Valor Investe – Quais as ações mais baratas da bolsa?

Conheça os três principais múltiplos analisados por gestores, consultores, analistas de ações e investidores para saber se uma empresa está barata ou cara

Reportagem publicada no Valor Investe em 26.10.2021

 — Foto: Getty Images

Por Yasmim Tavares e Naiara Bertão, Valor Investe

Comprar barato e vender caro. Este é o segredo para se lucrar investindo na bolsa de valores, correto? Na teoria parece fácil. Mas como saber quais as ações mais baratas para se comprar? Se uma ação cai de preço ela realmente fica “barata”? Ou essa não é a melhor maneira de chegar à conclusão?

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Bom, uma maneira reconhecida e amplamente usada para se avaliar as empresas na B3 ou no exterior é por meio do fluxo de caixa descontado. Neste formato, o investidor projeta o desempenho operacional da empresa nos próximos cinco ou dez anos, faz estimativas para dali até a perpetuidade, traz essa estimativa ao valor presente e atribui um valor total à empresa que, teoricamente, seria o valor justo do ativo naquele momento. Quando compara esse resultado com o preço da ação na tela do home broker, o investidor consegue avaliar se uma ação está barata ou mais barata que as outras.

Esse caminho, porém, é inacessível para a maior parte dos pequenos investidores, que não têm tempo ou condição técnica de fazer essas contas para as centenas de empresas listadas na B3.

Como um atalho para uma análise prévia, portanto, uma maneira bastante usada por agentes de mercado para se encontrar as pechinchas da bolsa, e também para saber se uma ação está cara, é usar a comparação de múltiplos, que nada mais são do que indicadores que apontam a relação entre o preço da companhia no mercado com indicadores de desempenho. Em outras palavras, é uma maneira simplificada para saber se o valor atribuído pelo mercado para aquela empresa tem relação com suas métricas de resultado.

Entre os múltiplos mais utilizados por profissionais do mercado e, também entre investidores pessoa física, estão P/L, P/VPA e EV/Ebitda. Vamos explicar o que significa cada sigla, lembrando que esses indicadores podem ser calculados tanto para cada ação como para a empresa como um todo:

  • P/L – Preço sobre o Lucro – Esse indicador compara o valor de mercado da empresa com o lucro líquido da companhia em 12 meses, ou o preço da ação com o lucro por ação no mesmo período. É possível usar no denominador tanto o lucro histórico como o projetado, caso você possua a estimativa de vários agentes de mercado para tirar uma média.
  • P/VPA: Preço sobre Valor patrimonial da Ação – Esse indicador relaciona o valor de mercado da empresa com o valor contábil do patrimônio líquido da companhia. Ou o preço da ação com o valor patrimonial de cada ação.
  • EV/Ebitda: Valor da firma (Enterprise Value, em inglês) dividido pelo Ebitda (Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) – Esse indicador compara o valor de empresa, que é a soma do valor de mercado mais a dívida líquida, e a geração potencial de caixa operacional da mesma companhia. O Ebitda, para lembrar, é o lucro da empresa antes de ser descontado o que ela gastou ou recebeu em juros, antes dos impostos sobre o lucro, e antes do efeito da depreciação de seu ativo imobilizado e da amortização de intangíveis.

Embora esses indicadores sejam provavelmente os mais usados, nada impede que os agentes de mercado usem outros múltiplos para fazer suas avaliações, como comparar o EV com o lucro operacional (EV/Ebit), o valor de mercado com a receita líquida de vendas, ou mesmo indicadores que relacionem preço com número operacionais das companhias, como quantidade de lojas, alunos, usuários cadastrados etc.

Vale notar também que bancos e seguradoras tem uma demonstração de resultado diferente das empresas não financeiras, o que significa que não possuem medidas como Ebit ou Ebitda que sejam comparáveis às demais.

Como analisar os múltiplos

Os múltiplos são, geralmente, usados para comparar empresas. Quando colocados lado a lado, eles mostram, então, que, relativamente, uma companhia pode estar sendo negociada abaixo do preço da outra.

Vale destacar, porém, que não basta pegar o múltiplo, aplicar o filtro do menor para o maior e dizer se uma ação está cara ou barata.

Pedro Rudge, sócio-fundador da gestora Leblon Equities, explica, por exemplo, que existem algumas diferenças na aplicação dos indicadores a depender do setor da empresa que será analisada. “O investidor deve ter em mente que tem setores em que o P/VPA, por exemplo, é mais relevante, ou seja, quer dizer mais coisas, enquanto em outros segmentos esse múltiplo não quer dizer nada”, afirma. Assim, avalia, é possível calcular o preço sobre o valor patrimonial no universo de bancos, mas não faz sentido comparar com uma empresa de serviços, por exemplo.

Conforme Alexandre Espírito Santo, economista da Órama e professor do Ibmec, é necessário também que o investidor tenha uma referência para fazer a comparação. E, neste caso, a recomendação é usar a média do setor no qual a empresa faz parte. “Se eu quiser saber em quantas vezes está o múltiplo do papel da CSN, por exemplo, vou recorrer às ações de outras companhias de siderurgia, como Gerdau UsiminasO que eu não posso é comparar Petrobras, que atua com petróleo, com a Ambev, que produz bebidas”, exemplifica.

Além disso, caso a comparação seja feita com uma empresa do exteriorJoão Vitor Freitas, da Toro Investimentos, lembra que a situação pode mudar. “Para comparar uma Petrobras com alguma companhia lá de fora, por exemplo, o investidor deve levar em conta outros fatores, como o próprio risco de cada país, a regulação adotada e a questão dos impostos. Essas diferenças fazem com que a comparação não seja tão simples como acontece no caso de duas empresas nacionais”, pondera.

Só a análise dos múltiplos é suficiente para afirmar se a ação está barata e merece ser comprada? A resposta de Felipe Miranda, sócio da casa de análise Empiricus é um “não” em alto e bom som.

“Diferente do que as pessoas pensam, os múltiplos são o início da avaliação e não o final dela. Primeiro começa-se a tentar entender porque o múltiplo está baixo. O mercado não é bobo. Há razão de o múltiplo estar baixo. Como analista, o papel é se debruçar sobre aquele múltiplo e verificar, por outras variáveis, se, de fato, faz sentido entrar no papel. Ou seja, entender quais as razões pelas quais o mercado está atribuindo um preço baixo”, explica.

Se essas razões são justificadas e, de fato, as perspectivas não são as melhores para a empresa, aí a decisão é por não comprar o papel naquele momento, diz Miranda. Mas, no caso em que na busca mais analítica se descubra que a empresa tem bons fundamentos, está com uma estratégia interessante de crescimento e vale o prêmio de risco, a decisão pode ser por entrar no negócio e esperar que ela se valorize. “As empresas de carruagem no início do século XX estavam com um múltiplo baixo, mas tinha uma explicação para aquilo, estavam sendo deixadas para trás com o advento do automóvel. Múltiplo baixo em si não quer dizer muita coisa”, diz.

Cuidados

O principal cuidado que o investidor precisa ter, segundo Miranda, na hora de analisar uma empresa pelos múltiplos é justamente só considerá-los. Para ele, as grandes oportunidades estão nas assimetrias de informações e a análise de múltiplos já deixou de ser uma vantagem competitiva.

“Não tem atalho. Todo o mercado está vendo o múltiplo baixo. Há razão em cada múltiplo estar no nível que está. A grande recomendação que eu posso dar é: tenha humildade intelectual, saiba que, com dois cliques, com ferramentas hoje disponíveis, qualquer um pode descobrir que o preço está baixo e que seria, então, uma oportunidade de compra”, diz.

Na avaliação de Rudge, enquanto, por um lado, os múltiplos são ferramentas fáceis e rápidas de se fazer o cálculo, por outro, são simplistas e não capturam mudanças e situações específicas de uma empresa. Além disso, na maioria das vezes, lembra, são calculados olhando apenas para o retrovisor, nos últimos 12 meses.

A utilização desses indicadores deveria ser em conjunto com análises adicionais, pois eles funcionam muito mais como uma maneira de o investidor ser chamado atenção por uma oportunidade do que uma resposta direta e objetiva de que aquela empresa está barata ou não”, argumenta.

Além de não dar uma resposta exata, Rudge destaca que a fotografia dos múltiplos não captura a situação de uma empresa no momento atual, nem nos próximos meses, e muito menos nos próximos anos.

O sócio-fundador da Leblon Equities também chama atenção para o fato de os indicadores não visualizarem uma empresa que está em um estágio de maturação diferente. “Uma empresa que está crescendo muito e, portanto, abrindo mão de preço naquele momento vai, eventualmente, ter uma geração de caixa menor, apostando que vai ter uma participação de mercado maior lá na frente”, explica. Neste sentido, Rudge esclarece que, na hora de comparar os múltiplos, o investidor deve saber separar uma empresa já madura, que não tem muito investimento, com uma startup, que está em constante evolução.

Múltiplos altos

Assim como não é porque um múltiplo está muito baixo que é uma boa oportunidade de compra, não é porque ele está alto que necessariamente deixa de ser. O múltiplo alto é um indicador de que o mercado acredita que aquela empresa tem baixo risco, é uma empresa de qualidade, “merece”, de certa forma, ser negociada a um preço mais caro.

Miranda, da Empiricus, exemplifica comparando uma incorporadora imobiliária com uma empresa de shopping centers. As empresas do primeiro grupo só geram receita quando lançam e vendem um projeto novo, enquanto as do segundo setor tem geração de caixa constante. As qualidades são, portanto, diferentes, e assim devem ser seus múltiplos, explica o analista.

Outra coisa que influencia os múltiplos é a entrega. “Múltiplos altos podem ensejar oportunidadesMas cuidadoisso significa que estão depositadas altas expectativas nessas empresas e, quando são frustradas, cai muito o preço. Em cenário de juros altos, o cuidado é redobrado, porque é mais difícil crescer”, diz Miranda. Isso porque, explica ele, a alta da Selic acaba atrapalhando o consumo e a demanda, o que impacta nas receitas das empresas. Além disso, se financiar no mercado também fica mais caro.

Afinal, quais empresas têm os menores múltiplos da B3 hoje

Agora que você entendeu que múltiplo baixo não significa necessariamente que as ações sejam boas para comprar, trazemos abaixo duas tabelas com as 20 empresas que, na sexta-feira (22/10/2021) estavam com os múltiplos EV/Ebitda e P/VPA mais baixos, entre aquelas que integram o Ibr-X. Além de comparar as empresa da lista, é possível observar também como estava o mesmo múltiplo no fim de dezembro de 2020.

20 empresas com menor EV/Ebitda*

EmpresaCódigoEV/Ebitda em 30/12/2020EV/Ebitda em 22/10/2021
UsiminasUSIM512,531,94
CSNCSNA313,092,17
PetrobrasPETR310,222,37
CieloCIEL38,932,77
ValeVALE39,012,77
BraskemBRKM5-80,283,02
Metalúrgica GerdauGOAU48,033,04
GPAPCAR36,543,35
CyrelaCYRE36,413,36
PositivoPOSI39,463,38
GerdauGGBR49,543,52
MarfrigMRFG33,373,54
Telefônica BrasilVIVT34,123,71
LightLIGT313,563,95
JHSFJHSF36,164,07
RandonRAPT410,234,07
SaneparSAPR115,204,13
TaurusTASA46,994,34
CemigCMIG47,124,34
JBSJBSS34,365,02

Fonte: Valor Data e Valor Investe. *dentro do IBrX

20 empresas com menor P/VPA*

EmpresaCódigoP/VPA em 30/12/2020P/VPA em 22/10/2021
CognaCOGN30,480,35
Metalúrgica GerdauGOAU40,370,35
GPAPCAR30,970,46
LightLIGT31,060,48
CieloCIEL30,840,50
BR MallsBRML30,780,56
Lojas AmericanasLAME30,920,65
EletrobrasELET30,700,74
UsiminasUSIM51,110,80
Porto SeguroPSSA31,700,82
CopelCPLE60,080,83
MRVMRVE31,490,83
JHSFJHSF31,320,86
CyrelaCYRE31,720,96
EDP Energias do BrasilENBR31,030,99
PetrobrasPETR31,371,00
SabespSBSP31,391,01
EZ TecEZTC32,351,03
CosanCSAN30,651,04
Telefônica BrasilVIVT31,081,10

Fonte: Valor Data e Valor Investe. *dentro do IBrX

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