Blog Naiara com Elas – O que é síndrome de burnout e porque precisamos falar sobre ela nas empresas

Os excessos de trabalho e preocupações e a falta de tempo livre estão fazendo muito mal às pessoas, em especial às mulheres. As buscas pela ‘síndrome de burnout’ cresceram 60% neste ano, segundo o Google. Entenda melhor esse problema

Artigo originalmente publicado no Blog Naiara com Elas no site Valor Investe em 28.09.2021

Por Naiara Bertão

Olá, pessoal.

Vou começar este artigo com uma pergunta simples e direta: Com que você gasta seu tempo? Quanto tempo você está deixando para descansar, para ler um livro, ir a um parque, encontrar amigos, ficar com o seu companheiro, assistir alguma coisa boba na TV, ou mesmo olhar pro teto? Já vou responder logo aqui a minha reflexão quando me fiz essa pergunta esta semana: menos do que eu deveria. Bem menos.

No artigo anterior falei sobre a vontade que às vezes (agora com mais frequência até do que antes em muita gente) de jogar tudo para o alto e ir, literalmente, vender coco na praiaEstamos todos sobrecarregados – alguns bem mais que os outros, claro. Mas somos poucos os que de fato param para respirar, divagar, bobear nas horas vagas. E me incluo no time de quem não tem feito isso.

É nesse cenário de trabalho, pressão dos outros, mais trabalho, um pouco mais de auto pressão, mais trabalho e poucos tempos livres, de qualidade, que ela floresce: a Síndrome de Burnout. Já vou explicar. Desde que entrevistei a jornalista Izabella Camargo para o podcast Pod Isso, Meninas? e li seu livro (Dá um tempo!) venho refletindo sobre o tema.

E percebi que não sou só eu. Pedi ao Google Trends, braço de dados do Google, para pesquisar para o blog como estava a demanda pelo termo burnout. A primeira constatação foi triste: das 10 cidades no MUNDO que mais procuraram por “Síndrome de Burnout’ no buscador este ano, três são brasileiras: Salvador, em segundo lugar, São Paulo, em oitavo, e Rio de Janeiro, em nonoA cidade holandesa de Amsterdã lidera o ranking.

Antes de avançarmos, o que é esse tal de burnout? Quem explica ao blog é Daniele Costa, especialista em gestão de pessoas, mentora e idealizadora da Plataforma da Vida, portal de conteúdo e serviços voltados para autoconhecimento e gestão emocional.

“A síndrome do Super-homem ou da Mulher Maravilha. É assim que enxergo o Burnout. Trata-se de um transtorno que acomete a maioria das pessoas que tem um nível de exigência e perfeição acima da média.

As características mais comuns encontradas em quem sofre essa síndrome são: ter de provar o seu valor o tempo todo, dificuldade em se desligar do trabalho, dificuldades em relaxar e ter momentos de prazer e lazer, dificuldades em socializar, constante insatisfação consigo e com os outros (nunca está bom o bastante), fuga de problemas pessoais e situações mal resolvidas na vida, dificuldades em alinhar vida profissional e pessoal, mudanças repentinas de comportamento, humor inconstante, dificuldades em dizer não e assumir responsabilidades além do que cabe à pessoa, entrando muitas vezes em situações abusivas.

E assim, vivenciando esse ciclo, a pessoa chega em uma estafa física e mental, levando muitas vezes a realizar as coisas de forma automática, perdendo o prazer e conexão com a própria vida”.

Vocês sabiam que em 2021, as consultas por “sintomas da Síndrome de Burnout” cresceram 60% em comparação aos oito meses anteriores a janeiro de 2021? E que somente nos primeiros oito meses de 2021, a procura por “burnout” cresceu 30% quando comparado a todo o ano de 2020? E que estamos no seu segundo maior nível de pesquisa sobre do termo da série histórica do Google Trends, iniciada em 2004? O recorde de interesse para a síndrome ainda é o ano de 2019.

Já estávamos doentes antes da pandemia, mas a pandemia agravou o quadro para muita gente ao agregar mais responsabilidades pessoais às pressões profissionais que martelavam na nossa cabeça. “Para as mulheres, então, em que, neste período, dar conta de tudo é quase adjetivo, a síndrome fica ali à borda”, pontua Daniele.

E tem mais:

  • Nos últimos cinco anos, as consultas por “burnout” dobraram no Google no Brasil.
  • Buscas sobre o que é a doença, sintomas e significado da palavra “burnout” são algumas das consultas mais frequentes sobre a síndrome no Brasil em 2021 (lista completa de perguntas mais buscadas está no fim do artigo).
  • As cidades brasileiras que mais buscaram por Síndrome de Burnout nos últimos 12 meses foram todas as capitais estaduais: Salvador, Brasília, Goiânia, Porto Alegre e Fortaleza.

Este é um problema associado demais com o ambiente corporativo e o padrão de sucesso que tentamos seguir. Geralmente as vítimas de Síndrome de Burnout são apaixonadas pelo que fazem, muitas workaholics (viciados em trabalho). E nós cultuamos por muitas décadas os workaholics, como se este fosse o caminho para o sucesso profissional e para atingirmos nossas ambições financeiras. Houve uma glamourização da cultura das horas extras que nada mais fez do que levar muitas pessoas para a cadeira da terapia, psiquiatria e a abandonar tudo que tinham depois de terem pirepaques e quase morrerem.

as mulheres, infelizmente, sofrem mais dessa pressão porque também cultivamos e disseminamos que ser “multitarefa” é um grande diferencial no mercado de trabalho. Quem nunca colocou “multitasking” no currículo ou no LinkedIn que atire a primeira pedra.

Ninguém é humanamente capaz de dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo por um período longo. O nosso cérebro “surta” e esse surto nada mais é do que um último aviso do nosso cérebro de que é preciso pisar um pouco no freio porque você está tentando acelerar um carro que não tem mais combustível. Uma hora, ele quebra.

Leia também: Anda querendo jogar tudo para o alto? Respire e leia este texto antes

E como evitar a Síndrome do Burnout?

A Daniele dá algumas dicas:

“Para evitar o desgaste extremo, é muito importante ter momentos de conexão consigo mesmo, tirar alguns minutos para olhar para si, seja por meio de uma atividade física, meditação, yoga, alimentação saudável, terapias ou conexão espiritual. O simplesmente parar e relaxar, ainda que seja difícil, já leva a outro espaço de conexão, reorganização mental, priorização de valores que fazem sentido. Esse comprometimento com o corpo, mente e espírito deve ser diário e leva à desconexão dessa matrix de trabalho e corporativo, que muitas vezes cria dissociação da realidade e da vida.

Ela explica que temos que destruir modelos e padrões que levam a pilotos automáticos exaustivos e irreais, abrindo espaços para novas possibilidades de vida que nem haviam sido cogitadas por conta da procrastinação da própria vida, em se deixar para depois. “Identificando as crenças e o que vem causando as emoções negativas e estresse, de forma a trabalhar e mudar o que não está contribuindo para uma vida mais plena e realizada”, aconselha.

Tão importante quanto olhar para o que nós fazemos conosco é apontar às empresas que elas também precisam entrar no jogo – afinal, são parte do problema e precisam ser parte da solução para funcionar. É muito importante também que práticas de bem-estar sejam adotadas pelo próprio ambiente corporativo.

“Por mais que exista a autorresponsabilidade, acredito ser importante a cooperação da empresa a fim de evitar o aumento de absenteísmo e alta rotatividade, mantendo assim os níveis de produtividade e satisfação”, diz por fim Daniela.

Leia também:
8 ações que ajudam as empresas a chegar na igualdade de gênero
Como identificar e resolver casos de assédio e importunação sexual dentro do ambiente corporativo

Nova mentalidade

Na busca para evitar ou sanar a Síndrome de Burnout é preciso mudar as lentes que olhamos para nós e o mundoSomos imperfeitos. Não damos conta de tudo e nem precisamos dar conta de tudo, ser o melhor em tudo. E principalmente: revisitar nossas definições de sucesso e fracasso.

Por fim, mesmo para identificar os problemas e sair deles, peça ajuda. Se você não está conseguindo sozinho, não hesite em ir atrás de um profissional de psicologia, terapia, psiquiatria, coaching e mentoria.

Vou deixar aqui a dica do episódio com a Izabella Camargo que tenho certeza que vocês vão gostar: https://audioglobo.globo.com/widget/widget.html?audio=349309&color=472f92&podcast=830

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: