Blog Naiara com Elas – Se você ainda não está entre as 350 mil novas investidoras da B3 você precisa ler este artigo

Número de mulheres com conta na B3 bate novo recorde, mas muita gente está entrando sem saber onde está pisando

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 03/09/2020

Hoje eu venho dar duas boas notícias, mas uma não tão boa assim. A primeira, boa, é que o número de mulheres com conta aberta na B3 bateu novo recorde em agosto, de 742.719 CPFs, um crescimento de nada mais nada menos do que 91% em relação a dezembro do ano passado e 6% ante julho. Ainda somos minoria (24%) do total, que chega a quase 3 milhões, mas é sinal de que estamos nos interessando mais por ativos mais arriscados em busca de retornos maiores.

A má notícia é que nem sempre quem abre a conta e coloca o dinheiro lá sabe no que está se metendo e nem qual o real risco que está correndo. As mulheres ainda têm a vantagem de gostarem de estudar mais sobre o assunto finanças e investimentos antes de tomar uma decisão (generalizando, obviamente). Mesmo assim, há quem se dá mal porque não tem cuidado em escolher o investimento.

E como optar pelo melhor? Se você está entre aquelas mulheres que não entendem muito bem sobre ações, fundos imobiliários ou outros ativos vendidos na bolsa, eu te mostro neste artigo algumas dicas de como começar. Aqui vou focar em dicas sobre investimentos em ações, OK?

Primeira dica

Mas você também pode argumentar que não sabe qual companhia escolher para acompanhar e posteriormente até investir. Para isso, vou dar uma sugestão que já ouvi em vários cursos e levo para a vida: invista em algo que você entende.

Um dos principais erros dos investidores é ficar pensando que precisa achar “A” empresa, aquele “achado” para ganhar dinheiro rápido. Esqueça isso. Tem milhares de gestores com muito mais experiência e instrumentos para procurar essas oportunidades imperdíveis – e a maioria não encontra. O outro principal erro é não fazer nada porque não sabe por onde começar.

Lembre-se: comprar uma ação é virar sócia de uma empresa. Você vai se sentir muito mais segura se aplicar em um setor que conhece, que gosta de acompanhar no noticiário ou em uma empresa que você confia e acha que tem potencial de crescimento.

Quando conhecemos algo, conseguimos ver com mais clareza os riscos envolvidos, ou seja, qual o impacto da economia no negócio, até que ponto decisões políticas e regulatórias podem atrapalhar ou ajudar, se é um setor que está em ascensão ou decadência, se é um setor ou empresa que investe em inovação e em se adaptar a um novo momento dos negócios e por aí vai….

Do contrário, se arriscar parte do seu dinheiro em algo que não faz ideia de como funciona, o que vai acontecer é o seguinte: você não vai dormir direito – e nós sabemos que não tem nada melhor do que dormir bem à noite. Além disso, pode ainda tomar decisões de desinvestimento precipitadas por pura insegurança e sem base racional.

Segunda dica

A segunda dica é pesquisar sobre a empresa. Lembre-se que você vai virar sócia dela. E para isso eu dou a segunda boa notícia que prometi: a pandemia trouxe muitas coisas ruins, mas também algumas oportunidades, como o maior acesso dos investidores à informação. As empresas de mercado aberto já seguem uma série de regras de divulgação de informações, ditadas por normas rígidas criadas e fiscalizadas pelo xerife do mercado, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas nunca houve tanta informação e conteúdo disponível sobre cada passo que essas empresas estão seguindo do que agora.

Todos os dias algum CEO, diretor financeiro ou diretor de relações com investidores de alguma empresa listada participa de lives, fala em reportagens, compartilha suas visão com clientes e fala com fornecedores. Se, por um lado, também já estamos ficando saturados de tanta informação, por outro, se soubermos filtrar o que ouvir, o que ler e o que nos realmente interessa, conseguimos saber muito mais sobre as empresas que estão listadas na bolsa. É uma grande oportunidade para quem ainda não entrou na bolsa porque não sabe em qual companhia investir ou para quem até abriu conta, mas não fez nenhuma transação.

Claro, dá para argumentar que essas aparições são tão dispersas nas redes e canais que é difícil saber onde procurar essas informações. E para isso, a CVM também está te ajudando. Esta semana a Superintendência de Relações com Empresas (SRE) soltou um ofício em claro e bom som: a participação de executivos de companhias abertas em “lives” deve ser divulgada com antecedência ao mercado por meio de comunicado e o material apresentado deve ser disponibilizado.

Ponto para o investidor! Ficou mais fácil saber quando e por qual canal o presidente da empresa que você está de olho vai falar e colocar na agenda! Essa desculpa você não tem mais.

Outra vantagem que a pandemia trouxe é que algumas empresas também já começaram a adiantar alguns números mensais. No momento de extrema incerteza, a estratégia de estar presente, acessível e ser transparente com seus “stakeholders” é vista como uma boa estratégia para ganhar a confiança dos investidores e do mercado. Outro ponto para o investidor, que não precisa ficar supondo, planilhando ou calculando os resultados financeiros esperados da empresa.

O que analisar

Se você não sabe exatamente em qual empresa colocar o dinheiro, pense em termos setoriais, ou seja, alguma área ou atividade que você já conhece ou se interessa. Indústria? Comércio? Serviços? Saúde? Educação? Beleza? Equipamentos? Automotivo? Agora algumas dicas para escolher:

  1. Pesquise sobre ele(s) em sites confiáveis de notícias (como o Valor Econômico, Valor Investe, Pequenas Empresas Grandes Negócios, Época etc.). Procure por:
  • a) grau de dependência desse setor da economia brasileira;
  • b) quanto o setor está se modernizando e se adaptando às novas tendências;
  • c) como está a competição dentro dele;
  • d) perspectivas para o futuro que analistas, economistas, consultores, gestores possam dizer.

2) O próximo passo é pesquisar quais as empresas neste setor que tem capital aberto, ou seja, as ações são negociadas na bolsa de valores. E uma informação importante que nem todo mundo sabe: nem só de Ibovespa vive a bolsa. Além do principal índice, o Ibovespa, tem outras empresas, menores, que também podem ser investidas e que não estão na carteira deste índice. A lista completa você encontra aqui: http://www.b3.com.br/pt_br/produtos-e-servicos/negociacao/renda-variavel/empresas-listadas.htm

3) Selecionou algumas empresas? Agora é hora de pesquisar em notícias e em canais oficiais como está a saúde financeira dessas companhias e quais as perspectivas para ela. Como? Uma dica é ir para o site de relações com investidores que todas as empresas de capital aberto são obrigadas a ter. Digite no buscador ‘Nome da empresa’ + ‘Relações com Investidores’ e você já chegará ao site. Lá, você pode ir em “Dados Financeiros”, “Central de Resultados” e ver as “Demonstrações Financeiras”. Algumas coisas para se observar:

  • a) De onde vem a maior parte da receita da empresa. A gente, muitas vezes, acha que sabe como a empresa ganha dinheiro, mas como muitas delas são gigantes e atuam em diversas frentes, elas podem ter outras fontes de receitas que você não sabia. Você pode se surpreender quando vir que uma varejista ganha bastante dinheiro com os serviços financeiros (cartão de crédito, por exemplo) e que uma locadora de automóveis tem boa parte da receita na revenda dos carros.
  • b) Entenda o quão alta a dívida é em relação à receita e se a empresa tem um plano de pagamento, se está pagando tudo em dia, conforme o combinado e se ela tem caixa suficiente para manter o negócio de pé e funcionando. Ter dívida é comum, o problema é se ela for muito grande e a empresas tiver dificuldade de gerar caixa para manter suas obrigações.
  • c) Entre em sites de reclamações e veja o que os consumidores falam sobre essas empresas.
  • d) Veja qual o rating da companhia. O que isso quer dizer? É sua nota de risco de calote. Quem faz essa medição são agências de classificação de risco como a Moody’s, Fitch e S&P Ratings. Essas empresas costumam soltar relatórios periódicos falando sobre as empresas, o legal é que neles elas também aproveitam para dizer como está a situação financeira da empresa e o que acham que pode impactá-la positivamente ou negativamente.
  • e) Conheça quem são os gestores e o que eles pensam sobre a empresa. Nos resultados financeiros o presidente sempre faz um comentário sobre o ano e perspectivas. Também há todo trimestre as calls de resultado financeiro que os executivos participam e os “dias dos investidores” (ou “investor day”). Além disso, todas as lives também podem dar um boa noção de para onde a companhia está caminhando. Por fim, o acionista pode SEMPRE pedir informações para o diretor relações com investidores.
  • f) Pesquise sobre a política de dividendos da empresa. O dividendo é a parte do lucro que a empresa distribui aos acionistas. É a segunda maneira pela qual você pode ganhar dinheiro com ações além da própria valorização do preço dela na bolsa. Nem sempre, porém, maior dividendo significa que é uma ótima empresa. Quando ela distribui muito do seu lucro, ela, na prática, não está retendo para investir em si mesma, na expansão, no crescimento para novos mercados etc. É comum as empresas distribuírem ao menos 25% de seu lucro em forma de dividendos. Por isso, além de qual a política de dividendos, é preciso entender quais os planos para o futuro da companhia e no que ela está planejando investir o lucro que não distribui.

É para mim?

Em finanças, se tem algo que é importantíssimo é o autoconhecimento. Parece papo de psicológica, mas a verdade é que se você não se conhecer, não vai saber quais são seus limites. E quando se fala em mercado de ações, renda variável como um todo, precisamos saber até onde é para a gente, até onde aguentamos e qual a linha que não podemos cruzar senão não vamos dormir bem à noite.

Não é comum o preço de uma ação despencar 30% do dia para a noite, mas não é impossível. Quem tinha ações na B3 durante março e abril deste ano viu o tombo do mercado. Muita gente aguentou e teve pulso firme para não vender, mas se você for fazer isso as custas de medicamentos para dormir, vale a pena? Entenda seu limite e lembre-se que isso ninguém – nem assessor, consultor, corretora, mãe, pai, tio, primo, amiga, absolutamente ninguém sabe, é algo seu, pessoal, cada um tem um limite.

Por isso, outro conselho: se você está insegura, comece investindo pouco. Já dá para comprar lotes menores de ações no mercado (chamados de lote fracionado) e você pode aproveitar que várias corretoras baixaram e até zeraram a taxa de corretagem. Desse modo, vai se acostumando com a ideia e se sentindo segura aos poucos para investir mais. Com R$ 100 já dá para comprar ações na bolsa.

Outra coisa: saiba qual seu limite de perda. O quanto está disposta a perder se tudo der errado. É possível nas corretoras fazer o chamado “stop loss”, que é um piso de preço que você tolera que a empresa caia. Se a ação cair e atingir esse piso, este mecanismo entende que é hora de vender e vende automaticamente para você. Se você é do tipo que tem MUITO MEDO de perder tudo, pode ser uma trava de segurança que vai te deixar dormir melhor à noite. Outra coisa que ajuda a diminuir a ansiedade é não ver todo santo dia a cotação.

Meu último conselho sobre investir em ações é pensar sempre que você está virando sócia de uma empresa e que essa relação terá mais vantagens se vocês forem sócias por mais tempo. É normal os relacionamentos terem momentos de altos e baixas, fases boas e ruins e assim é com as empresas. Por isso, escolher uma empresa que você aposte a ponto de ficar bem mais tempo, alguns anos, pode ser a melhor decisão.

Ficaram com dúvidas? Querem saber mais? Escrevam para mim: naiara.bertao@valor.com.br [Coloque no assunto ‘Resposta Blog Naiara com Elas’].

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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