Blog Naiara com Elas – Indicação ainda é principal porta de entrada de mulheres em conselhos

Para conseguirmos subir para mais de 20% de presença feminina no colegiado, órgão máximo das empresas, vamos precisar da ajuda principalmente dos homens

Valor Investe — São Paulo – 24/06/2021

O último Estudo de Conselhos de Administração da consultoria Korn Ferry, com dados de 2020, mostra que a presença das mulheres nos conselhos de administração das empresas brasileiras passou de 7% em 2014 para 14% em 2020, com base em informações de 81 empresas Apenas entre conselheiros independentes, o percentual de mulheres sobe para 20%, bem acima dos 7% de 2016. É uma boa notícia? Sem dúvida, mas ainda estamos muito distantes do que realmente precisamos. Nesta amostra apenas três mulheres são presidentes dos colegiados aqui, o que representa menos de 4% do total das empresas participantes.

Tão importante quanto comemorar os avanços, ainda que mais tímidos do que as empresas e a sociedade precisam, é entender como promover as mulheres ao topo. Quem chegou lá, chegou como? Quais as vias mais fáceis? Como estar preparada para quando a oportunidade pintar na porta?

Tenho escrito diversas reportagens que me permitiram conversar com muitas conselheiras. Isso me fez ver claramente que o caminho mais fácil para chegar aos disputados assentos é pela indicação.

Já sabemos que mulheres trazem/atraem mais mulheres. Pesquisa da FIA Employee Experience (FEEx 2020) mostra que, das 100 empresas qualificadas, apenas seis têm mulheres como CEOs. Nessas companhias, uma característica que se destaca diz respeito à representatividade feminina: o quadro de colaboradores fica mais equilibrado entre homens e mulheres, em todos os níveis de atuação.

Nas empresas com uma mulher no comando há um maior percentual feminino que atinge cargos de alta liderança: 42% das posições de alta diretoria são ocupadas por profissionais do sexo feminino. Já quando o CEO é homem, o número cai para 12%.

Mas se dependermos só de mulheres, que são ainda minoria em cargos altos e nos conselhos, vamos demorar séculos para conquistar a igualdade de gênero. Por isso, se indicação ainda é o principal meio de se chegar a um conselho, contar com apoio dos homens, que já estão lá, é fundamental para acelerar o processo.

Os conselhos ainda são ‘Clubes do Bolinha’. Não é raro ver conselheiros que estão há anos esquentando o assento e só convidam os seus para fazer parte do time. É natural que queremos trazer pessoas que pensem como a gente para trabalhar conosco, mas as pesquisas que mostram que a diversidade é benéfica e lucrativa apontam justamente para o aposto: quanto mais gente diferente, mais as empresas saem da zona de conforto, conseguem inovar e ganhar.

Neste ponto, não apenas as mulheres precisam trabalhar bem sua rede de relacionamento, como os homens que estão ocupando as cadeiras e têm o poder de indicá-las devem entrar nessa luta conosco.

A indicação é mais importante do que ‘head hunters’. Acredito que ao menos 80% das vagas são preenchidas assim. A maior parte dos conselheiros indica seus parecidos, o que é natural, mas as mulheres também precisam desses aliados”, comenta Leila Loria, co-presidente da WCD (Women Corporate Directors Foundation), organização global que atua no fomento da diversidade em conselhos de administração e conselheira profissional.

Entrevistei Leila para uma matéria que me encheu de alegria: 124 vagas de conselhos foram preenchidas por mulheres neste ano! Leia aqui.

Leia também:
Desigualdade tributária: como até a forma de coletar e usar impostos afeta mais as mulheres
Como fazer um bom marketing pessoal nas redes digitais

Homens são fundamentais

Temos alguns exemplos de executivos que encampam a bandeira, não apenas porque é “ESG” ou “pega bem”, mas porque veem resultados concretos de trazer mais mulheres para a bancada.

Algumas pessoas que são ativistas no tema e que merecem aplausos:

  • Carlos Takahashi (o Cacá), presidente da gestora BlackRock e conselheiro da Hapvida Saúde;
  • Fábio Barbosa, conselheiro da Natura, Itaú Unibanco, Cia Hering e outros;
  • Henrique Luz, conselheiro em diversas empresas, como Cellera Farma, Hospital Sírio Libanês, Burger King, IBGC, Grupo Maringá, Oi, IRB Brasil e outros;
  • Antonio Carlos Pipponzi, presidente do conselho de administração da Raia Drogasil;
  • Roberto Funari, presidente da Alpargatas;
  • Osvaldo Barbosa, sócio da gestora de venture capital KPTL e membro dos conselhos da Knewin, Docol Metais Sanitários e MindMiners;
  • Roberto Dagnoni, sócio do Mercado Bitcoin e membro do conselho da Sinqia, Distrito e IRB Brasil;
  • Fernando Carneiro, responsável pela área de Boards e CEO Practices da consultoria de recrutamento de altos executivos e conselheiros Spencer Stuart na América Latina e Brasil.

Esses são os que eu identifiquei em pesquisas com pessoas do mercado e obviamente essa lista deve ser maior e espero que cresça cada dia mais!

O número de empresas com três dos assentos ocupados por mulheres cresceu este anoPela primeira vez temos algumas companhias com quatro mulheres no “board”, como a Natura e TIM! Empresas como Raia Drogasil, que ano passado tinha apenas uma mulher entre as nove cadeiras, agora tem três entre 11 assentos, sendo duas independentes. Isso é um claro reflexo do fato do presidente do conselho, Pipponzi, ser apontado como um executivo que passou a ver valor em ampliar a diversidade de gênero no colegiado.

Experiência e relacionamento

O papo de “não contratei porque não encontrei ninguém qualificada” não cola mais. Iniciativas como a WCD e IBGC que têm banco de conselheiras e redes de contatos, as recrutadoras, como Spencer Stuart e Egon Zandler, preocupadas em encontrar mulheres competentes para indicar, além de inúmeras mulheres que já estão em colegiados que podem ajudar com indicações, deixa claro que esse discurso não vale mais como desculpa para a inércia e preguiça.

As três conselheiras com quem conversei para a reportagem citada acima (leia aqui), Marise Barroso, Juliana Buchaim e Ana Lucia Caltabiano mostram que têm experiência, conhecimento e vontade para se dedicar à carreira. Suas histórias mostram que para chegar lá, as mulheres também têm uma parte importante: se preparar para quando a oportunidade surgir e trabalhar na sua rede de relacionamento para cavar essas oportunidades.

Em termos de preparação, a experiência de estrada pode ser um grande diferencial. É o caso de Marise Barroso. Sua experiência em liderança de empresas (ela foi vice-presidente de Marketing da Avon e chegou ao posto de presidente na Amanco e Masisa), tratando diretamente de implantação de novas tecnologias e de princípios sustentáveis no ambiente corporativo torna Marise um ‘ativo’ valioso no segmento.

Hoje ela se senta em cinco conselhos de administração: InterCement Brasil, empresa do grupo Mover (ex-Camargo Correa), Mills Estruturas e Serviços de Engenharia, Prática Klimaquip, como representante do BNDESPar, Docile Alimentos e Amata, colegiado do qual ela é a atual presidente.

“Fui da primeira turma do Mulheres do Brasil, sou associada da WCD, participo dos eventos do IBGC, tudo que é possibilidade de ‘networking’ eu comecei a fazer parte. Mas não só no universo feminino. Apesar de existir o ‘Clube do Bolinha, não podemos criar o ‘Clube da Luluzinha’, é preciso navegar em universos também só masculinos. Identifique fóruns que pode estar presente e quanto mais abrir o contato, mais você vai ter visibilidade também”, dá a dica.

Ana Lucia Caltabiano, atual diretora de Recursos Humanos da GE no Brasil, é outro grande exemplo. Com mais de 30 anos de experiência em sua área, ela estava à procura de novos desafios quando decidiu fazer o curso de formação de conselheiros pelo IBGC. No colegiado da Mills desde abril de 2019, depois de ter sido indicada por um colega para o processo seletivo, este ano ela aceitou sua segunda vaga em conselho, para o conselho da InterCement. Boa parte de suas horas extras são dedicadas a estudar para as próximas reuniões para fazer realmente a diferença.

“Uma dica que posso dar para quem quer seguir o caminho é conversar com pessoas que já passaram por ou estão em conselhos. Isso me ajudou a entender como funcionava uma reunião. E as mulheres estão dispostas a ajudar outras mulheres, há redes poderosas de ‘networking’ que podem ser usadas. Faça mentorias ou tome um café com pessoas que podem te ajudar. E lembre-se: um ‘networking’ poderoso não é construído da noite para o dia”, comenta Ana Lucia.

Juliana Buchaim sempre trabalhou com o tema de governança corporativa em sua vida executiva, uma vez que está no mercado financeiro como analista e gestora de fundos desde 1998. Hoje é sócia e gestora da Sumauma Capital.

“A minha preparação começou há mais de quatro anos, me aproximando do IBGC, fazendo cursos, participando de sua Comissão de Inovação e passando por grupos de trabalhos dentro do instituto, participando também do PDEC [Programa de Diversidade em Conselho organizado pelo B3, IBGC, IFC, Spencer Stuart e WCD], com a oportunidade de reuniões mensais com um mentor que tenha uma experiência executiva e em conselhos riquíssima, Fabio Barbosa. Também sou associada ao WCD”, explicou para mim. Este ano ela entrou em seu primeiro conselho, da Arezzo.

Vale lembrar que, mesmo que, para algumas vagas, sejam contratados “head hunters”, os próprios profissionais de recrutamento também se valem de indicações de outros conselheiros e executivos para montar sua lista.

Outra dica é participar de organizações do terceiro setor como voluntária ou em startups e empresas pequenas para ganhar experiência em colegiados e começar a aparecer. Juliana conselheira consultiva da +60 Saúde, entidade com atuação focada na saúde de idosos, desde 2018, e da Behup (Behavior Tech), entidade da área de tecnologia e inteligência de dados, desde 2019. Marise foi do conselho do Instituto Akatu, focado em políticas de consumo consciente, por três anos. Ana Lucia começou no conselho do Instituto Ayrton Senna em janeiro de 2019 e ainda é membro ativo.

Com preparação, relacionamentos e indicações vamos acelerar esse processo de inclusão! Dedos cruzados.

Leia também: 10 passos para chegarmos à igualdade financeira de homens e mulheres

Artigo publicado originalmente no Blog Naiara com Elas no Valor Investe

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: