesas de frequentarem a escola, o mais poderoso meio de se tornar uma pessoa melhor. Malala desafiou o regime autoritário e repressor da época e levou um tiro por causa disso, numa clara tentativa de assassinato. Ela não apenas sobreviveu como se tornou uma das principais vozes no mundo para falar sobre educação feminina. Foi a pessoa mais jovem a ganhar um prêmio Nobel – o da Paz –, quando tinha apenas 17 anos, em 2014.

Para nós, dar uma opinião, se expor ou, simplesmente, falar é algo tão corriqueiro que às vezes esquecemos de pensar que esse mundão é muito grande, e que nem todos vivem como a gente. Não imaginamos que há pessoas – especialmente mulheres – que são impedidas de ouvir a própria voz em alto e bom som. E isso não acontece apenas em regiões assoladas pela guerra ou que tenham uma tradição cultural e religiosa opressora. No Brasil, os casos de violência contra mulher escancaram o machismo enraizado. O casamento infantil, a falta de planejamento familiar, o impedimento de meninas frequentarem a escola ainda acontecem aqui sim.

Leia também: Malala alerta para congelamento de gastos com educação no Brasil

Tive a honra de participar, como representante do Valor Investe e como uma defensora da igualdade de gênero no Brasil, de um bate-papo super interessante com Malala, coordenado pela analista de ações da XP Betina Roxo.

Assistindo à entrevista ao vivo e logo após a palestra de Malala na Expert, 28 mulheres poderosas no tema estavam de olhos vidrados e, em alguns casos, de olhos marejados, ouvindo a mulher de 23 anos (ela acabou de fazer aniversário no dia 12 de julho), recém-formada em Oxford, na Inglaterra, contar sobre seus planos, seus sonhos e seu humanismo.

Grupo de mulheres que assistiu à entrevista com Malala — Foto: Naiara Bertão/Zoom

Grupo de mulheres que assistiu à entrevista com Malala — Foto: Naiara Bertão/Zoom

Ela, assim como todas nós, tem medo também, se sente desestimulada e frustrada porque nenhuma mudança de paradigma é fácil, ainda mais em nível global. Mas ela mostra uma sabedoria e resiliência invejável.

Destaco: “Eu não estava com medo das pessoas, nem do Talibã, dos terroristas, eu estava com medo é de um futuro em que eu teria que viver com medo para o resto da vida. E eu não queria viver nele e queria mudar isso. E percebi que a mudança só é possível com ação, não vai ocorrer por si mesma”.

Leia agora a entrevista do petit comité na íntegra (porque, assim como ela, acredito no poder transformacional da educação e da informação de qualidade):

Quais metas você busca hoje com seu trabalho no Malala Fund, sua fundação de apoio à educação de meninas?

A Malala Fund começou há seis, sete anos e meu principal objetivo era que todas as meninas estivessem na escola. A meta continua sendo essa, mas quando somos uma garota de 16 anos queremos mudar o mundo rápido. Eu queria muito que fosse simples assim, mas aprendi que o sistema é bem mais complicado, exige paciência e a Malala Fund vêm focando em aumentar o financiamento para educação no mundo. Há uma grande lacuna no investimento da educação pelos governos. Os países precisam aumentar seus gastos com educação em relação ao PIB, especialmente para atender os marginalizados, especialmente meninas, além de focar na educação secundaria. É nisso que a Malala Foundation foca no só no nível local, mas globalmente. É muito legal ver o poder e o alcance que as parcerias podem ter. É assim que trabalhos em países como PaquistãoÍndiaAfeganistãoNigéria e Brasil, onde há pessoas incríveis que identificam os problemas, sabem as possíveis soluções e precisam só de suporte financeiro para conseguir mudar a forma de trabalhar e pressionar os líderes para mudar as políticas públicas.

Quais suas referências hoje para ter novas ideias e continuar aprendendo?

Há tantas maneiras de aprendermos… Gosto de ler livros e não apenas por quem é o autor, mas o que ele tem dentro dele. Gosto, por exemplo, de livros sobre eventos históricos e agora estou lendo sobre jovens ativistas ao redor do mundo, desde Greta Thunberg [ativista ambiental sueca de 17 anos] a pessoas que estão lutando contra a violência nos EUA. É incrível ver jovens querendo viver em um mundo mais justo e como eles são mais sensíveis e conscientes a essas questões. Eles não ficam em silêncio, eles querem ver uma mudança no mundo. E isso é o mais interessante sobre jovens: eles acreditam em um mundo melhor e querem isso agora. Têm muitas coisas que os líderes fizeram de errado e que precisam ser consertadas para criar um mundo melhor para as crianças.

O que você diria para as pessoas que tem acesso à educação, mas não a valorizam?

Mesmo em minha família eu tenho às vezes que brigar com meus irmãos para eles acordarem cedo e fazerem o dever de casa. Vemos em muitas escolas alunos que não queriam estar lá, enquanto em outros lugares muitos outros sonham com um papel e uma caneta e com poder aprender, porque entendem quão valiosa a educação pode ser. Mesmo terroristas identificaram o poder da educação. Sabem que se as meninas vão para a escola, elas ganham poder e podem desafiar a ordem social vigente. Educação é emancipação e, como qualquer recurso, se aproveitarmos ao máximo seu potencial, nos empoderarmos com ele, aprendemos e devolvemos algo à sociedade.

O que te faz sorrir?

Eu adoro comédia na televisão, passar tempo com família e amigos, mas uma coisa que me deixa feliz por dentro é quando vejo garotas tendo seu sonho e esperança sobre seu futuro. Nunca posso esquecer as garotas que eu conheci ao redor do mundo, da Nigéria, do Líbano, do Brasil. A esperança que elas têm nos olhos é tão puramente inspiradora…, (sorrio) quando ouço histórias que, apesar das dificuldades que elas enfrentam, como pobreza, elas não desistem de atingir seus objetivos de educação.

Qual a sua maior batalha pessoal hoje e qual você acha que será a maior batalha para a nova geração de mulheres?

Minha graduação na universidade em um momento de pandemia não foi fácil. Lembro de ter vindo para casa para as férias. Achava que eu iria passar três semanas e estou aqui há três meses. Eu fiz meus exames em casa, eu me graduei em casa, estou ainda em casa e não sei o que vai acontecer ainda. Um dos principais desafios é a incerteza que estamos enfrentando, sobre o que virá em seguida. E como estamos observando o quão desigual nossa sociedade é, em termos de raça, de gênero… E a discriminação está lá fora, e há muito o que fazer.

Há um monte de coisas que precisamos que seja feito. E você começa a se pegar em um debate interno sobre no que gostaria de focar mais: em clima, no meio ambiente, assuntos perigosos, em como ajudar os mais marginalizados da nossa comunidade, focar em educação e por aí vai. Tudo isso precisa ser endereçado. É difícil escolher quanto tempo destinar a qual questão. Está sendo um momento para pensar sobre isso, para mim.

Mas meu objetivo sempre foi educação para meninas e eu vou continuar neste desafio, mas percebi o quanto isto está relacionado a todos esses outros problemas que a sociedade precisa enfrentar. Mudança climática, meio ambiente e igualdade, por exemplo. Quando educamos meninas nós ensinamos a elas que elas têm direitos iguais, que nós permitimos que elas podem estar em qualquer posição que elas quiserem e que elas podem tomar decisões conscientemente por si só. Educação é um grande contribuidor para mudarmos essas outras questões também.

A pandemia atrapalhou a educação de muitas crianças. O que você acha que é possível fazer para minimizar isso?

Eu acredito que agora é importante que as organizações e governos que cuidam da educação se tornem mais flexíveis para desenvolver programas que deem suporte para a educação das crianças. Na Malala Fund, nós estamos sendo flexíveis com os programas que estamos apoiando. São mais de 60 ativistas e nós permitimos que eles se adaptem. As despesas mudaram, eles precisam de tecnologia, flexibilidade e suporte é importante para que eles desenvolvam ferramentas para continuar seu trabalho de passar informação, como na sala de aula. Pode ser uma oportunidade de fazer pelo rádio, pela TV, apps. Tivemos que nos tornar mais flexíveis e tomar medidas rápidas porque perder um dia de educação pode ter um grande impacto. Isso afeta não apenas o aprendizado, mas nossa economia e a sociedade. Por causa da pandemia, bilhões de crianças estão presas em casa e precisamos lembrar o quão importante é não faltarmos com a educação dessas crianças. Vemos o claro valor da educação.

Você é a mais jovem vencedora do Nobel da Paz e acabou de se formar em Oxford. Quais seus planos para continuar na luta pela educação?

Continuarei com o Malala Fund. Temos diversas organizações que nós apoiamos. Estamos provendo suporte a elas durante a pandemia, mas também precisamos focar no longo prazo, garantir que o currículo das escolas, da educação, seja mais sensível ao gênero, empoderar as garotas ao fazer elas conhecerem seus direitos, abordar sobre sexualidade, sua identidade. Os problemas ainda não mudaram. E ainda temos um grande problema no financiamento da educação.

Uma mulher transsexual e ativista disse que seu maior medo é de ser assinada pelo simples fato de ser quem é. Como você enfrenta o medo na sua vida? Isso pode ser positivo?

Nós vivemos agora sem medo por dois anos, desde que o Talibã deixou o Vale do Swat [região onde vivia no Paquistão com sua família quando levou um tiro] e eu aprendi o que a falta de paz significa. Eu aprendi o que a guerra é. E aprendi o valor da paz, de poder sair de casa, ir ao supermercado, ir à escola, aprender e estudar sem medo. Mas houve um tempo na minha vida que essas coisas simples não eram possíveis, que era perigoso uma menina sair de casa, que uma menina segurando livros ao caminho da escola era perigoso. Essas são coisas que me fizeram perceber o que é importante e precioso na vida e me fizeram aprender o que significa quando alguém fala que está com medo de algo.

Eu não estava com medo das pessoas, nem do Talibã, dos terroristas, eu estava com medo é de um futuro em que eu teria que viver com medo para o resto da vida. E eu não queria viver nele e queria mudar isso. E percebi que a mudança só é possível com ação, não vai ocorrer por si mesma.

Hoje há tantas coisas contra as quais temos que lutar e às vezes você tem que acreditar em si mesmo, acreditar na sua voz, e que você está falando sobre algo que é extremamente importante. Quando eu tinha 11 anos e comecei a falar sobre o que me incomodava, eu poderia ter recuado se ficasse preocupada em como eu parecia, como eu soaria, o que meus amigos e familiares iriam dizer sobre mim. Sim, você pode ficar perdido nessas distrações, mas o que eu percebi é que a missão que eu estava disposta a defender era tão importante que os pequenos problemas não importavam. A missão é o mais importante. Quando você está falando pela verdade, não há o que ter medo. A verdade tem poder.

Depois da morte de George Floyd a causa antirracista ficou ainda mais importante na nossa agenda. Qual a importância de promover a educação antirracista?

Tem tanto que precisamos aprender e não só desigualdade de gênero e antirracismo. George Floyd foi uma perda triste, mas ao mesmo tempo ele acordou todos nós, não apenas para cobrar o que as outras pessoas estão fazendo, mas também para olharmos para nós mesmos e pensar no que nós estávamos fazendo, como somos parte disso, como nós estamos conscientes da igualdade que há em termos raciais em nossas escola, em nossa sala de aula, em nossas organizações e em nosso país. Algo que precisamos falar sobre e desafiar. Nós precisamos ser rebeldes e desafiar o sistema ao nosso redor e isso começa com nós mesmos. Para isso, precisamos antes nos educar, entender os desafios que estamos enfrentando, o que é racismo sistêmico, antirracismo, desigualdade de gênero. Começa com o reconhecimento e continua com ação. Então educação é importante, mas precisamos também de ação.

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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