Blog Naiara com Elas – Como o exemplo e a oportunidade podem mudar a vida de tantas mulheres

Neste artigo você vai conhecer como Sheila e Vitória estão contribuindo para inspirar tantas outras empreendedoras, estudantes e profissionais

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 04/10/2020

Eu sempre acreditei fortemente no poder do exemplo. Cresci vendo meus pais batalharem e sempre me agarrei em exemplos de superação, de determinação e de zero comodismo para me inspirar e crescer. Até hoje gosto muito de ler, ouvir histórias e assistir filmes e documentários sobre pessoas ‘fora da curva’, que encaram os desafios de frente.

Malala é um grande exemplo para mim e quando tive a oportunidade de participar de um bate-papo com ela (ainda que sem dizer uma palavra), me senti muito realizada. Mas há um problema nessas grandes referências: elas ficam grandes demais! Qual o problema disso? A gente tende a achar que elas são realmente ‘fora da curva’ e nos distanciamos delas, acreditando que são excepcionais e suas histórias são difíceis de serem replicadas e aplicadas em nossas vidas.

Também há outro problema aí – e neste faço mea-culpa porque os jornalistas contribuem muito para isso: são sempre as mesmas referências que aparecem em eventos, fóruns de discussão, matérias em jornais, revistas e TV e são convidadas para representar um grupo, servir de exemplo.

Falhamos ao não mostrar para jovens mulheres e meninas que os exemplos inspiradores podem estar mais próximos da gente, são mais acessíveis e sim, são replicáveis.

Fico feliz quando histórias como a da Sheila Makeda aparecem no meu radar (neste caso, em um episódio recente do EmpreendaCast). Sheila tem um início de história “comum”, em que, como muitas meninas, precisou se virar na vida e ajudar a família a sobreviver. Depois de alguns anos se especializando em fazer tratamento para cabelos crespos, cacheados e ondulados (sempre trabalhando para os outros), ela batalhou para criar uma marca própria de cosméticos em 2012 com a irmã.

Foram muitos altos e baixos empresariais e profissionais que culminaram no fechamento dos negócios. Mas também na idealização de um movimento que está dando oportunidade de trabalho para outras tantas mulheres, especialmente negras de periferias. O “Movimente-se com Makeda” busca arrecadar recursos para ensinar técnicas de tratamento de cabelos crespos e doar kits para mulheres que hoje estão sem emprego e carreira começarem já a trabalhar. A vaquinha para viabilizar a ideia está no Benfeitoria.

Sheila é uma baita referência. Mulher, negra, empreendedora, batalhadora e que está não apenas pensando em si, mas no outro, no impacto que suas ações e seu poder podem causar no outro. Ela entende que ninguém está sozinho(a) nesse mundo e que realmente dá para ganhar dinheiro e ajudar outras pessoas. Quando ouvi a história de Sheila no podcast esta semana eu percebi o poder de transformar a vida de alguém que todas nós temos, mas nem todas usamos.

Corta a história de Sheila e entra a história de Vitória.

Vitória

Há três semanas, eu entrei em um grupo do Telegram sobre igualdade de gênero nas empresas. Contei lá rapidamente o que eu fazia e minutos depois Vitória me manda uma mensagem no privado. Ela explicou que era bolsista no curso de Administração da FGV e queria saber como conseguiria uma assinatura do Valor Econômico. Confesso que o pedido me pegou de surpresa e perguntei mais sobre sua história.

Ela então me enviou duas cartas que escreveu para enviar à FGV e concorrer à bolsa de estudos.

“Depois de trancar o curso de odontologia na UNESP no último ano, um ato de muita coragem, para seguir meu sonho de cursar administração de empresas na FGV, vejo-me hoje, depois de tantas lutas e dedicação – na busca por independência financeira, experiência de mercado e por ter que assumir responsabilidades na vida para isso, como trabalhos temporários como garçonete – para atingir meu objetivo e ser aprovada no vestibular, diante do impasse e da impossibilidade de pagamento do valor da mensalidade do curso”, conta Vitória em uma das cartas.

Natural do interior paulista, ela cursou odontologia e percebeu que o que queria mesmo era trabalhar com negócios. Mas conseguir dinheiro para viver em outra cidade e estudar administração era um obstáculo. Não foi só como garçonete que Vitória trabalhou para juntar a grana e conseguir vir para São Paulo. Aos 23 anos, ela soma no currículo experiências como professora de física em um cursinho popular, vendedora da Polishop, planejadora financeira, corretora de tarefas no Kumon e estagiária na casa de análise de investimentos Empiricus.

“Mesmo com remunerações baixas (como garçonete, o valor recebido era de R$ 80 por uma jornada das 17h30 às 2h) e com rotinas intensas, mantive meu foco, atingindo minha meta financeira, conciliando tais pagamentos com os investimentos que fiz de maneira independente, e só por isso hoje posso pleitear essa vaga. Essas minhas atitudes e conquistas inspiraram pessoas próximas, como colegas de sala, os quais passei a ajudar a planejar as finanças e a investir os ganhos. Nesse momento, mais uma vez, tive a certeza de meu interesse pela área de negócios”, continuou em outro trecho da carta.

O esforço valeu a pena.

“Foram três anos de economias, de muito esforço, persistência, coragem e dedicação e, ao final deles, o valor economizado foi de aproximadamente R$ 50.000, o que permitia que eu trancasse a faculdade e pudesse começar a trilhar outra jornada em busca do meu sonho, no preparo específico para o vestibular”, conta.

Ela conseguiu a bolsa na FGV e começou o curso de administração de empresas neste segundo semestre.

Vitória me ensinou muitas coisas sobre realização de sonhos em pouco tempo. Temos sempre muitas ideias, vontade, mas pouca ação. Ela mostrou resiliência, força de vontade, foco, dedicação, falta de vergonha para pedir ajuda, de se expor, de trabalhar em empregos que não eram o que ela queria…

Desfecho

Fiquei impressionada com a sua força e como, com poucos anos, Vitória é uma referência não apenas para estudantes universitárias, jovens que estão na escola, mas também para mim e tantas outras profissionais que já estão há mais tempo no mercado de trabalho.

Nós precisamos nos espelhar em histórias reais e próximas a gente, não apenas para valorizar essas pessoas incríveis que não estampam capas de revista, nem dão entrevistas corriqueiras a programas de TV. Mas também porque são elas que vão nos dar força para também mudarmos as nossas histórias.

Toda a conversa com Vitória, as cartas e o valor que ela dá à informação de qualidade (infelizmente não é todos que dão o mesmo valor) me encorajou a pensar em maneiras de doar assinaturas do Valor Econômico a jovens universitárias que queiram seguir carreira no mercado financeiro e não tem condições financeiras de arcar com esse custo.

Estou ainda vendo meios de viabilizar a ideia, por meio de patrocinadores, madrinhas e padrinhos, mas vai dar certo, tenho certeza. Em paralelo, Vitória está prestes a conseguir um estágio em uma empresa que eu a indiquei e para a qual contei sua história.

Tudo isso mostra o poder que todas temos em nossas mãos – de ser exemplo e de dar oportunidades a outras mulheres. Vamos juntas?!

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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