Blog Naiara com Elas – 10 passos para chegarmos à igualdade financeira de homens e mulheres

A digitalização de mulheres e o acesso à internet é importantíssimo para retomarmos a economia na era pós-covid. É não sou nem eu falando, mas a ONU, Banco Mundial e Women’s World Banking. Entenda:

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 22/04/2021

Inclusão — Foto: GettyImages

Com quantos anos vocês tiveram acesso a um celular para chamar de seu? Um celular que permitisse acessar notícias, e-mails, trocar mensagens com as pessoas? E a um notebook que pudesse se conectar em qualquer lugar (que tivesse wi-fi), levar em viagens, trabalhar, estudar, jogar, se entreter e comunicar remotamente?

Duas cenas que são muito marcantes na minha memória são a do dia em que meu pai, então gerente de um banco, chegou com um computador Itautec em casa. Eu deveria ter 12 ou 13 anos, mas aquilo foi uma verdadeira revolução na minha vida, algo muito próximo do que foi descobrir que existiam buscadores (Cadê e Google) onde eu poderia encontrar explicações sobre quase tudo. A segunda cena é a de quando eu tive um celular em que poderia, sozinho, sem necessidade de wifi, navegar pela internet, escutar música (ainda com má qualidade) e mandar SMS para meus amigos.

A conexão mudou a forma como agimos, como trabalhamos, como estudamos, como nos comunicamos, como produzimos e como fazemos a gestão do nosso dinheiro. Acelerou tudo, tornou o nosso tempo mais produtivo e nos permitiu progredir economicamente. Mas ainda, em pleno 2021, temos uma penetração muito baixa de internet e mobilidade de qualidade no Brasil e no mundo. E este é um ponto crucial para diminuirmos a desigualdade de gênero no nosso país e no mundo, especialmente a financeira.

O argumento mais básico é que com conexão, as mulheres podem estudar, se capacitar e concorrer de igual para igual com homens nas vagas de trabalho. Mas a inclusão financeira das mulheres também passa pela digitalização e é primordial para reduzir a desigualdade econômica de gênero.

O acesso a tecnologias e inclusão digital permeiam boa parte do plano de ação construído por seis entidades supranacionais que mostram como governos e empresas podem reconstruir a economia local com mais força após covid-19, priorizando a inclusão financeira das mulheres.

“Durante a última década, a economia e inclusão financeira tornaram-se prioridades crescentes para governos e empresas, impulsionadas por evidências de que seus benefícios vão desde o aumento da produção da agricultura, maior resiliência de negócios, maior retenção de clientes e crescimento do PIB. Os resultados têm reforçado a importância da remoção de barreiras estruturais para a participação ativa das mulheres na economia formal.”

Este é o primeiro parágrafo da introdução do relatório assinado por: organização sem fins lucrativos Women’s World Banking; a Better Than Cash Alliance (organização que visa acelerar a transição do dinheiro para pagamentos digitais); o Banco Mundial; a ONU Mulheres; o UNSGSA (escritório da ONU para Finanças Inclusivas para o Desenvolvimento); e o UNCDF (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas).

“Apesar dessa evidência, a lamentável verdade sobre os desafios de fornecer serviços digitais de finanças para mulheres fica evidente em um recente relatório do G20. Em muitos países, os direitos das mulheres ainda são não protegidos por lei. Muitas mulheres carecem de acesso a identificação formal e, portanto, são incapazes de abrir uma conta bancária, possuir propriedade ou desenvolver um histórico de crédito, que são essenciais para economizar, construir ativos, obter um empréstimo, abrir ou expandir um negócio. Muitas mulheres não conseguem nem um celular básico para enviar e receber dinheiro”, segue o documento.https://a17ceb5d93493ae9d976d75672a2dcb1.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Leia também: O que Melinda Gates e o presidente do Banco Mundial têm a nos dizer sobre a desigualdade no pós-covid

Parte da culpa por isso acontecer é histórica e cultural. Realmente entramos tarde no mercado de trabalho, começamos há pouco a ganhar nosso próprio dinheiro – ainda que somos constantemente julgadas por querermos ser ambiciosas – e somos muito pouco representadas nas empresas que tomam essas decisões, como as de serviços financeiros. É fácil ver uma caixa de banco mulher, mas ainda são raras as que ocupam postos de diretoria e conselho de administração – quem realmente tem o poder de decisão e segura a caneta.

Vários prestadores de serviços financeiros ainda não perceberam como clientes mulheres podem ser um segmento lucrativo e não investem em produtos, serviços ou canais que atendam às necessidades das mulheres.

A bancarização passa pelas mulheres – são elas que, em grande maioria, fazem a gestão da casa e recebem benefícios sociais para cuidar da família. Além disso, é inegável que, sem estarem incluídas no sistema financeiro, elas não têm acesso a investimentos que minimamente as ajudem a não perder poder de compra (indexados à inflação, por exemplo) e a rentabilizar o dinheiro pensando na aposentadoria ou para planos futuros.

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No Brasil, mal conseguimos ultrapassar a barreira de 30% das mulheres investidoras no Tesouro Direto, o indicador que melhor estamos posicionadas em representatividade.

Sei que vocês devem estar já querendo saber o que, então, essas entidades tão relevantes e com tanta experiência em pesquisa e atividades de campo podem sugerir para mudarmos esse quadro, mas queria trazer um último ponto não explorado no relatório, o da injustiça algorítmica, a qual já dediquei um artigo interior aqui do blog (LEIA AQUI).https://a17ceb5d93493ae9d976d75672a2dcb1.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Em resumo, toda a análise de dados – inclusive usada para concessão de crédito, seleção de pessoas para vagas de emprego, criminalidade etc. – tem como base dados muito enviesados. Dados produzidos e usados por uma esmagadora maioria de homens brancos e que contempla pouquíssimo a diversidade que realmente temos no Brasil e no mundo.

Com mulheres historicamente tendo pouco acesso à vida digital, também temos menos informação para analisar seus padrões e fazer os tais julgamentos que os algoritmos fazem.

Plano de Ação

A premissa do plano de ação proposto é simples: “Equipar mulheres e meninas com ferramentas financeiras e habilidades digitais levará a um futuro mais sustentável na esteira da covid-19.” Na prática, quer acabar com a exclusão econômica de metade da população mundial, o que trará consequências positivas para todos – governos, empresas, cidadãos.

As 10 ações são igualmente importantes e não são etapas sequenciais – pelo contrário, se implementadas ao mesmo tempo podem acelerar ainda mais os efeitos que queremos ver. São elas:

  1. Digitalize o sistema privado de pagamentos
  2. Digitalize o sistema de pagamento de benefícios sociais do governo
  3. Criminalize a discriminação contra as mulheres
  4. Assegure acesso universal à identificação
  5. Coloque um fim na diferença de acesso a smartphones de homens e mulheres
  6. Contrate mulheres para trabalhar no sistema bancário e de operadoras de celular
  7. Colete, analise e use dados desagregados por gênero
  8. Desenhe produtos financeiros apropriados e acessíveis para mulheres
  9. Ajude mulheres a se beneficiar das oportunidades vindas do e-commerce
  10. Crie e imponha mecanismos de proteção financeira do consumidor no ambiente digital

Para quem se interessa em saber mais detalhes, seguem:

1.Digitalize o sistema privado de pagamentos

Ao menos 80 milhões de mulheres no mundo que não têm conta em instituição financeira continuam a receber pagamentos de salários em dinheiro por trabalhos feitos no setor privado, segundo o relatório. Um exemplo do impacto de uma mudança neste sentido foi visto com o grupo têxtil GAP. Ao mudar o pagamento de seus fornecedores indianos para o meio digital, foi registrada uma economia de tempo equivalente a ter 16 trabalhadores em tempo integral a mais nas linhas de produção por mês, além de uma redução de até 20% da rotatividade de funcionários.

“Antes de ter uma conta bancária, não economizava dinheiro regularmente. Eu costumava trazer o meu salário inteiro para casa em dinheiro e dar para minha família. Agora, a cada pagamento eu coloco algum dinheiro na conta e posso começar a pensar em planos para o futuro”, diz em depoimento Taslima Sultana Khanam, presidente do Fórum de Desenvolvimento da Mulher Brahminbaria Sadar, em Bangladesh.

2.Digitalize o sistema de pagamento de benefícios sociais do governo

No Brasil, nosso histórico com o Bolsa Família acabou ajudando a digitalizar as mães que são as beneficiárias (elas recebem em uma conta da Caixa Econômica Federal), mas durante a pandemia, com a necessidade de prover auxílio emergencial às pessoas, o próprio governo admite que havia muitos “invisíveis”, sem conta bancária, sem registro, sem cadastro social. Dentre eles, também mulheres.

Digitalizar esses pagamentos é uma forma comprovada de impulsionar a inclusão financeira. Por exemplo, 85 milhões de mulheres abriram sua primeira conta para receber pagamentos de salários do setor público, e outros 80 milhões o fizeram para coletar benefícios sociais do governo.

3.Criminalize a discriminação contra as mulheres

De acordo com a base de dados do Banco Mundial, 115 economias do mundo que têm alguma lei que impede as mulheres de administrar um negócio da mesma forma que os homens e 167 países têm pelo menos uma lei que restringe as oportunidades econômicas das mulheres.https://a17ceb5d93493ae9d976d75672a2dcb1.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Por exemplo, em vários países ao redor do mundo, as mulheres não podem pedir documentos de identidade ou abrir conta bancária com a facilidade que os homens. Um dos principais desafios citados é que o dinheiro é visto como o domínio dos homens e a sociedade não vê como papel da mulher ganhar dinheiro ou ter o direito de tomar decisões financeiras.

Bagagem legal contra a discriminação é, portanto, outro alicerce essencial para a inclusão financeira das mulheres.

4.Assegure acesso universal à identificação

Parece estranho, mas ainda há problemas em alguns países de falta de identificação individual, como nos países da África Subsaariana, onde as mulheres têm 9% menos chance de ter um simples documento de identidade. E obviamente elas precisam disso para comprar chip de celular e contratar pacote de dados. Muitas vezes essa dificuldade extra acontece porque a mulher depende de autorização formal do marido (ou o nome do parceiro pelo menos) para poder tirar o documento de identificação.

5.Coloque um fim na diferença de acesso a smartphones de homens e mulheres

Quando contabilizadas as pessoas que possuem um celular, os homens estão na frente das mulheres por 7 pontos percentuais. Além da barreira financeira mesmo para comprar o seu, têm famílias que não incentivam (ou nem permitem) que as mulheres tenham seus próprios aparelhos porque acreditam que o aparelho “as distraem” dos trabalhos domésticos.

Muitas, inclusive, são menos propensas a usar o celular para transações financeiros porque não têm nem dinheiro para pagar por pacote de dados ou mesmo conectividade em sua região. A falta de infraestrutura prejudica a conexão e encarece o serviço e, portanto, pode ser um importante fator de mudança se governos ampliassem seus investimentos em infraestrutura de telefonia celular. Isso ajudaria para que os moradores e moradoras de áreas rurais entrem de vez na era dos serviços financeiros digitais.

6.Contrate mulheres para trabalhar no sistema bancário e de operadoras de celular

A desigualdade de gênero no setor financeiro não é novidade. Enquanto alguns lugares avançam mais rápido na contratação de mulheres, outros, como a Índia, por exemplo, ainda têm números baixíssimos. Só 22% dos funcionários de bancos são mulheres. Em empresas de microfinanças, o percentual de indianas é ainda menor, 12%. O problema é que as mulheres ainda apontam que não se sentem tão confortáveis em serem atendidas por homens.

Alguns bancos na Ásia e na África, por exemplo, têm “agências exclusivas para mulheres”, onde todas as funcionárias oferecem um serviço seguro e ambiente livre de assédio para clientes mulheres fazerem suas transações financeiras e tirarem dúvidas.

7.Colete, analise e use dados desagregados por gênero

Dados são de extrema importância para a construção de políticas públicas efetivas e produtos inclusivos. São fonte para saber quais os impedimentos para a inclusão financeira de mulheres, como a cobertura de internet para mulheres e homens, e saber quais os reais resultados de se empregar mais mulheres e focar nelas como clientes (ter mais lucro e aumentar volume de transações financeiras).

Os governos devem incentivar as instituições financeiras e de telecomunicações a fornecer dados anônimos desagregados por sexo como parte dos requisitos de relatórios fiduciários e esses dados devem ficar disponíveis para formuladores de políticas, profissionais e pesquisadores. No Chile, o regulador faz esse coleta de dados há 14 anos.

8.Desenhe produtos financeiros apropriados e acessíveis para mulheres

Em comparação com os homens, as mulheres recebem uma parcela maior de sua renda por remessas e transferências (de programas sociais, por exemplo). São também as principais responsáveis por cuidar de parentes mais velhos, criar filhos, cuidar de propriedades rurais familiares e organizar negócios paralelos para arrecadar dinheiro extra. Também é mais envolvida no financiamento de eventos familiares, como funerais e casamentos.

“Cada uma dessas realidades apresenta desafios e oportunidades financeiras. As mulheres têm necessidades financeiras e não-financeiras diferentes, dependendo de onde estão em seu ciclo de vida”, reforça o relatório.

9.Ajude mulheres a se beneficiar das oportunidades vindas do e-commerce

Flexibilidade de trabalho ficou ainda mais relevante na pandemia e as ferramentas de vendas pela internet (e-commerce) podem ser importantes para ajudar mulheres do mundo inteiro a empreenderem e conseguirem seu sustento.

A criação de incubadoras virtuais ou presenciais e o fornecimento de orientação sobre empreendedorismo e gestão empresarial podem também ajudar – e muito – mulheres empresárias a fortalecerem seus modelos de negócios de comércio eletrônico, melhorar e ampliar sua capacidade de pagamentos digitais e fazer marketing digital.

10.Crie e imponha mecanismos de proteção financeira do consumidor no ambiente digital

Por último e não menos importante, vem a proteção por meio da transparência de preços e termos dos produtos e serviços, além de políticas claras de uso de dados e segurança do consumidor. A Better Than Cash Alliance criou um “Guia de Pagamento Digital Responsável” para dar algumas sugestões às empresas (veja aqui).

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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