Valor Investe – Veja 5 ensinamentos de Morgan Housel, autor do famoso livro Psicologia Financeira

Em entrevista no evento da casa de análise Empiricus, ele conta um pouco do que leva as pessoas a serem bem-sucedidas na vida financeira

Por Naiara Bertão

Reportagem publicada no Valor Investe em 10/11/2021

Conhecimento não é sinônimo de rentabilidade no investimento. O que, de fato, conta é o comportamento das pessoas mesmo. É o que defende Morgan Housel, autor do famoso livro Psicologia Financeira, publicado pela editora Harper Collins, que participou de entrevista em evento da casa de análises Empiricus ontem à tarde.

O que importa para investir e poupar dinheiro é sua propensão de controlar a ganância e o medo, além da capacidade de olhar para o futuro”, diz. “Quando as pessoas estão aprendendo sobre finanças e investimentos, querem saber quais são as fórmulas, mas o mais difícil de ensinar mesmo é o lado ‘soft’, comportamental, dos investimentos, mesmo para quem é inteligente”, completa.

Na conversa com a analista da Empiricus Larissa Quaresma, ele traz alguns ensinamentos para os investidores. Veja:

1. Atitudes e calma importam mais do que contas e informações

No livro, ele conta alguns exemplos para justificar seus argumentos e dois deles são o de um senhor que era faxineiro e mal sabia ler. Quando faleceu, deixou uma boa herança para os filhos porque durante décadas poupou dinheiro; e outro de um empreendedor que fundou uma startup, mas se deu mal, alavancou, ficou com dívidas, foi impaciente, pediu falência em 2008 e não deixou nada para a família.

“O ponto importante aqui é que há poucos setores em que o conhecimento é primordial, como no caso de médicos cardiologistas e engenheiros de prédios. Em investimentos, não. É possível que uma pessoa comum saia melhor do que alguém instruído. Pessoas comuns se dão melhor do que muitos bem formados; isso mostra que os aspectos comportamentais vão ser mais importantes”, explicou.

Na opinião de Housel, o último foi vítima de um sentimento de ganância e não por falta de instrução, o que as pessoas devem evitar.

2. Cuidado com os casos extremos

As pessoas tendem a olhar empresários e investidores de destaque como casos de sucesso a serem seguidos. A exemplo de Warren Buffet (Berkshire), Bill Gates (Microsoft) e Elon Musk (Tesla). O risco aqui é nem tudo pode ser replicável.

“É preciso tomar cuidado porque há sim coisas que podemos emular do sucesso de pessoas muito bem-sucedidas e aprender com elas, mas quando você olha de perto, há um elemento sorte que não pode ser replicado”, pontua. Ele exemplifica falando que Bill Gates sempre fala que estudou na única faculdade que tinha computador – se tivesse estudado em uma que não tivesse, talvez a história teria sido outra.

Outro ponto que ele levanta é que o estilo de vida de alguns não é também aplicável a todos. Cita que Elon Musk já dormiu noites seguidas no escritório, mas que para ele isso é aceitável porque o perfil dele é esse, quase obsessivo pelo que faz. Já ele, Housel, comenta que prefere o equilíbrio, ter tempo para a família, para ler os livros, valoriza seu sono e caminhadas – seu hobby principal, que, diz, o ajuda a pensar e ser criativo.

“Tem pessoas que têm que correr a 100 milhas por hora, o tempo todo. Mas quantas pessoas têm esse nível todo de dopamina para ficar nesse ritmo? Para a maioria de nós, isso não é razoável”, comenta.

Esse conselho se estende para o universo financeiro, segundo ele. Não dá para acreditar que o que deu certo para alguém alcançar o sucesso financeiro é o que dará certo para outras pessoas, já que é preciso respeitar as individualidades.

3. Suficiente é relativo

Outro ensinamento do livro que ele comenta na entrevista é o conceito do suficiente. Quando falamos de dinheiro, o que é suficiente para um pode ser diferente do outro. E ter o suficiente também não é sinônimo de aposentadoria ou fim da ambição.

“Para mim, o bastante é algo que me permite fazer o que eu quero. Que me dê a sensação de que não estou me matando para fazer algo que não gosto, mas sim de que o que eu tenho é o suficiente para viver, para ter autonomia financeira, que me permite fazer o que quiser e não correr atrás do dinheiro pelo dinheiro em si”, explica. É isso que, segundo ele, traz felicidade.

Outro exemplo que conta no livro é de uma pessoa que, bem-sucedido financeiramente, foi perguntado sobre o momento em que soube, ou percebeu, que teria dinheiro suficiente para obter o que quisesse e ser feliz. Ele respondeu que esta sensação ele teve muito antes de ser bem-sucedido na empresa que criou e vendeu por US$ 25 milhões, mas quando ganhou US$ 22 em um contexto que ele não tinha nada. Suficiente é relativo.

4. O cenário muda e você precisa estar atento

Quando perguntado especificamente sobre se acredita nos investimentos de valor (“value investing”), ele explica que as coisas mudaram e os investidores precisam ficar atentos a essas mudanças de ciclos. A estratégia de value investing, muito popular na década passada, aposta em empresas com potencial de gerar valor a longo prazo, e não em seu preço de mercado.

Para o autor, as empresas de tecnologia, como Google e Facebook, por exemplo, têm uma lógica de mercado diferente, porque têm poucos ativos tangíveis em seus balanços e a marca, assim como o “storyrelling” (como contam a sua história) importam mais.

“Não importa o que a empresa consegue fazer, mas a história que vai produzir no futuro. A história é mais importante do que a realidade. E como as empresas podem trabalhar hoje com tão poucos ativos? São as marcas e suas histórias que fazem as pessoas gostarem daquela empresa e dar atenção a ela. As empresas têm sucesso pela história que contam e não são mais dados mensuráveis como no passado que contam tanto”, explica.

Esse tipo de empresa, como as de tecnologia, são chamadas empresas de crescimento. Elas se beneficiam de um cenário de juros baixos. Por isso, segundo ele, pode ser que as empresas de valor voltem a ganhar relevância quando os juros subirem, mas é difícil prever a curva.

A lição que tiramos daqui é ficar sempre atento às novas condições do mercado e estar aberto a novas possibilidades. A diversificação dos investimentos pode também ser uma estratégia inteligente para minimizar riscos de mudança.

5. O sucesso cobra sempre um preço

Um tópico que ele também aborda é o do sucesso, mas mais especificamente seu preço. A analogia que Housel faz é com a academia. Para se manter saudável você vai à academia durante uma hora, todos os dias. Mas se quiser ficar ainda mais saudável, pode começar a frequentar duas horas por dia, o que, certamente, vai trazer consequências também – dores, lesões, e cansaço. Tudo tem seu preço e o sucesso, principalmente o dos outros, não temos o costume de mensurar e olhar.

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