Blog Naiara com Elas – Muito discurso e pouca ação – mulheres querem posições em conselhos de administração, mas poucas conseguem

Só duas das 73 empresas que compõem o Ibovespa têm mulher na presidência do conselho e ambas são da família fundadora. Nos discursos, falar de diversidade é bom, na prática a realidade é bem menos atrativa

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 31/10/2020

Olá, pessoal. Quero chamar a atenção neste post de hoje para uma realidade: estamos o tempo todo sujeitas a sermos enganadas. A verdade é que nem sempre o que se fala, é o que se faz na questão de diversidade de gênero. O que antes era um “feeling” – afinal, como jornalista, recebemos muitas informações, falamos com muita gente, mas pouco entramos no detalhe do que cada empresa verdadeiramente faz – se mostrou real.

Uma pesquisa recente da consultoria Redington mostra que 53% dos gestores de fundos de investimentos NÃO consideram, de fato, a diversidade de gênero em suas análises na hora de montar as carteiras de investimentos. A maioria ainda diz que a equidade é um tema importante inclusive internamente, mas dois terços relatam que têm menos de 25% de representantes femininas no time de gestão.

Gestores de investimentos têm não apenas poder de decidir o que colocar no portfólio onde outras milhares de pessoas vão alocar seu dinheiro, como muitos ainda têm proximidade com a diretoria e voz ativa no conselho de administração das companhias abertas. E estão fazendo praticamente nada para mudar isso no Brasil.

Resumindo em poucas palavras o que pensei quando vi esta pesquisa: de boas intenções, o inferno está cheio. Queremos é ação. Precisamos de definição de metas claras e objetivas para a diversidade e que esta cultura seja passada de cima para baixo para realmente aumentarmos a representatividade de mulheres nas empresas, especialmente em cargos de liderança.

Parte da explicação para esse quadro é que a maioria dos gestores de investimentos no Brasil são homens – e brancos. É um parto achar gestoras mulheres para convidar para nossas entrevistas. Se não tem representatividade na equipe, muitos deles nem lembram sequer que ter mais mulheres nos conselhos e no C-Level de companhias é relevante.

Nem eles e nem nós investidores, que não estamos muito preocupados – por ora – com quantas mulheres estão na gestão, na diretoria executiva e no conselho. Vocês sabem, por exemplo, se a empresa que admiram ou investem – diretamente ou por meio de fundos de investimento, têm políticas claras de inclusão de mulheres?

A tal da diversidade, que tantas pesquisas mostram ser ultra benéfica para os negócios, para o lucro, para a inovação, está sendo negligenciada na cara de pau.

Já ouvi de várias pessoas que a dificuldade de convidar mulheres para conselhos é porque são poucas candidatas conselheiras. E provavelmente nem procurar direito quem falou isso procurou. A WCD – WomenCorporateDirectors Brazil – faz um trabalho muito legal de ajudar as interessadas em ascender até os altos pedestais dos conselhos.

A organização levou um (bom) susto com a demanda para seu Programa Diversidade em Conselho, organizado pela WCD junto com IBGC (Instituto Brasileiro De Governança), IFC (Corporação Financeira Internacional, do Banco Mundial), B3 e Spencer Stuart: tiveram nada menos do que 800 inscritas para 40 vagas este ano. Interesse das mulheres em se profissionalizarem para seguir na carreira há. O que falta é convite e confiança.

“Isso mostra que há uma preocupação das mulheres em cada vez mais estarem preparadas e atualizadas a um alto nível para atuar e contribuir com os conselhos de administração que atuem”, comentou Lucy Pamboukdjian, membro do WCD, em evento on-line na semana mundial do Investidor.

Ela apresentou na ocasião alguns números que me chamaram a atenção. No Brasil, as mulheres ocupavam apenas 11,5% dos assentos nos conselhos de empresas listadas na B3 em 2019 – ou 9,3% quando descontadas as que são suplentes. Em comparação a 2015, foi um salto de 86%, mas foi o ano de menor crescimento.

Eu fui atrás para saber a atual situação das 73 empresas que compõem o Ibovespa – sim, entrei em cada um dos sites de Relações com Investidores e fui olhar a composição do conselho de administração. Vale lembrar que o Ibovespa é o índice que concentra as maiores empresas listadas em bolsa, muitas que são do Novo Mercado e têm que seguir compromissos de governança corporativas.

A realidade é bem mais triste e desafiadora: em 20 de outubro de 2020, das 73 empresas do Ibovespa, só duas – isso mesmo – duas têm mulheres na presidência do conselho. E ainda vem o pior: as duas, Magazine Luiza e CCR, são da família fundadora – Luiza Helena Trajano e Ana Maria Marcondes Penido Sant’Anna, respectivamente. Isso representa apenas 2,7% do total.

Outras três têm mulheres como vice-presidentes do conselho, sendo duas das companhias o Itaú e a Itaúsa (holding do Itaú). As empresas não apenas têm a mesma composição do conselho como a única mulher entre os membros, e vice-presidente do board, é Ana Lúcia de Mattos Barretto Villela, bisneta do fundador do Unibanco, que se fundiu com o Itaú. Ou seja, prata da casa.

A terceira empresa que tem uma VP no conselho mulher é a Totvs, que, de fato, escolheu alguém de fora do círculo familiar: Maria Letícia de Freitas Costa, que é conselheira profissional e membro de outros boards.

Mesmo somando as duas presidentes e três VPs, temos que só 6,8% das 73 empresas do Ibovespa têm na liderança do conselho mulheres.

Mas não parei por aí. Quase um quarto (23,3%) do total das companhias que eu analisei não tem nenhuma representante feminina no conselho. E vamos dar nomes aos bois: Minerva, BTG Pactual, BR Malls, Cielo, CPFL Energia, Cosan, CSN, Cyrela, Eztec, Notre Dame Intermédica, Hapvida, Grupo Pão de Açúcar, Qualicorp, Rumo, Taesa, Via Varejo e WEG.

(Correção: a Natura & Co tem três representantes femininas no Conselho de Administração, de 12 cadeiras. Anteriormente, o texto falava de nenhuma mulher no board, mas este é o cenário do conselho da Natura Cosméticos S.A.; o da holding tem 3 mulheres em 12. O Fleury tem 10 assentos no Conselho e não 13 – os 3 contabilizados a mais são suplentes)

Em média, a proporção de mulheres por assentos do conselho é de 12,4%, considerando as 73 empresas. A Magazine Luiza é a que mais tem: dos sete assentos, três são ocupados por mulheres. Em seguida vem Santander (3 mulheres em 9 cadeiras); TIM (3 de 10); Hering (2 de 7); e Totvs (2 de 7).

Os membros do conselho de administração devem ser eleitos pela assembleia geral para um período de dois anos com direito à reeleição. Algumas dessas empresas vão ter eleição no ano que vem. Nem preciso dizer que espero que este quadro esteja melhor daqui um ano.

Há quem defenda, por exemplo, cotas fixas para mulheres nos conselhos. Neste time, está, por exemplo, Luiza Trajano, do Magazine Luiza e membro do grupo Mulheres do Brasil.

Em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 5 de outubro, Luiza disse sobre o programa de cotas para mulheres no conselho:

“Eu entendi claramente que cotas não são só para mulheres. É um processo transitório para acertar uma desigualdade, porque senão vai demorar. Temos apenas 7% de mulheres em conselho. Se tirar filhas de donos e donas, sobra 4%. Vai levar 120 anos para termos 20%”, disse Luiza Trajano, e citou a decisão do banco Goldman Sachs de só estruturar IPOs (processo de abertura de capital) de companhias que tenham mulheres em conselho, como uma das mais acertadas formas de incentivar as empresas a aumentarem essa proporção.

Um estudo recente da City Business School mostra que a política de cotas para a diversidade de gênero aumenta a representatividade e presença de mulheres no conselho de administração das organizações.

Foram analisados os conselhos de empresas que atuam no Reino Unido, França e Itália por um período de 14 anos. São países que instituíram uma cota, por lei, para diversidade de gênero nas empresas.

  • Reino Unidos (cotas são voluntárias, mas recomendadas desde 2011 pelo governo): a meta é atingir 33% de mulheres nos conselhos das empresas que compõem o índice Financial Times Stock Exchange (FTSE 100). Em fevereiro de 2020, 57 empresas conseguiram, entre elas Diageo, HSBC, Unilever e Vodafone.
  • França (desde 2017 é obrigatório grandes empresas ter, no mínimo, 40% de representação feminina em conselhos de administração): no início de 2019, as mulheres representavam 42% dos assentos das empresas do índice CAC 40, principal da bolsa de Paris.
  • Itália (desde 2011 empresas listadas na bolsa precisam ter ao menos 30% de representação feminina em conselhos): em 2019, essa proporção ultrapassou 33%.

Tanto na França, quanto Itália, as empresas podem ser penalizadas se não cumprirem as diretrizes.

Minha intenção em trazer isso é mostrar que nós, como investidoras, temos não apenas o poder de cobrar que as companhias nas quais depositamos nosso dinheiro se preocupem com a diversidade de gênero em seu quadro de funcionários, como também temos que pedir uma representatividade maior no conselho, onde as decisões estratégicas são tomadas e os postos mais difíceis de chegarmos. Temos que exigir menos discurso e mais ação.

Veja agora a lista completa de empresas que eu avaliei a proporção de mulheres no conselho e administração:

Mulheres em Conselho de Administração de empresas do Ibovespa em Outubro de 2020

EmpresaNúmero de assentos no conselhoNúmero de mulheres no conselhoNúmero de mulheres na presidência e viceProporção de mulheres no conselho (em% do total)
Magazine Luiza73142,9
Santander93033,3
TIM103030,0
Hering72028,6
Totvs72VP28,6
Lojas Renner82025,0
MRV82025,0
Telefônica Vivo123025,0
Natura123025,0
IRB92022,2
Hypera92022,2
Engie Brasil92022,2
BRF102020,0
SulAmerica102020,0
Suzano102020,0
Fleury102020,0
Grupo Ultra112018,2
B3112018,2
Cogna61016,7
Localiza Hertz61016,7
CCR132115,4
Vale132015,4
CVC71014,3
Iguatemi71014,3
BB Seguridade71014,3
Banco do Brasil71014,3
B2W71014,3
Equatorial Energia71014,3
Lojas Americanas71014,3
Multiplan71014,3
PetroRio71014,3
Energisa71014,3
EDP Brasil81012,5
Marfrig81012,5
Usiminas81012,5
Itaúsa91VP11,1
Gerdau91011,1
BR Distribuidora91011,1
Gol91011,1
JBS91011,1
RaiaDrogasil91011,1
Yduqs91011,1
Embraer91011,1
Itaú91VP11,1
Cemig91011,1
Bradesco101010,0
Bradespar101010,0
Azul101010,0
Atacadão/Carrefour101010,0
Sabesp101010,0
Petrobras11109,1
Ambev11109,1
Eletrobras11109,1
Braskem11109,1
EcoRodovias12108,3
Klabin13107,7
Minerva11000,0
BTG Pactual7000,0
BR Malls7000,0
Cielo11000,0
CPFL Energia7000,0
Cosan6000,0
CSN5000,0
Cyrela7000,0
Eztec8000,0
Notre Dame Intermedica6000,0
Hapvida7000,0
Pão de Açúcar9000,0
Qualicorp7000,0
Rumo10000,0
Taesa13000,0
Via Varejo5000,0
WEG7000,0

Fonte: Empresas. Elaboração: Naiara Bertão

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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