Valor Investe – Investidores aprendem na sala de aula como acertar com a cabeça e não errar com o coração

Curso de neurociência para operadores do mercado financeiro atraem pessoas que querem aprender a controlar suas emoções para ganhar dinheiro

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo

Reportagem publicada no site do Valor Investe em 13/12/2021

Quem desse uma espiada naquela sala de eventos com mais de 30 pessoas espalhadas, em um sábado nublado em São Paulo, dificilmente imaginaria que tipo de curso estaria acontecendo ali. Dentre os participantes, os perfis eram bem diversificados, assim como os sotaques. Havia pessoas ali de diferentes lugares do Brasil e até um homem da Finlândia. De profissões diversas – assessor de investimento, bancária aposentada, empresária, dona de loja, musicista, curiosos, e por aí vai. Todos prestavam atenção com caras de incômodo, surpresa e incredulidade no que a professora, bem vestida, estava fazendo às 9h40 daquela manhã. A atividade era se imaginar tomando um vinho. Primeiro ela colocou o líquido da garrafa em uma bela taça. Depois, o despejou da taça em uma garrafa plástica. Por fim, jogou tudo em um balde com as palavras “lixo” em um rótulo. Neste momento, as faces dos estudantes apresentavam uma combinação de nojo com perplexidade. Foram só alguns minutos depois que a ficha caiu.

O nosso cérebro cria associações que não controlamos, que estão associadas à nossa memória. Se o cheiro do vinho lembra uma comemoração, quando colocado em um balde de lixo, o valor muda completa e rapidamente. “É a associação que traz a sensação de coisas positivas”, explicou a professora e perguntou quem tomaria o vinho no balde de lixo. “Depois de 150 boletas pode ser”, respondeu um aluno e levou a classe toda a rir.

O exercício foi o pontapé inicial do segundo de três dias do curso ‘NeuroTrading, ministrado por Danielle Gurgel, que contou com outras atividades do tipo, que se propõem a colocar os alunos – grupo formado por traders (operadores de alta frequência no mercado financeiro) ou aspirantes a traders – a pensarem sobre o que, de fato, controlam e o que o cérebro dá as cartas sem nem consultar.

Falar sobre neurociência para investidores não é, definitivamente, algo comum. Apesar de as finanças comportamentais terem ganhado cada vez mais adeptos, por estarem intimamente ligadas ao estudo de como investidores, consumidores e operadores de mercado atuam, são raros os cursos que entram em temas da biologia celular, psiquiatria, psicologia e, ao mesmo tempo, finanças. É isso que Danielle se propõe a entregar nos três dias de aulas presenciais e nas aulas on-line e materiais de apoio.

Formada em administração de empresas, com especialização em finanças corporativas e mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro, tendo trabalhado como operadora, analista gráfica, valuation e agente de investimentos, Danielle ainda passou 10 anos dedicados a sistemas de negociação para investidores.

Nesse período, teve contato direto com inúmeros profissionais que se viciam na adrenalina de operar ações, minicontratos, criptomoedas, câmbio, entre outros ativos, em uma frequência alta, abdicando, muitas vezes de uma boa noite de sono, passando fome, alimentando vícios, e deixando de lado outras necessidades para estar “ligado” nas cotações e tentar ganhar dinheiro. Não que todos os traders ou investidores que se tornam profissionais, obviamente, tenham esse perfil, mas é um tipo de atividade muito associada ao vício, semelhante a jogos de azar.

Vendo aquilo e se incomodando, em um daqueles momentos que a vida gira e mostra outros caminhos, ela decidiu largar o mercado financeiro e ir estudar biologia, tendo se encantado pelo cérebro humano. Decidiu, então, que era com isso que iria trabalhar. As aulas vieram junto com a vontade de testar, em laboratório, a teoria que defende: nós não somos donos nem de 90% das nossas decisões, mas é possível reprogramar o cérebro (e as células) para tomarmos atitudes melhores, inclusive, na hora que estivermos na frente de uma tela com gráficos e cotações vermelhos e amarelos pipocando e nos causando ansiedade para vender ou comprar um ativo.

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Em um primeiro momento, as frases parecem ter pouco contexto, mas as aulas são pensadas para levar as pessoas a entenderem como, biologicamente, o cérebro funciona, mostram – e compravam – como somos seres irracionais, e dá dicas preciosas para os investidores conseguirem se dar melhor nas aplicações, seja controlando impulsos ou mudando sua maneira de pensar.

Ela defende que, quando o investidor aprende a ler corretamente o que está acontecendo com suas emoções, fica apto a tomar decisões que podem conduzi-lo ao que realmente quer. Explica que a ação final (atitude a partir da decisão) é sempre a resposta de um processo prévio, que aconteceu antes e que está longe do consciente.

Analisar as emoções, como raiva e medo, é uma das “disciplinas” ensinadas. Parte do contexto do curso vem do que o Nobel Daniel Kahneman apresentou no seu best seller “Rápido e devagar”: os seres humanos têm duas formas de pensar que trabalham juntas, um lado que controlamos, mas pensa devagar, e um lado que é intuitivo, que pensa rápido, mas que muitas vezes nos leva a tomar decisões precipitadas. Isso porque na história da evolução humana, o cérebro percebeu que só daria para tomar a quantidade de decisão que o humano toma se poupasse energia e, por isso, pegar “atalhos”, buscar padrões, virou uma questão de sobrevivência.

Danielle Gurgel, criadora do Neurotrading Experience — Foto: Divulgação

Danielle Gurgel, criadora do Neurotrading Experience — Foto: Divulgação

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Vieses comportamentais

Parte importante dos ensinamentos estão ligados aos vieses comportamentais. Na opinião da especialista, dois vieses que acometem os investidores são o efeito manada, em que as pessoas seguem o comportamento dos outros, e o FOMO (fear of missing out, ou, na tradução, medo de ficar de fora).

“O efeito manada é um processo absolutamente biológico; nossa máquina cerebral tende a copiar”. Ela cita, porém, que no caso dos investidores, o FOMO é ainda mais presente. “Neste caso, não é nem a cópia; é o medo de não participar”, pontua. É por isso, diz, que muita gente, vendo que a operação não está dando certo, posterga ao máximo a saída da aplicação, porque teme que vai haver uma virada no mercado e ele pode ficar de fora. “E se vender e o papel subir?”, pensa.

Outro ponto que, na visão de Danielle, é o maior desafio do investidor que se aventura a cuidar sozinho de toda sua carteira é a imprevisibilidade. A incerteza com relação ao que vem por aí deixa as pessoas sem parâmetros, o que se viu durante a pandemia, com seis ‘circuit breakers’ (parada da negociação da bolsa de valores por quedas acima de 10%) na B3.

A mente humana não é treinada para lidar com isso. Onde o cérebro não encontra previsibilidade, ele cria. Isso é fatal no mercado. Nesse cenário, um conceito fundamental deixa de existir: o certo. A mente de uma pessoa treinada passa justamente por aceitar o imprevisível”, diz Danielle.

Para ela, a lógica é a seguinte: se a imprevisibilidade é um fato – e a pessoa aceita isso – o que é “certo” deixa de existir e o medo de errar também. “Se eu estou desconectada desse medo, a tendência é errar menos”, aponta.

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Ela faz uma analogia com o medo de assalto. Se você não sabe onde pode ser assaltado, tende a querer ter o controle total, com segurança, carro blindado, GPS por satélite, etc. Mas, uma segunda opção é aceitar o fato de que isso pode acontecer sim e montar um plano de como vai agir se isso acontecer. Isso diminui ainda a ansiedade do controle da situação. É exatamente isso que ela ensina: que o investidor precisa parar de pensar e seguir um plano pré-determinado de compra e venda de ativo, com tetos e mínimos de ganhos/perdas, sem levar em conta suas emoções.

“Levando para o mercado, quando a pessoa acha que pode fazer a previsão é quando aumenta a probabilidade do erro. Achar que temos a possibilidade de controlar o entorno, é um delírio, uma distorção cognitiva.”

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Atrativo

Apesar de pesquisas mostrarem que a taxa de sucesso a longo prazo do day trader (quem compra e vende ações no mesmo dia) ser baixa, o número crescente de pessoas físicas na B3 mostra que há um interesse grande das pessoas por investir em renda variável, parte delas, com alta frequência.

A B3 alcançou em outubro o número de 3,4 milhões de CPFs cadastrados para investimentos em renda variávelJá o número total de contas de pessoas físicas chegou a 4 milhões, uma vez que uma mesma pessoa pode ter contas em diversas corretoras. Como base de comparação, a primeira vez em que a B3 alcançou 1 milhão de pessoas físicas na renda variável foi em 2019.

Das 4 milhões de contas abertas 2,9 milhões são contas de homens e 1,1 milhão de mulheres – no curso de Danielle, um terço aproximadamente dos alunos são mulheres. É, ainda, uma atividade mais masculina, mas no trading, pode ser que elas levem a vantagem.

Estudo feito este ano pelo grupo de investimentos americano Fidelity mostrou que as mulheres acabam ganhando mais dinheiro do que homens em seus investimentos. Segundo o relatório “Women and Investing Study” de 2021, ao analisar 5,2 milhões de portfólios entre janeiro de 2011 e dezembro de 2020, ficou constatado que a carteira das mulheres teve um retorno de cerca de 0,4 ponto percentual ao ano superior ao dos homens, na média.

Há algumas razões que explicam isso, como, por exemplo, o fato de elas fazerem menos movimentações — ou menos trades de curto prazo — em seus investimentos. Isso leva a duas consequências: dá tempo de recuperar eventuais perdas sem realizar o prejuízo e os custos de taxas são menores, não prejudicando o desempenho total.

Pode ser que algumas pessoas nasceram já com um nível de autocontrole e racionalidade maior. Mas Danielle defende que é possível mudar os padrões cerebrais em prol do que queremos. “O cérebro tem uma característica fundamental que, apesar de nosso comportamento ser biológico, ele tem estrutura plástica, uma arquitetura que muda em tempo real, a cada pensamento e experiência, com o ambiente ou com você mesmo. Posso até ter um comportamento que vem de genética e da infância, mas eu posso mudar isso porque o cérebro permite, diferente de outros órgãos. A ciência nos últimos 50 anos demonstrou que isso não é exceção e regra”, finaliza.

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