Blog Naiara com Elas – Você costuma sair da sua zona de conforto? Entenda os benefícios de arriscar mais

Além de obviamente expandirmos nossa visão de mundo, ao aprender novas habilidades e adquirir experiência de vida, podemos ainda ganhar mais dinheiro

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 28/12/2020

Nas minhas curtas e bem aproveitadas férias agora em novembro eu fiz algo totalmente novo e não foi nem um pouco fácil dar o primeiro passo, literalmente. Eu arrisquei, pela primeira vez, a fazer wakeboard, um esporte na água em que você prende seus pés a uma prancha e segura uma corda que é puxada pelo barco. Eu marquei uma sessão no sábado e não fui, por medo do desconhecido mesmo.

O esporte é super conhecido, os riscos já foram bem mapeados, mas eu nunca tinha, até então, visto alguém fazer e nem entendido como funcionava (e perguntado dos riscos, claro). O medo é natural, é biológico, mas nos trava, nos impede de aprender coisas novas. Pensando nisso, marquei uma segunda tentativa, e fui. Tremendo, mas fui. A hora que entrei na água (demorei pra conseguir a coragem de pular – isso representaria o primeiro passo, quase em volta) eu pensei “Fu….!”. Passava de tudo pela minha cabeça: vou quebrar uma perna; o tubarão vai me ver, toda branquinha no meio do mar e vai me atacar; eu vou bater minha cabeça… e por aí vai. Nessas horas a imaginação é bem fértil, né?!

Quando o barco passou e me jogou a cordinha eu me esforcei para, pelo menos, tentar seguir o que o instrutor havia me dito. E não é que funcionou? A primeira puxada não deu certo, mas eu percebi onde estava errando e a intensidade de força que ia precisar fazer com as pernas e os braços. Na segunda, já consegui, milagrosamente, subir o corpo e “surfar”. Caí algumas vezes, consegui ficar em pé outras e, no fim, foi uma das melhores experiências das minhas férias. E fiquei orgulhosa de mim.

Esse episódio recente resume bem o ano de 2020. Considerado por muitos como o período da resiliência, eu acredito que foi mesmo o ano da inovação, de sair da zona de conforto. A despeito, claro, das consequências de saúde para todos nós, a pandemia fez todo mundo se mexer de alguma forma. Aderir ao teletrabalho, aprender a mexer no Zoom, virar professora dos filhos, aprender yoga e meditação para tentar se acalmar, vencer a preguiça e fazer exercícios físicos em casa, participar de eventos virtuais, descobrir a facilidade dos aplicativos para tudo…

E sabe por que sentimos que esse ano valeu por 5? Porque ele foi intenso e de muito aprendizado. É, na minha opinião, um ano de crescimento pessoal e profissional, ainda que desafiador. Cansativo, claro, mas importante. Nós sentimos a água bater na nossa bunda diversas vezes e reagimos para não nos molharmos. É desses momentos de adversidade que surgem as boas ideias.

No início deste mês eu li o livro Na Raça, escrito pela minha colega Maria Luiza Filgueiras, que conta a história de Guilherme Benchimol, fundador e presidente da XP, plataforma de investimento que reinventou o mercado de investimento para o varejo no Brasil nos últimos anos. Como eu teria um bate-papo com Benchimol na semana seguinte, eu resolvi me preparar.

Conforme as páginas iam passando eu ia encolhendo no sofá. “Caramba, haja problema para resolver!”. Os 10 primeiros anos foram só de perrengues e nada de descanso, praticamente. “Quem se submete a uma vida assim?”, pensei. Mas o livro e depois o bate-papo com o executivo me fizeram entender: realmente é importante nos forçarmos a sair da nossa zona de conforto para aprender algo novo, para expandir nossa visão de mundo, para realizar algo grande, para ter insights novos e acordarmos nossa criatividade. Para o Benchimol, isso foi bem importante para estar onde está.

Na definição de Oxford Languages:

esforço

  • substantivo masculino
  • intensificação das forças físicas, intelectuais ou morais para a realização de algum projeto ou tarefa.
    “fez um grande e. para arrombar a porta”
  • aquilo que se faz com dificuldade e empenho; trabalho, empreendimento, obra.
    “fizeram magníficos e. para recuperar as áreas desmatadas”

Ao que parece, não há grandes feitos sem esforços. É claro que nem todas nós queremos fazer algo tão grandioso, como construir uma empresa bilionária. Mas, independentemente do tamanho da nossa ambição, nós precisamos sim sair mais da nossa zona de conforto. E dou duas razões, em especial nós, mulheres.

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Por que sair da zona de conforto

primeiro motivo é o óbvio: realmente são nesses momentos que ampliamos nossa visão de mundo, aprendemos algo diferente do que conhecemos, temos ideias novas, nos expomos a novidades e ativamos nossa criatividade. Sabemos bem que essas habilidades são importantes para nossa vida pessoal e profissional (estão em todos os relatórios de futuro do trabalho).

Além disso, há outra razão: a financeira. Não paramos muito para pensar, mas sair da nossa zona de conforto pode nos trazer mais dinheiro. Vou explicar.

O que é a zona de conforto se não o lugar que nos deixa confortáveis, onde nos sentimos seguras? É claro que deixar o conforto para suar, ralar ou errar não é o nosso movimento natural, pelo menos não da maioria de nós. Sair dessa zona de conforto tem a ver com tomar mais risco. Em algumas situações de maneira mais controlada, com riscos mais bem mapeados, mas em outras em cenário de total incerteza. E, dizem, que nós, mulheres, somos mais avessas ao risco que os homens.

Se temos mais ou menos coragem de gritar “all in” ou “truco” é algo extremamente pessoal. Tem sim um viés inconsciente instaurado na mulher ligado à proteção — na evolução humana, sempre fomos nós que tivemos que garantir a segurança alimentar e emocional do lar —, mas o grau de tolerância a risco de cada uma de nós é diferente.

O problema é que o risco faz parte de nossa vida toda e, quando não tomamos nenhum risco, não andamos para a frente, tendemos a ficar paradas no mesmo lugar. E, claro, ficamos sujeitas às consequências ruins disso. Acredite ou não, a emancipação financeira da mulher tem tudo a ver com isso.

  1. Na carreira – Muitas mulheres não se candidatam a vagas porque não acham que são capazes, que vão dar conta, que vão se sair bem (incerteza sobre o desconhecido). Uma pesquisa de 2018 do LinkedIn vai além para entender essas causas. As mulheres são 16% menos propensas a se candidatar a uma vaga após encontrá-la do que os homens. O motivo? Para se candidatar a um emprego, as mulheres sentem que devem cumprir 100% dos requisitos, enquanto seus pares masculinos só precisam entender que atendem 60% dos critérios. Muitas empreendedoras também não levam adiante as suas ideias de negócios por crenças limitantes de que não são capazes ou que não conseguirão o aporte financeiro necessário, sem nem ao menos tentar. O que aconteceu com “o não eu já tenho!”?
  2. Nos investimentos – Não há investimento sem risco. Este ano tivemos rentabilidade negativa até nos títulos públicos mais conservadores, os do tipo Tesouro Selic. Mas percebo que o que bloqueia muitas mulheres de investir melhor seu dinheiro não é o medo de arriscar em si, mas o medo do desconhecido, de não saber como funcionam outras alternativas e os riscos reais envolvidos e nem como elas mesmas se sentiriam (se se sentiriam seguras ou não) investindo em outras opções. As empreendedoras não avançam, não crescem, não contratam mais pessoas e não ganham mais dinheiro.

As consequências disso são claras como cristal:

  1. Carreira – Ao sentir que não atendem os requisitos, as mulheres naturalmente se candidatam a menos vagas, têm menos chance de entrar em empregos mais exigentes e com potencial de salário e promoção maior, são minoria em diversos processos seletivos, não aproveitam seu pleno potencial, não se desenvolvem plenamente e ainda reforçam as estatísticas de menos mulheres em cargos de liderança. Isso impacta diretamente no salário, na poupança, na independência financeira e padrão de consumo da mulher em relação ao homem. Resumindo, só temos a perder com isso.
  2. Nos investimentos – As mulheres estão há menos tempo no mercado, historicamente ganham menos que os homens e são minoria em investimentos de maior risco (e maior potencial de retorno) no Brasil hoje. Não apenas largamos em desvantagem como ampliamos essa desvantagem porque somos conservadoras até demais, com muitas deixando o dinheiro na poupança, perdendo mais seu poder de compra a cada segundo.

Simples e triste assim.

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Mas por que tantas de nós agimos desse jeito? Resolvi olhar para dentro de mim. Eu me considero uma pessoa corajosa; eu tomo riscos, mas não sou inconsequente. Sei das minhas limitações e faço um bom mapeamento de risco (ainda que ‘de cabeça’). E fiquei pensando: o que me faz dar um passo grande em algumas situações e recuar em outras? Cheguei à conclusão de que o meu grau de disposição a tomar risco está diretamente relacionado ao meu conhecimento sobre o assunto e ao nível de incerteza.

O segundo é difícil mudar. É só resgatar o que estava sentindo em abril de 2020, com um mês de isolamento social e sem a mínima pista de quanto tempo isso iria durar, se seria o fim do mundo, se eu ia perder todo o meu dinheiro investido, se era o fim. E sempre – SEMPRE – reagimos exageradamente quando não conseguimos enxergar o que está à nossa volta e à nossa frente. Portanto, lidar com a incerteza é um desafio gigante, mas, sabendo que tendo a exagerar, o jeito é evitar tomar alguma grande decisão nestes momentos.

Mas, na grande maioria das situações em que nós precisamos tomar decisões mais arriscadas, não são em cenário de total incerteza. Basta mesmo um esforço maior da nossa parte para ir atrás de conhecer o assunto ou de arriscar… mesmo com o frio na barriga. Medo de ir com tudo? Vá aos poucos, ninguém está apontando uma arma na sua cabeça para investir melhor nem para testar coisas novas. Conheça seu ritmo e seus limites e tente se abrir dentro deles. Tenho certeza que essas experiências vão ser enriquecedoras.

Se você quiser já praticar – ainda que no sofá – fiz um artigo com dicas de 9 filmes e séries para aprender algo novo.

Além disso, uma dica de uma série que estou acompanhando e achando super interessante e diferente: Curta essa com Zac Efron (ou, em inglês, Down to Earth with Zac Efron):

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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