Blog Naiara com Elas – Mulheres no Topo: quem é a primeira brasileira negra a chegar ao topo do Monte Everest

Aretha Duarte é um exemplo de superação, de determinação e de gestão financeira – entenda por quê

Aretha Duarte, montanhista e primeira mulher negra e latina e chegar ao pico do Everest — Foto: Instagram /Arquivo pessoal
Aretha Duarte, montanhista e primeira mulher negra e latina e chegar ao pico do Everest — Foto: Instagram /Arquivo pessoal

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 24/05/2021

Há algumas semanas, um assessor de imprensa conhecido meu, o Marcus, me propôs uma conversa com a montanhista Aretha Duarte, que está em uma empreitada para atingir o pico do Monte Everest. Até então, eu não a conhecia, mas pessoalmente sempre admirei pessoas que topassem correr tantos riscos em esportes mais ‘radicais’. Afinal, atingir o lugar mais alto do mundo – o Everest tem 8.849 metros – não é para zona-conformistas e nem para despreparados. E Aretha tinha muito mais para provar chegando lá: seria a primeira negra latino-americana a conquistar o feito.

Títulos importam muito quando o objetivo é chamar a atenção para um histórico desnível de oportunidades, de crédito (merecimento) e de renda. E mulheres negras são sempre – e em todas as pesquisas – as mais discriminadas em todos os aspectos, as que sofrem com maior desigualdade.

Dito isso, sem nem conhecer Aretha eu a respeito e admiro muito. É preciso uma força de vontade descomunal e, na minha opinião, muito baseada em fé – pessoal ou divina – para ficar durante dois anos se preparando para isso, sair atrás de patrocínio para uma viagem que custa em torno de US$ 67 mil (ou R$ 355 mil na cotação atual).

Ainda vou conversar com Aretha para conhecer toda a história, da glória conquistada neste domingo de madrugada (aqui no Brasil) à toda a sua bagagem que a levou até ali. Mas já queria trazer a vocês algumas coisas que eu sei e que me fizeram, como jornalista e apaixonada por cases de mulheres poderosas e inspiradoras, brilhar os olhos para contar a história de Aretha.

Experiência de vida

Não há santo que tire de você sua experiência na vida. Somos a soma de tudo que vivemos, de todos os diálogos – bons e maus – que temos, dos “nãos” e “sins” que ouvimos e que podem nos desanimar ou nos incentivar.

Aretha foi criada em um ambiente humilde. Nascida na periferia da cidade de Campinas, interior de São Paulo, começou a recolher lixo reciclável durante a infância para comprar os próprios brinquedos.

A paixão pelo montanhismo começou quando cursava a faculdade de educação física, em 2004, como ela conta em uma entrevista ao portal UOL em meados do ano passado. Durante uma palestra ela ficou sabendo do esporte e se entusiasmou com a possibilidade de trabalhar com esportes outdoor.

A partir daí, passou a integrar a equipe de uma operadora de montanhismo, fez cursos de escalada em rocha (eu acho MUITO DIFÍCIL, gente!), praticou bastante, virou guia da empresa e foi construindo mentalmente a ideia de se profissionalizar cada vez mais no esporte.

Foi em 2012 que ela, pela primeira vez, foi a um campo base de uma grande montanha, no caso a do Monte Aconcágua, na Argentina, a 6.962 metros de altitude. Voltou lá outras quatro vezes. Depois, chegou a ir até o campo base do Everest.

Em 2019, a sensação de que ela precisava chegar ao topo do mundo bateu forte quando ela via fotos do “Vale do Silêncio” coberto de neve.

E, como muitos brasileiros, ela percebeu que o sonho permite tudo, mas a realidade nem sempre é tão fácil assim, ainda mais para quem não tem dinheiro suficiente para realizá-la.

Esforço e investimento

E aqui entramos na parte em que muita gente para – ‘de sonhar’, desiste, põe de lado e se arrepende anos mais tarde de nunca ter nem tentado. Ela não apenas levou adiante o sonho que se esforçou muito para realizá-lo a despeito das já conhecidas adversidades que mulheres e especialmente as negras sofrem neste país.

Sua experiência com o lixo na infância a fez ver a importância de chamar a atenção para a causa, assim como ser exemplo para outras mulheres. Foi com esse propósito – de causar impactos no meio ambiente e na sociedade – que ela levou adiante a ideia de subir a montanha mais alta do mundo.

Primeiro levantou os valores: o orçamento necessário para a preparação e o feito giraria em torno de R$ 250 mil. É muito, ainda mais se considerarmos que um salário médio de um profissional de educação física no Brasil não ultrapassa R$ 3 mil e ela não tinha reservas.

Ela voltou ao lixo. Começou a coletar materiais para reciclagem. “O primeiro passo foi começar a catar latinhas e outros materiais recicláveis, algo que eu já fazia desde a infância para comprar meus brinquedos”, conta Aretha antes da viagem. Foram 13 meses de domingo a domingo, coletando e vendendo materiais e, com a ajuda de amigos e familiares, conseguiu juntar mais de 130 mil quilos de materiais.

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“Se eu não tivesse começado, essa quantidade de lixo não teria sido recolhida. Mas eu quero ir muito além. Escalar a maior montanha do mundo é só o começo”, disse Aretha.

O dinheiro arrecadado não apenas a ajudou na viagem como também foi em parte destinado ao Centro de Treinamento de Escalada e para a criação de um Instituto Educacional na região de Campinas.

“Eu desejo muito que jovens periféricos tenham oportunidades para poderem fazer melhores escolhas. Eu tenho certeza que se a gente garantir acesso às oportunidades para desenvolvimento pessoal, teremos uma sociedade nivelada para cima, exemplar”, disse a montanhista.

Aretha Duarte, em post em seu Instagram no dia 16/05, à espera de condições climáticas ideais para continuar a subir — Foto: Instagram
Aretha Duarte, em post em seu Instagram no dia 16/05, à espera de condições climáticas ideais para continuar a subir — Foto: Instagram

Também pediu doações e foi atrás de quem acreditasse em seu sonho.

Aretha também fez bazares nos quais vendia roupas, equipamentos de escalada e contou com dinheiro doado por conhecidos. A partir do segundo semestre de 2020, algumas empresas também começaram a apoiar a ideia. No total, hoje são oito patrocinadores, entre eles, Monte Bravo Investimentos, Moove Brasil, Brasilspot, Dardak Jeans e The North Face.

Os patrocínios com certeza são importantes. Infelizmente, as empresas são pouco interessadas em apostar em pessoas que realmente podem fazer a diferença entre círculos sociais menos favorecidos e preferem ir para influenciadores já consagrados que lhe darão mais visibilidade.

Investir em mulheres incríveis é quase um dever da nossa sociedade para compensar uma partezinha de tudo que já deixamos de fazer por elas, de todas as portas que fechamos, de todas as oportunidades que tiramos ou simplesmente não oferecemos. Dar voz a essas mulheres incríveis faz parte de uma compensação midiática de décadas de baixa diversidade e representatividade. É isso que tento mudar com este blog e com o projeto Minas de Valor.

Aos 37 anos, às 10:24 (horário nepalês) e 01:39 (horário de Brasília) deste domingo (23/05), Aretha Duarte se tornou a primeira mulher negra latino-americana da história a conquistar o lugar mais alto do mundo. Parabéns pela garra infinita e muito obrigada pelo exemplo que você dá a tantas outras mulheres e meninas!!!

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Inspiração

Uma amiga, Bruna Marcelino, que conheceu Aretha em julho de 2019 na agência de escalada Grade 6, quando Aretha estava começando a se preparar para a empreitada, conta que ela é uma das grandes inspirações para seu sonho pessoal: subir o Everest.

“Na época eu conversei com o Carlos Santalena (sócio da agência) e com ela. E traçamos um planejamento de 5 passos e em paralelo escolhi a corrida como prática de exercício físico para preparação”, conta Bruna, que hoje é estrategista-chefe da Necton Corretora. Os cinco passos envolvem: fazer um curso de escalada em rocha no Brasil, um curso de escalada em gelo na Bolívia, subir vulcões no Equador pra ganhar experiência em alta montanha, subir o Aconcágua e, se tudo der certo nos passos anteriores, estará apta a subir o Everest. #CORAGEM

O objetivo é chegar ao Everest em seu aniversário de 40 anos, daqui a sete, em abril de 2028. “Eu tenho acompanhado a Aretha desde quando ela decidiu ir para o Everest há pouco mais de um ano”, diz Bruna. “A história dela é muito inspiradora, ainda mais porque durante todo esse período de mais de um ano ela juntou muitos recicláveis pra ajudar no orçamento da expedição. Além disso, o logo que ela criou pra ela que foi usado na venda de camisetas (também pra ajudar no orçamento da expedição) é muito representativo porque é o cabelo de uma negra entre montanhas”, finaliza Bruna.

Logo da expedição de Aretha Duarte que representa a mulher negra — Foto: Divulgação

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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