Blog Naiara com Elas – Elefante na sala: por que não temos dados sobre concessão de crédito para mulheres?

Esse artigo é para apontar o principal erro quando falamos de dados – a falta de transparência em como ele é usado a nosso favor e contra

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo – 13/06/2021 

Dados é o novo petróleo. Em todas as reuniões, palestras, grupos de discussões só se fala dele: o dado. Na economia digital ele é rei – e levou muitas empresas ao trono mesmo, como Apple, Google, Amazon, Facebook, que desbancaram indústrias historicamente poderosas, como a de automóveis e a de petróleo, e ocupam agora os rankings de companhias mais valiosas do mundo. Mas a afirmação está errada, na minha opinião.

A riqueza não vem dos números, mas do que criamos a partir deles. “O desenvolvimento de produtos e serviços a partir da análise de dados é o novo petróleo”, estaria mais correto. O petróleo bruto não nos ajuda em praticamente nada, assim como o dado bruto não muda nada na nossa vida. É como o usamos e para qual finalidade que importa. É aí que mora a beleza e o perigo dessa nova economia.

Ao mesmo tempo em que usamos tecnologias como inteligência artificial (IA) para descobrir padrões de câncer em exames laboratoriais, nós deixamos de fora parte importante da população – os pobres, negros e mulheres – do acesso à crédito barato. A fonte de decisão – dados – é a mesma, mas a forma como a estamos usando é completamente diferente. Isso traz consequências gloriosas e desastrosas ao mesmo tempo.

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Fonte do problema

Todas as rodas de conversas sobre empoderamento feminino esbarram nesse tema: dificuldade que empreendedoras têm de conseguir um empréstimo em uma instituição financeira tradicional. Quando elas já têm conta na entidade, ainda têm a possibilidade de conseguir (ainda que os relatos mostram que a probabilidade seja baixa). Se nem conta tiverem, e, portanto, não tiverem um histórico financeiro de boa pagadoras para mostrarem, fica ainda mais difícil.

O que vemos na prática é que quem consegue, em muitos casos precisa pagar juros altíssimos e impeditivos. Outras, que não conseguem, recorrem a financeiras que cobrem juros ainda mais altos, ou usam o crédito mais caro que temos hoje: o rotativo do cartão de crédito e cheque especial. Isso sem contar quem se rende à agiotagem para conseguir comprar insumos e instrumentos para tocar seu negócio. As consequências disso não sabemos ainda, mas certamente não parece ser um final feliz.

No jornalismo, aprendemos a checar os números, ir atrás de fontes confiáveis, para entender se o que chega a nós é realmente verdade. Até para minimizarmos os nossos vieses e não passarmos adiante algo que só acontece em nosso círculo e não é a realidade geral.

Por isso, tenho procurado pesquisas que, com base em dados, mostram a real situação da concessão de crédito e se há mesmo diferenças na taxa de concessão, nos juros cobrados e no spread entre homens e mulheres, entre negros/pardos e brancos, e outras minorias. Seria, ao menos, o começo da conversa.

Depois, minha intenção era ir mais fundo e entender a relação dos algoritmos de concessão de crédito e de “scores” (notas que visa mostrar qual o risco de uma pessoa pagar ou não um empréstimo) com as injustiças que ouvimos falar. Afinal, já deixamos há anos de delegar às pessoas de carne e osso o poder de decidir massivamente quem recebe ou não crédito – tudo hoje é automatizado e embasado em inteligência artificial. Portanto, se algum problema existe, analisar o processo de tomada de decisão é primordial para entender onde a fonte da questão está.

Adivinhem o que encontrei? Nada. Simplesmente não há dados oficiais hoje disponíveis e abertos sobre a disparidade de acesso a crédito entre homens e mulheres – e menos ainda entre brancos e negros/pardos. Quem dirá, então, de minorias.

Todas as pesquisas que trazem algum número sobre isso são baseadas em relatos e não números oficiais. Fui, então, perguntar a quem deveria saber disso: o Banco Central. Afinal, é o supervisor do setor todo e tem poder para pedir a informação às instituições financeiras. Infelizmente, não me surpreendi com a resposta:

“Os técnicos consultados informaram que o BC não possui esse levantamento, não temos os dados solicitados por desagregação de gênero. Como opção, consulte a Febraban, talvez eles possam te ajudar”.

Fui, então, falar com a Febraban. “Não temos, aqui na Febraban, dados sobre juros spread tabulados da forma que você precisa”.

Fui além e procurei a Anbima, associação do mercado financeiro e de capitais que, em tese, é responsável por definir uma série de boas práticas para as empresas desses setores. Nada de dados de crédito segregados por gênero. A resposta foi tão vaga quanto as demais: “Verificamos por aqui, mas não temos o levantamento desses dados. Provavelmente é só o BC que tem.” [Observação: após a divulgação do artigo, a Anbima pediu para reforçar que não têm dados sobre concessão de crédito mesmo e por isso não pode ajudar].

Depois das negativas parei para pensar por que as três principais entidades do país que supervisionam as instituições financeiras não têm esses números? A conclusão que cheguei é que o motivo é muito simples: eles nunca pediram.

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Elefante na sala

A expressão “elefante na sala” é usada para falar de temas importantes, mas que não são falados, não são colocados na roda de conversa, de discussão. Geralmente tabus ou polêmicas. A desigualdade de concessão de crédito hoje no Brasil é um deles.

Quando vejo bancos públicos criando linhas especiais para microempresários e outras instituições abrindo crédito especificamente para mulheres empreendedoras, liga um alerta na minha cabeça. Estamos já tentando remediar a situação sem saber qual é a real situação, o que está por trás de todo o problema e onde ele realmente está.

Ações direcionadas ao público feminino, como o Fundo Dona de Mim, que provém microcrédito ao público feminino, iniciativa da Mulheres do Brasil, são primordiais para pelo menos compensar uma parte do problema. Iniciativas como a dos programas Itaú Mulher Empreendedora e Santander Ela, que provém crédito e prometem juros mais conta também ajudam, claro. Do lado das startups, o WE Impact, da Microsoft, e o venture capital Maya Capital, voltados para empresas de tecnologia fundadas ou com mulheres na sociedade e liderança, são excelentes.

Mas o problema anterior, o elefante na sala que ninguém quer falar sobre, persiste: a falta de visibilidade do que é considerado na tomada de decisão da concessão de crédito.

A transparência de dados é o Raio-X da situação, aquele exame que nos dá base para saber qual o nível da ‘doença’, quão rápido precisamos de tratamentos e o que precisamos mudar/aperfeiçoar em termos de padrões e hábitos.

Sem o raio-X fica difícil saber onde está o erro e nem teremos provas para mostrar e usar como argumento – legal ou não – de que há algo muito errado aí. Ficamos no campo da “percepção”. E aí não conseguimos usar aquela máxima: “contra fatos não há argumentos”. Não temos nem mesmo acesso aos fatos para construir os argumentos e sugerir soluções para o problema.

O próprio Banco Central abriu uma consulta pública (Números 85 e 86) este ano permitindo que entidades e organizações enviem sugestões sobre melhorias para suas regras de risco do sistema financeiro. A questão da sustentabilidade é trazida em toda a proposta. Porém, não há abertura alguma para falar de riscos que não estão facilmente expostos, como o risco reputacional para as empresas do setor financeiro de serem preconceituosas. Nem fala sobre prevenção de riscos, se limite ao olhar da remediação.

O máximo que podemos pedir é que exijam que os conselhos de tomada de decisão das instituições financeiras tenham mais diversidade. E que considerem riscos sociais subjetivos e como preveni-los. Não dão margem para conversarmos sobre regulação dos algoritmos de concessão de crédito e muito menos oportunidade de nós, como sociedade, falarmos que queremos saber qual é a real desigualdade nos empréstimos.

Ainda vou entrar, em artigo posterior, nas teorias que se formam de onde estão os problemas na concessão de crédito, mas queria me ater neste à total falta de transparência sobre o problema.

O que me irrita – mesmo – é que as empresas do setor financeiro estão fazendo com a sociedade a mesma coisa que fazem com os jornalistas: não comentam assuntos delicados; não assumem publicamente suas reponsabilidades e compromissos de mudanças. Para falar dos grandes feitos de seus algoritmos, falam sem problemas. Para explicar seus vieses e preconceitos, se calam.

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

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