Blog Naiara com Elas – Estamos aumentando a fila do banheiro feminino. Que bom!

Em dois anos muita coisa vem mudando e a jogadora de futebol Marta Silva, a surfista Maya Gabeira e a empresária Rachel Maia são símbolos evidentes da transformação em curso

Artigo originalmente publicado no Blog Naiara com Elas no site Valor Investe em 27.08.2021

Por Naiara Bertão

Neste dia Dia Internacional da Igualdade Feminina, quero trazer boas notícias: em dois anos, muita coisa vem mudando e estamos vendo muitas mulheres se interessando mais por finanças, investimentos, equidade salarial e direito. Uma revolução está em curso – finalmente a vemos!! E a jogadora de futebol Marta Silva, a surfista Maya Gabeira e a empresária Rachel Maia são símbolos evidentes dela.

Há pouco mais de dois anos, logo no início deste blog, eu escrevi um artigo intitulado “Vamos aumentar a fila do banheiro feminino?”, uma provocação feita a partir de algo que me incomodou muito: o tamanho da fila do banheiro dos homens era três vezes maior do que o das mulheres em um megaevento que a XP Investimentos promoveu em julho de 2019, o Expert XP, ainda presencialmente.

Era algo que nunca havia me deparado, já que estou acostumada a longas e demoradas filas para chegar ao toilet feminino em qualquer lugar. Mas a proporção de público naquele evento era tão tão tão desigual que ela ficou muito evidente naqueles corredores abarrotados do Transamerica Expo Center, por onde circularam mais de 10 mil pessoas.

Hoje, passados pouco mais de dois anos e exatamente na mesma semana em que a XP volta a fazer seu Expert, agora 100% on-line, o quadro já me parece outro. A começar pela própria audiência: segundo a XP, este ano, 46% da audiência é feminina ante 42% do ano passado, que já foi no formato on-line.

Além disso, a questão da representatividade feminina entre os palestrantes. Em 2019, eu havia contado 19 mulheres entre os 160 palestrantes confirmados, o que dava em torno de 12% de participação feminina no palco.

Este ano, em um evento totalmente on-line, o número de painéis aumentou bastante e o número de palestrantes aumentou muito – 393 pessoas entre palestrantes e mediadores em quatro dias de evento (sim, eu contei um por um no site da programação!). Desse total, são 134 mulheres (34% do total).

  • Expert XP 2021 – Panelistas e mediadores dos eventos, por dia:
  • Dia 23: 30 homens e 11 mulheres
  • Dia 24: 124 homens e 43 mulheres
  • Dia 25: 123 homens e 45 mulheres
  • Dia 36: 116 homens e 35 mulheres
  • Total: 393 homens e 134 mulheres —> Representatividade feminina “no palco”: 34% do total

Neste número, porém, há repetições, do lado dos homens e mulheres porque muitos funcionários e influenciadores da XP aparecem em mais de um painel. Mas, mesmo assim, dá para ver que aumentou bastante a representatividade feminina “no palco” do evento deste ano. E muito mais pessoas negras, sem dúvida, entre painelistas e apresentadores. A XP oficialmente divulga que são 40% de palestrantes mulheres este ano, ante 33% do ano passado.

Podem ter certeza que isso foi pensado, que a XP buscou sim, intencionalmente, incluir mais os grupos subrepresentados do que em eventos anteriores. E o motivo não é só para parecer ‘bem na fita’, mas porque há uma pressão real e crescente de consumidores, investidores, jornalistas e outros “stakeholders” em todas as empresas (eu, particularmente, foco mais nas cutucadas ao mercado financeiro) para a promoção da igualdade e inclusão. Uma tendência mundial que nunca se viu tão grande como agora.

Mas não é só isso. Vou me ater às mulheres aqui. Somos uma força econômica poderosíssima e estamos apenas no início da nossa trajetória como profissionais de sucesso, que ganham dinheiro e que precisam aprender mais sobre finanças e investimentos. À medida que vamos galgando postos mais altos nas organizações, nas empresas que criamos e nos nossos estudos, vamos também potencializando nosso salário.

Evidência clara disso é que só contabilizando o trabalho doméstico (lavar, passar, limpar, preparar refeições, cuidar da família) no PIB [medida de desenvolvimento econômico], o mesmo aumentaria em pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global, segundo a Oxfam.

Se esse trabalho fosse compartilhado com os homens, sobraria mais tempo para as mulheres trabalharem mais, ganharem mais dinheiro e teriam ainda mais recursos para consumir e investir. E nem estou mencionando ainda as mulheres que não trabalham – muitas porque os respectivos companheiros ou pais não permitem.

Há muitos ‘dinheiros’ por aí que não são ainda gerados pelo trabalho e crescimento profissional da mulher e que vai começar a entrar no sistema financeiro – um filão que as empresas de investimentos já perceberam.

Na época em que escrevi aquela coluna que mencionei lá em cima, dos 1,05 milhão de investidores de ações, apenas 21,2% eram mulheres. No fim de 2019, éramos 23,3% do total (388,6 mil mulheres). Em julho de 2021, último dado divulgada B3, a participação feminina está em 27,84% (são 1.075.384 investidorAs).

Igualdade Feminina

E não é à toa que essa transformação (ou o que eu gosto mesmo de classificar de “revolução” porque trará muitas mudanças impactantes na nossa sociedade) está em curso. Isso ficou evidente no último painel da Expert no dia 25 de agosto, quando o palco foi preenchido, entre presenças físicas e virtuais, por seis mulheres que estão participando ativamente dessa transformação.

As painelistas convidadas Marta Silva, jogadora de futebol, Maya Gabeira, surfista, e Rachel Maia, empresária, conselheira e mentora, trouxeram sua visão sobre a importância da luta por salários iguais entre homens e mulheres, por exemplo.

Thienne Czizeweski, gerente de produto da área de Recursos Humanos da XP, envolvida pessoalmente nas discussões de diversidade e inclusão dentro do grupo, já trouxe logo para o começo do debate um tema super importante: a desigualdade salarial entre gêneros.

“A equidade salarial entre homens em mulheres é uma luta constante, não somente no esporte. A gente tem melhorado. Ainda que a passos lentos, estamos seguindo para frente. Conseguimos, por exemplo, que a Confederação Brasileira de Futebol – CBF – determinasse salários iguais em jogos da seleção, mas existe ainda uma diferença gritante em relação ao futebol masculino e feminino, em salários de clubes e patrocínios, mas continuamos lutando para diminuir a diferença a cada dia”, disse. O mesmo, reforçou, vale para o investimento no futebol feminino, que ainda está muito longe de chegar próximo ao que é destinado ao masculino. “Remuneração tem que ser suficiente para dar oportunidades.”

Marta Pinheiro, sócia e diretora ESG da XP, quem está liderando a importante missão de levar o grupo à equidade de gênero até 2025, provocou Rachel Maia sobre as semelhanças entre o mundo do esporte e corporativo.

“Independente do segmento, é uma questão cultural, o machismo na América Latina é muito forte. Mas é uma mudança que veio para ficar. Viemos para mudar e, neste momento transitório, podemos sim esperar o processo equitativo, mas não pode ser a passos lentos. Não podemos ignorar que muitos segmentos estão mudando a passos mais lentos que outros, mas também não podemos ignorar que têm muitas empresas tentando entender como fazer essa mudança. Quem não prestar atenção à variável “S” (social) do ESG e começar a ser mais equitativo, será eliminado. O consumidor vai perceber as empresas que não trazem propósito”, disse Rachel.

Glenda Kozlowski, jornalista esportista, chama a atenção para algo também muito importante que é a representatividade e o direito das mulheres. No caso da representatividade, ela lembrou que a presença de Maya Gabeira no surfe inspira muitas novas profissionais, atletas. Mas, ao mesmo, ela precisa ainda ouvir de colegas e outras pessoas para ela não se arriscar, que ela é “maluca” (quem nunca ouviu?) e que ela vai morrer.

Será que ela precisa desse aviso? Será que ela não sabe dos riscos de se surfar ondas que chegam a equivaler a um prédio de mais de 20 andares? Será que ela simplesmente não tem o direito de querer se arriscar neste nível?

Maya, que tem dois recordes mundiais em ondas gigantes, disse que ela mesma repensou nos últimos anos os riscos que tomava e tomou decisões que ela achava as mais adequadas para ela – e não porque outros falavam.

“Sempre busco motivações para ir me aperfeiçoando no esporte. Depois que bati o segundo recorde também tentei buscar coisas diferentes para me motivar. Escrevi um livro infantil, estou terminando o documentário que venho filmando há 10 anos. Quando você treina muito e conquista algo que queria, dá um vazio depois. E é importante dar espaço para se ouvir, se reenergizar e se renovar”, diz.

Hoje, ela disse que entra nas ondas mais consciente dos riscos que corre porque quer sair dela, estar viva para novos desafios. E deixa uma mensagem final muito relevante:

“Nós somos 10 milhões de vezes mais aquilo que acham de nós. Precisamos acreditar em nós mesmas, e o importante é estar sempre motivadas, é acordar com objetivos, querendo melhorar e evoluir. Se vamos conquistar nosso objetivo final ou não, às vezes conquistamos outro objetivo no processo que é até maior que o sonho”, diz.

As mulheres ali simbolizam a representatividade tão valiosa para mostrar que somos capazes de jogar futebol, de surfar ondas gigantes, de administrar negócios bem-sucedidos, de levar igualdade de oportunidade a mais mulheres no ambiente corporativo, de sermos bem-sucedidas em nossas carreiras e gerirmos melhor também nossos medos e sermos donas das nossas decisões – financeiras ou não.

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