Valor Investe – Pandemia faz mulheres repensarem carreira, habilidades e pensarem – seriamente – em empreender

Estudo Global Learner Survey 2021 – Parte 3, da Pearson, mostra que 59% das brasileiras disseram que querem mudar de vida nos próximos seis meses

Por Naiara Bertão

Esta reportagem foi publicada no Valor Investe em 09/11/2021

Não há dúvida que a pandemia colocou todo mundo para pensar sobre sua vida, seus projetos e ambições. Para Marcela Teixeira, enquanto o ano de 2020 foi de “correria” para conseguir salvar a startup que trabalhava, a fintech de crédito a55 (o que ela e a equipe conseguiram com louvor), este ano foi o momento em que muitas fichas caíram e ela decidiu fazer uma nova mudança de carreira, a terceira de sua vida, que foi marcada por mais de uma década trabalhando em instituições financeiras como Unibanco, HSBC e BTG.

“Eu tive uma mudança grande antes da pandemia e a pandemia fez com que algo que já seria intenso por natureza, fosse ainda mais intenso. Comecei a me questionar, este ano, porém, qual era o meu projeto de vida e não parecia ser aquele”, conta a executiva que acaba de se tornar sócia de um projeto de empoderamento de mulheres no mercado financeiro, o Fin4she.

Foi um período de muitos desafios em que ela percebeu que precisava estudar mais, buscar mais conhecimento, seja para ‘pivotar’ – termo usado no meio empreendedor para falar sobre guinadas de estratégias – o negócio onde trabalhava, como para desenvolver habilidades de gestão, como liderança de time.

“Eu precisava, primeiro, entender esse universo de startup e tecnologia. As metodologias, os indicadores, estudar os cases de startup lá de fora, como funcionava o mercado de investimentos, além, claro, aprender sobre liderança, gestão e cultura organizacional”, explica.

Assim como ela, muitas outras brasileiras repensaram suas carreiras e perceberam que necessitavam de outras habilidades para crescer em suas carreiras. Segundo estudo da empresa global de educação Pearson, chamado de Global Learner Survey 2021 – Parte 3, 84% das respondentes brasileiras afirmaram que estão usando a pandemia como uma oportunidade para reavaliar suas vidas, principalmente as carreiras. Esse número passa para 86% entre as brasileiras da chamada Geração Z (entre 14 e 24 anos), 84% para as Millenials (25 a 40 anos), 79% para as Geração X (40 a 60 anos) e 89% para as Baby Boomers (nascidas entre as décadas de 60 e 70).

E os motivos para isso são diversos: vão desde o medo de perder o emprego e ter redução de salário (ou porque, de fato, perdeu o emprego ou teve diminuição de remuneração), a desconfiança que as oportunidades para mulheres no ambiente de trabalho vão melhorar em breve, a percepção de que haverá melhores oportunidades de emprego e até vontade mesmo de seguir um propósito.

Segundo a pesquisa, 78% das brasileiras afirmaram que a economia do país piorou desde o início da pandemia; 81% afirmam que o cenário para oportunidades de trabalho também piorou, assim como os salários (73% concordaram) e igualdade (falta de, no caso) no ambiente corporativo (26%)O percentual de respondentes brasileiras que concordaram com a piora desses tópicos é o maior entre os países pesquisados – Estados Unidos, China, México, Índia e Reino Unido – em todos esses pontos. Muitas até acreditam que as coisas possam ficar melhor, mas, antes disso, apostam que podem piorar ainda mais.

“Mesmo com os desafios de saúde mental, viés de gênero e uma pandemia que as deixou ainda mais multitarefas e potencializou todas as diferenças que já havia no mercado, as mulheres seguem buscando melhores oportunidades de trabalho. Além de desenvolverem novas habilidades, principalmente as com foco em empreendedorismo e em liderança”, afirma Heloisa Avilez Guerato, Diretora Comercial da Pearson.

Quando questionadas se pensam em mudar de emprego ou começar um negócio nos próximos seis meses, 59% das brasileiras disseram que sim. O único país que teve uma resposta maior foi a Índia (74%). No México, 45% afirmaram que sim, enquanto nos Estados Unidos, Reino Unido e China, os percentuais de respostas afirmativas foram de 39%, 37% e 35%, respectivamente.

A saída que muitas estão encontrando e pensando seriamente a respeito está no empreendedorismo. Quando questionadas sobre o que pretendem fazer, mulheres de diversas gerações e países responderam que planejam tomar as medidas necessárias para iniciar seus negócios próprios no próximo ano. No Brasil elas também apresentaram essa percepção, com 30% entre as mulheres da Geração Z, 33% para as Millenials, 37% na Geração X e 41% para as Baby Boomers.

“Acreditamos que o desemprego e o corte de salários foi o que motivou-as a empreender ou pensar sobre isso, como uma forma de complementar renda”, diz Heloisa, citando pesquisas paralelas, como a internacional Global Entrepreneurship Monitor que mostra crescimento de empreendedores mulheres, e do Sebrae, que traz que muitas estão se aperfeiçoando, estudando, para se reinventar.

Angelica Soller, já trabalha como comunicadora e assessora de comunicação há algum tempo, mas na pandemia acabou profissionalizando um hobby, a produção de licores, como limoncelo. Ainda que o círculo de clientes se restrinja mais a amigos e amigos de amigos, a renda extra ajudou a compensar a perda que teve de receita no ano passado e este ano. “Contei com a ajuda de uma amiga para desenvolver a marca, uso garrafas reutilizáveis e agora comecei a testar novos sabores; vejo que tem potencial”, diz.

“Além de empreendedorismo e liderança, as mulheres se destacam em outras habilidades, como maior capacidade de adaptação na pandemia, maior agilidade, e adoção de atividades inovadoras. A mulher tem perfil mais adaptável, além de resiliência e criatividade”, acrescenta a executiva.

Mesmo assim, elas perceberam que precisam estudar mais para se desenvolver, seja em suas carreiras ou empreendendo. O estudo traz que, para 89% das brasileiras, a pandemia mostrou que elas precisam de novas habilidades que não possuíam e 91% disseram que sabem que há novas habilidades que são importantes para que elas consigam crescer na carreira no atual ou em um novo emprego. Uma boa parte delas (71%), inclusive, teme perder espaço porque não tem ainda esses aprendizados.

Habilidades de empreendedorismo estão entre as mais desejadas em mulheres da Geração X (31%) e Baby Boomer (29%) do Brasil. A pandemia aumentou o interesse global das mulheres em aprender novas habilidades, com 88% das que procuram trabalho buscando incrementar suas habilidades profissionais para se tornarem melhores candidatas a empregos.

Apesar de a pandemia ter aumentado o interesse das brasileiras (85%) por aprender coisas novas, só 39% delas afirmaram que conseguem arcar com os custos e dedicar o tempo para os treinamentos necessários. Entre as habilidades mais demandadas estão liderança (20%), gestão de equipe (18%), comunicação (18%) e colaboração (18%).

A Pearson conduziu o estudo em parceria com a Morning Consult, empresa global de inteligência de dados sediada nos Estados Unidos. Ao todo, foram ouvidas mil mulheres a partir dos 18 anos, por meio de entrevistas on-line, entre os dias 17 de agosto e 5 de setembro. Os resultados são representativos da população com acesso à internet em cada país, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Condições de trabalho

Outro dado revelador do estudo é que, com relação ao desenvolvimento profissional e benefícios, o trabalho remoto (52%) e os horários de trabalho flexíveis (45%) são apontados como os principais pelas brasileiras.

Só 11% disseram que as empresas para as quais trabalham ofereceram treinamento específico para o desenvolvimento profissional e liderança de mulheres; só 22% tiveram recursos para cuidar da saúde mental; 9% tiveram acesso a serviços de cuidado das crianças, e apenas 5% puderam contar com a empresa para ajudar na educação dos filhos durante a pandemia.

Quais desses recursos você acha que as companhias deveriam oferecer aos funcionários (escolha duas opções):

ServiçoPercentual de respostas afirmativas
Serviços de cuidado de crianças11%
Acesso a serviços de saúde mental18%
Serviços de academia e saúde física8%
Assistência para pagar cursos10%
Desenvolvimento de habilidades técnicas e profissionais18%
Treinamento para liderança6%
Horários flexíveis18%
Trabalho remoto14%
Pagamento de cursos/escolas para crianças5%
Treinamento de desenvolvimento para lideranças mulheres18%
Salários competitivos25%
Treinamento para diversidade e inclusão11%
Treinamento para prevenção e combate ao assédio sexual11%

Fonte: Global Learner Survey 2021

No Brasil (87%), China (70%) e México (79%), a maioria das mulheres acredita ter menos oportunidades do que os homens no local de trabalho. Entre as mulheres da Geração X e também Baby Boomer que procuram trabalho em países como Brasil, China, Índia e México estão preocupadas com a idade e o gênero também serem uma barreira. Especialmente na Índia, elas ainda temem que sua raça e/ou etnia possa ser mais um empecilho.

“O que muda o jogo é conscientização e trazer as pessoas para a conversa, dar oportunidade a elas. Nos programas de mentoria que a gente faz, por exemplo, procuramos entender objetivos de cada uma das mulheres e ajudá-las a traçar os próximos passos. Nós, mulheres, somos muito mais cobradas. Precisamos ter mais voz ativa. Os grupos de afinidade é onde damos voz as pessoas; se não as ouvirmos, não saberemos o que elas almejam, o que precisam das empresas”, finaliza

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