Valor Investe – Demanda por conselheiros cresce em 2021, puxada por startups e empresas de capital aberto

Em 2022, a expectativa é que conselhos ganhem mais protagonismo com os desafios mais latentes de internacionalização, digitalização e confusão político-econômica. Colegiados consultivos devem crescer mais

Por Naiara Bertão

Esta reportagem foi publicada no site do Valor Investe em 10/11/2021

A busca por pessoas para compor conselhos de administração e consultivo tem crescido no último ano. Segundo pesquisa da empresa de recrutamento de executivos de alto escalão Flow, no último ano foi registrado um aumento de 150% de demanda por profissionais para compor o colegiado de diversas empresas, como startups, empresas familiares e de capital fechado e também companhias de capital aberto ou que querem fazer seu IPO (oferta inicial de ações na bolsa de valores).

Com o cenário político, econômico e internacional tão conturbado e o desafio da digitalização, as empresas estão à procura de pessoas que possam ajudar na estratégia do negócio para crescer. “Com a sua experiência, esses conselheiros aportam segurança e agilidade às escolhas e decisões – do aprimoramento do plano de negócios às consecutivas mudanças no mercado e na sociedade a projetos mais específicos, como a preparação para abertura de capital ou a digitalização do negócio ou serviço”, aponta Igor Schultz, sócio da Flow Executive Finders.

Segundo a consultoria, a onda de IPOs deste ano ajuda a impulsionar a demanda, uma vez que várias empresas tiveram que se adequar em tempo recorde e buscaram no mercado conhecimentos específicos a fim de ter, ainda que temporariamente, conselheiros capazes de instruir seus executivosUma empresa aberta deve ter um mínimo de três a cinco conselheiros em seu Conselho de Administração, dependendo do segmento de listagem, com percentual obrigatório de independentes. Mas a procura por ajuda mais informal cresce rápido.

A última pesquisa “Board Index 2021” da consultoria global Spencer Stuart mostra um aumento de 2% no número de posições em conselho (1.598 das empresas avaliadas), “reflexo das várias empresas novas”. Mas outros números chamam mais a atenção: o número médio de comitês passou de 2,6 para 2,9 por empresa entre 2020 e 2021, e o percentual de empresas com comitês de Inovação, Tecnologia e Transformação Digital quase dobrou, de 8% para 15% das empresas.

Isso mostra que as empresas estão buscando se cercar de mais pessoas que as possam ajudar nos dilemas da nova era digital dos negócios, mesmo que esses profissionais não assumam cadeiras formais e com muito mais responsabilidade legal nos conselhos de administração. A expectativa é que conselhos consultivos se popularizem ainda mais.

Quem é hoje obrigado a ter conselhos de administração são as empresas de capital aberto, que é um número restrito de empresas quando olhamos o total de companhias no Brasil. Mas temos percebido que mais empresas de capital fechado vem estruturando conselhos, mas não só de administração, como também consultivos, que seguem dinâmicas parecidas, mas com formalidade ou nível de responsabilidade legal menor para os conselheiros, em termos de responsabilidade legal”, comenta Humberto Wahrhaftig, diretor da Page Executive, unidade de negócio do PageGroup especializada em recrutamento e seleção de executivos para alta direção.

A consultoria não tem um número exato que exemplifique a crescente demanda, mas a percepção é que as empresas de capital fechado, e aqui entram as startups, estão cada vez mais preocupadas em ter essa ajuda extra. Os principais motivadores, de acordo com Wahrhaftig, vão da sucessão familiar à necessidade de reposicionamento de marca, seja porque a empresa passa por dificuldade financeira ou porque quer perenizar seu negócio.

Em geral, empresas acima de R$ 100 milhões de faturamento são as que mais estão olhando para isso, mas a procura depende muito do momento e expectativas dos acionistas de como o negócio está evoluindo. O papel dos conselheiros está cada vez mais em ajudar as empresas a serem mais lucrativas e se manterem ativas em mercados mais turbulentos e competitivos”, disse ao Valor Investe.

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Startups

Para a Flow, vale um destaque para as startups. No Vale do Silício, centro da inovação americana e que exportou ao mundo o conceito de startups (empresas que, com tecnologia, buscam crescimento exponencial), o conselho consultivo, ou “board of advisors”, como é conhecido, já é um aliado de longa data das empresas. As startups investidas por fundos de investimento no Brasil também já adotam essa prática.

“Seu papel é diferente dos conselhos de administração e diretivo, tanto no que tange às atribuições quanto no seu propósito e vínculo com as organizações. Não há, por exemplo, necessidade de registro na Comissão de Valores Monetários (CVM) ou em outros órgãos. Esse conselheiro não tem também poder de voto ou veto dentro da organização. Seu foco está na colaboração, isto é, em preencher um gap de conhecimento”, explica Schultz.

Dentro deste modelo, o conselho consultivo serve mais como um acelerador de mudanças ao trazer pensamento crítico e ideias para problemas ou projetos, reduzindo a curva de aprendizagem e o risco de erros mais caros.

A demanda por conselheiros vem aumentando, porém, muitas vezes por exigência dos fundos de venture capital, interessados em ampliar a governança e as chances de sucesso dos negócios financiados.

Vale lembrar que, somente no primeiro semestre deste ano, mesmo com o país atravessando a pior fase da crise sanitária, as startups brasileiras receberam aporte de US$ 5,2 bilhões, 45% superior ao longo de todo o ano de 2020, segundo o Inside Venture Capital. Isso fez com que o número de posições abertas desta natureza em 2021 crescesse para diferentes competências (Financeiro, Marketing, Tecnologia, Governança etc.).

Contudo, a Flow aponta que a principal razão para esse movimento, que atrai também companhias de capital fechado, como organizações familiares e PMEs, é o aumento da consciência sobre os benefícios que esse modelo de conselho aporta tanto para a organização quanto para os executivos de alto escalão.

“Na contratação de um advisor, de um lado, a empresa tem a chance de adquirir o conhecimento de um profissional experiente e isento, que não só compartilha a sua experiência, como também questiona crenças e processos internos, criando ou consolidando uma cultura de inovação e aprendizagem dentro desta organização, não mais dependente de comitês internos ou de grupos específicos. O custo-benefício é ainda mais atrativo se comparado à contratação de grandes consultores ou consultorias”, diz Schultz.

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Pluralidade

Segundo Wahrhaftig, ainda é comum a busca por pessoas com pensamentos iguais aos atuais membros dos colegiados e, por isso, a indicação é a principal fonte de recrutamento, por enquanto. Mas os head hunters também estão cada vez sendo mais demandados, especialmente por empresas que entendem que a pluralidade de ideias e experiências pode beneficiar a companhia.

“Quando olhamos o perfil dos conselheiros, oito anos atrás, uma característica comum era ter background financeiro, saber fazer contas e ajudar no controle do financeiro. Agora, a diversidade é muito maior no conselho, de formação, de cultura, de experiência de vida, de conhecimento e de gênero. Conselho é lugar de representatividade maior de pensamentos, explica Wahrhaftig, da Michael Page.

Ele vê, por exemplo, procura maior por pessoas que tenham conhecimento em tecnologiaconheçam sobre varejo e marketingespecialmente o digital e entendam sobre comportamento de públicos diversos. Não é só a representatividade dos acionistas, mas de diferentes stakeholders.

Mesmo nas startups, que tinham boa parte da composição dos conselhos os representantes de fundos, estão fazendo mudanças e dando mais espaço a outros advisors com conhecimento de produtos, serviços, pivotagem de estratégia.

“A colaboração entre as marcas, entre a empresa e o executivo, também é um agregador de valor para ambos”, comenta a Flow.

Entre os setores que mais têm puxado esse movimento, de acordo com a consultoria, estão serviços financeiros, saúde, educação e tecnologia, impulsionado pelos enormes desafios e oportunidades presentes nessas áreas no Brasil.

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